Neste carnaval vou sambar em Manaus

Imagine você assistir de graça um desfile de escola de samba grandioso vindo em sua direção. Imagine, todos os carros com movimentos em grandes esculturas, confeccionados pelos artistas parintinenses. Imagine uma arquibancada repleta de torcedores fanáticos da sua escola que a farão pulsar no momento em que ela desfilar. Imagine tudo isso ao lado de mais de 100mil pessoas assistindo, com baterias ousadas e sambas de qualidade. Isso é o carnaval de Manaus e esse é o palco da festa na Amazônia. E aqui estou neste rincão amado do Brasil que nos fez um país forte e preserva a maior floresta tropical do mundo. Aqui onde a simbiose cabocla de criatividade imensa produz espetáculos grandiosos com os mais variados elementos culturais. E daqui com muito orgulho testemunharei um dos maiores carnavais do Brasil. Um dos maiores desfiles de escolas de samba do mundo. Que respeita traços fundamentais da manifestação popular carioca e que enriquece a mesma com marcas originais da região. Neste texto traduzirei um pouco da expectativa para a quinta, sexta e sábado de carnaval. Na quinta em Manaus desfilam as cinco candidatas a escola de samba, uma espécie de grupo de avaliação. Na sexta mais 12 agremiações se apresentam pelos 2 grupos de acesso. E finalmente as grandes desfilam no sábado, com toda imponência.

Enquanto estive aqui visitei barracões e conversei por horas com as pessoas que fazem carnaval das escolas de samba. Peço desculpas a todos se não reproduzo na íntegra tantos depoimentos riquíssimos em detalhes e impressões marcantes sobre a festa como um todo.Assisti a ensaios das escolas onde a marca forte do carnaval daqui se renova e circulando pela cidade e ouvindo os sambas todos os dias pude notar como tudo se encaixa.

No sábado a primeira escola a desfilar, por volta de 21hs no horário de Brasília será a Dragões do Império. Será a estréia da escola que demonstra a garra e vontade típicas das escolas que desejam um lugar ao sol entre as grandes. Busca se estruturar e ficar definitivamente. O caminho é árduo, sem a liberação da subvenção pública para nenhuma escola e com uma estrutura muito inferior as demais a Dragões tem que matar um “dragão” por dia para construir seu carnaval. Enquanto todas as demais se preparam em galpões especialmente construídos para este fim, um louvável projeto idealizado por Bosco Saraiva, ex-presidente da Reino Unido, apenas a Dragões não tem galpão. É que o número de escolas no grupo principal hoje é maior que o de galpões. A esperança de ficar no grupo é real e ressaltada na fala do artista da Dragões, Glaucivan durante entrevista no barracão: “muitas vezes tem escolas com carros grandes e mal-acabados”.

Logo a seguir a disputa esquenta com uma escola que representa um bairro imenso e cheio de histórias. Manaus é uma cidade que foi ocupada em muitos momentos sem um plano organizacional. Assim são recorrentes os bairros que nasceram de invasões e foram regularizados posteriormente. O histórico de lutas por essa regularização é proporcional, evidentemente. Fruto dessas lutas nasceu um bairro imenso com tradição guerreira, o Coroado. E lá fruto da mobilização do bairro de nome inspirado na novela “Irmãos Coragem” temos a Mocidade Independente do Coroado. No carnaval de 2012 o Coroado contará a história de Manaus. A estética cuidadosa no barracão, capaz de reproduzir detalhes do Teatro Amazonas fica a cargo do artista Algles, artista parintinense com passagens por escolas do Rio, São Paulo e Vitória. “Esse ano queria estar com a família em Manaus, por isso preferi ficar por aqui mesmo” declarou Algles. O ensaio confirma a vocação guerreira da escola. Todos perfilados e organizados com uma bateria firme sob comando do jovem Mestre Léo.

