Nilcemar Nogueira propõe pacto para orçamento das escolas do Acesso mudar da Riotur para a pasta de Cultura

A secretária de Cultura do município do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira recebeu o site CARNAVALESCO para uma entrevista exclusiva na quinta-feira da semana passada e abordou diversos temas importantes e polêmicos para o carnaval e para o samba. O principal ponto foi a iniciativa da secretária em acolher para o Carnaval 2019 todas escolas da Lierj e da Liesb na pasta de Cultura, ou seja, o orçamento do Acesso sairia do chapéu da Riotur. Leia abaixo todos os detalhes da conversa realizada no prédio administrativo da Prefeitura do Rio de Janeiro.

AJUDA PARA ESCOLAS DO GRUPO DE ACESSO

20171130_223225“As escolas podem ser fomentadas de diversas formas. Todo secretário entra com um orçamento. O das escolas de samba não está na pasta da Cultura, mas na Riotur. A mudança é uma construção. Eu teria R$ 15 milhões para fomentar a cultura da cidade toda o ano inteiro, mas só tive a metade. Há um pacto a ser feito com as escolas para que a gente construa essa conversa de reforçar o papel delas enquanto lugar de transmissão, inclusive, para cada escola ter uma agenda permanente o ano todo para ajudar na hora de fazer seu carnaval. Assumo esse compromisso de pensar em como estruturar esse samba e que ele saia dessa corrente. As escolas vivem da carta de crédito do outro ano. Não conseguem se mexer para nada. É preciso criar um caminho de sobrevivência e através disso ir se estruturando. Todo dia penso em como socorrer agora, mas tenho o impeditivo de não ter o orçamento para o ano que vem, porque o pacto ainda não foi feito, eles ainda estão na Riotur. Tenho que fazer o estudo de remanejamento e sentar para essa negociação em janeiro, caso as escolas tenham tempo, ou imediatamente no pós-carnaval. Vamos fazer juntos esse desenho. Acho viável acertar com o prefeito e a Riotur para eles aceitarem essa mudança. Se as escolas quiserem estou super dentro dessa reconstrução com eles. É uma mudança de paradigma para as escolas do Grupo de Acesso (Lierj e Liesb)”.

APOIO IMEDIATO AO GRUPO DE ACESSO

“Vamos oferecer os eventos no Terreirão com os shows da Alcione, Xande de Pilares, entre outros, e que a renda dos ingressos seja das escolas da Lierj e da Liesb. Temos que pensar rápido. Alguns vícios tem que ser desconstruídos. No Acesso, as pessoas querem ganhar roupa. Antes, as pessoas faziam suas roupas. É um novo momento. Temos que ter uma conversa em que todos precisam entrar na roda, ninguém vai ser o Cristo da salvação. É preciso entrar agora nesse momento e pensar em como refazer. Antes era um processo de construção coletiva. Não me satisfaz eu chegar em uma quadra e ver um baluarte mal posicionado e um visitante de ocasião estar posicionado numa zona de conforto e que nunca mais vai aparecer lá. São inversões de valores que precisam ser resgatadas”.

RELIGIÃO DO PREFEITO E PERSEGUIÇÃO AO CARNAVAL

nilcemar“Eu sinto zero de perseguição religiosa. Até hoje minha relação foi com o prefeito gestor, nunca tive relação aqui dentro com o prefeito pastor. Isso pode ser comprovado com a minha agenda na secretaria. Tive um mês inteiro da diversidade, 16 pautas gays, fomentei e dei apoio para pautas de matriz africana. Novembro todo foi de matriz africana. E nunca ouvi isso não pode. Viemos de um prefeito que era carnavalesco, mas porque o samba está sem estrutura? O prefeito é evangélico, mas é um gestor. Eu lido com ele. Na minha mesa tem uma imagem de santa e ele vem aqui e não reclama. Por ele tem que fingir que é evangélico? Ser carnavalesco é botar um chapéu panamá e dançar? Eu prefiro um prefeito evangélico que queira reestruturar o samba”.

POLÊMICA DA ENTREGA DA CHAVE DA CIDADE PARA A CORTE CARNAVALESCA

“A entrega da chave para o Carnaval 2018 acontecerá. O meu desejo é que seja feita no Terreirão do Samba, mas ainda não levei essa pauta para o prefeito. Em 2017, a entrega estava prevista e o prefeito iria fazer no Sambódromo. Eu posso dar a minha palavra disso. Estávamos juntos aqui na prefeitura. Naquele dia a esposa do prefeito piorou de um problema de saúde e ele teve que ir para o hospital. Ela estava com pneumonia. É só conferir o boletim do hospital do dia por volta das 19 horas. Ele me pediu para fazer a entrega da chave, mas nem perguntei se podia entrar em detalhes da motivação dele não ter ido. O problema foi que ele não confirmou antes que iria entregar a chave”.

INCENTIVO AO SAMBA E AO CARNAVAL

“A escola de samba não é só fazer o seu ensaio comercial para ter o fomento. A escola era o lugar de transmissão do samba. Era a maior garantia da salvaguarda de um bem que hoje é patrimônio cultural do Brasil. Hoje, a transmissão está ameaçada, porque a escola de samba deixou de fazer seu papel. A família frequentava, tinha a questão da comida das escolas de samba, as crianças se identificavam e queriam estar na bateria. As quadras das escolas não tem mais o seu povo e foram perdendo público, porque as pessoas iam para ver esse povo. A escola foi perdendo o seu sentido. Eu já disse para o presidente da Liesa: ‘o sambista é a alma desse negócio. Hoje, nós temos um corpo no desfibrilador, quase morto. Ele pode sobreviver. É só ouvir os sambistas, é fácil”.

CADÊ O CARNAVAL NO ORÇAMENTO DA CULTURA?

“Tivemos 6 milhões de pessoas na agenda cultural da Prefeitura do Rio. Abrimos três editais e nenhuma escola de samba se inscreveu. Será que quem dirige escola de samba hoje sabe o que é escola de samba (ao pé da letra)? Tive um ano de austeridade, mas que não me privei de ter opções artísticas e culturais. Não fechei nenhum equipamento cultural. Fiz gestão. Esse espaços geram receita pequena. Por isso, a importância da presença do poder público”.

ACUSAÇÃO DE NÃO AJUDAR OS SAMBISTAS E ESCOLAS DE SAMBA

Foto: Berg Silva
Foto: Berg Silva

“De qual lado do samba estamos falando? Reproduziram uma fala sem pensar, mas isso não me abala. A minha preocupação é com os sambistas. Infelizmente, quem cuida do espetáculo é a Riotur, porque