Seguindo o desfile a terceira grande escola a se apresentar em Manaus será a Unidos da Alvorada que para mim trará o melhor samba neste ano. Na voz de Nelson Pilão fica melhor ainda. Para quem não lembra ele já foi intérprete no Rio de Janeiro em 2010 no Arame de Ricardo e 2011 na Mocidade Unida de Jacarepaguá.E o barracão não fica atrás. Das mãos e das visões de Juarez, mais um artista parintinense, inspirado pela criação literária de Varildo sobre a vida do levantador de Toadas do Boi Caprichoso, David Assayag, um carnaval grandioso e belo surge. Lindos beija-flores e um enorme dragão-águia estilizado em azul e branco prometem impressionar o público.

A escola que vem do bairro mais populoso de Manaus, o São José, chamada de Grande Família faz jus ao nome. No ensaio da escola no sambódromo uma família imensa de componentes e admiradores da escola mostra que tem garra e faz do chão o trunfo principal da escola. Destemida, mesmo desfilando entre as grandes menos tempo do que a maior vencedora de carnavais de Manaus, a Aparecida, questiona o enredo da mesma. Para contar o enredo "Quem disse que o mundo vai acabar? A Grande Família te apresenta o futuro…" a escola conhecida como gigante Zona Leste promete “tudo que há de mais moderno”. O artista Trindade que se apresenta no cartão de visitas como “o visionário” tem que usar toda sua criatividade na execução das alegorias junto a comissão formada ainda por Luizinho Andrade e Jorge Granjeiro, driblando a falta de recursos do poder público prometem um carnaval high-tech no sambódromo.

E imagine vocês uma escola com o nome Sem Compromisso, fantástico não? A sacada genial queria expressar apenas o desejo de brincar descompromissadamente de um grupo de foliões em um bloco, como me contou no barracão um dos fundadores Augusto Maciel. A escola foi crescendo, conquistando adeptos especialmente entre a intelectualidade manauara e hoje é uma das maiores de Manaus. Vi em seu ensaio técnico a escola inteira e sua bateria de porte comandada pelo Mestre Biju se armar em apenas 10 minutos. A escola que ensaiaria depois cheia de sede já se organizava e inexplicavelmente brotavam de todos os cantos componentes da Sem Compromisso que demonstrou ali ter ainda a força que conduziu a preta e amarela ao título em 1986 com o primeiro samba manauara gravado por um intérprete carioca, Aroldo Melodia. E a escola quer repetir a história contando a “Saga Árabe no Amazonas”, pois é no Amazonas que a comunidade árabe desponta com destaque. “Tanto é que no Amazonas hoje o governador é descendente de árabes” justifica Augusto. E o barracão muito adiantado promete um carnaval bem leve e colorido.

Eu já falei outras vezes sobre a escola que desfila após a Sem Compromisso aqui neste espaço. Aliás foi dela a inspiração para o primeiro texto e consequentemente meu projeto de doutorado em Antropologia. O Reino Unido da Liberdade tem como lema ser uma escola de vida. E realmente o é. O Reino do Amanhã e o “samba da resistência” a diferenciam das demais escolas de Manaus. Este ano desfila com um enredo de grande relevância cultural, o Colégio Dom Bosco, um dos mais tradicionais de Manaus sendo que uma das unidades funciona em um prédio belíssimo. Por ter perdido os ensaios e ter chegado atrasado no dia do ensaio técnico a escola habita meu imaginário. Talvez incitado pelas memórias e o material.

sobre a escola que o Ivan de Oliveira me cedeu. Pelas aprazíveis visitas ao Morro. Pela hospitalidade e simpatia de seus componentes. Pela amizade e talento de seus compositores como o Schneider e o Clênio. Enfim, alimento uma expectativa enorme que se aguçou mais ainda com a conversa junto do seu cenógrafo Hélton. A atual campeã Reino Unido promete e tomara que cumpra e supere todas as expectativas. Sei que garra para isso não falta. Basta notar que vem de lá a maior e uma das mais antigas torcidas organizadas de escola de samba do Brasil, a Gigantes do Morro. Isso mesmo, em Manaus as torcidas sempre existiram. Tem setores institucionalizados de arquibancadas o que não impede a convivência pacífica entre as escolas apesar da rivalidade extremada. E esse ano ninguém vai proibi-las de estender as faixas e tremular suas bandeiras no dia do desfile.

Tanto é assim que umas das grandes favoritas ao título junto a Reino desfila logo a seguir. A Mocidade Independente de Aparecida é a sofisticação e o requinte em forma de escola de samba. Seus ensaios são ponto de encontro das mais diferentes gerações de Manaus. Fazem fervilhar o bairro colado ao centro da cidade com gente de todos os pontos da capital do Amazonas. É a maior campeã de Manaus com 19 títulos, todos conquistados com a elegância de sempre. Não é uma elegância qualquer, a Aparecida tem estrutura e organização que os inúmeros títulos lhe consagraram e que alimentaram essa hegemonia. É temida e com razão é a escola a ser batida. Tanto requinte se reflete nos seus componentes. Assistir ao ritmo da bateria do mestre Zé Carlos sem se impressionar é difícil. E o barracão não é diferente um carnaval luxuoso que deixaria muitas escolas Brasil afora, inclusive no Rio de Janeiro no chinelo se desenha e Saulo Borges é o mentor de tudo isso. Ouvi a descrição do carnaval por parte do carnavalesco que atende pacientemente a todos no barracão e explica cada detalhe do enredo "MMXII". Gostaria de reproduzir a extensa conversa que tivemos no barracão, tem muitos detalhes interessantes, mas infelizmente não posso fazê-lo. Seu desejo ,no entanto, é marcar o carnaval como uma mensagem de alerta preservacionista aproveitando o mote do fechamento de um ciclo na previsão Maia.

A penúltima a desfilar é simplesmente a rival histórica da Mocidade de Aparecida, trata-se da Vitória Régia. Herdeira da tradicional Escola Mixta da Praça 14, a primeira escola de Manaus ostenta o verde e rosa na sua bandeira. O ensaio mostra como a Praça 14 pode se vangloriar de ser o berço do samba na cidade sem ter perdido os fundamentos do mesmo. É reduto dos mais tradicionais do samba em Manaus e neste ano contará a história do Sambódromo de Manaus. Aquele que comecei descrevendo nesta postagem. Por aqui é chamado de Centro de convenções, seu nome oficial. A arquitetura é grandiosa e espetacular especialmente pelas arquibancadas em formato de “L” na dispersão da pista. E tem evento ano inteiro, inclusive dos bois de Parintins. Como bem diz o samba em sua letra: “tem Carnaboi, tem Boi Manaus”. O barracão promete recriar esta história tal qual uma fábula infantil com fadas e duendes em um cenário infantil de cores suaves preparado pelo artista Misael no barracão.

Fechando o desfile a Balaku-Blaku que é originária de uma batucada, forma carnavalesca da região que consistia em ter a bateria como centro em exibições competitivas. Já foi a maior e melhor batucada de Manaus. Rivalizou por muito tempo com a batucada Baré e a batucada Acadêmicos do Rio Negro. Hoje já como escola de Samba traz em seu currículo o título de 2001. Busca recuperar-se de um desfile desastroso que quase resultou no rebaixamento da escola em 2011. O caminho parece ser o correto até agora. Nas ruas do centro da cidade onde fica a quadra da escola é comum ver pessoas com a camisa da escola e o tema do ano, a cerveja. O barracão bastante adiantado tem até mesmo carros já iluminados e grandiosos. O samba é apontado como um dos melhores em várias enquetes e na voz do Leonardo Bessa tem impressionado os sambistas de Manaus.

Volto na próxima com impressões dos desfiles daqui. Saudações amigos e bom carnaval!
 

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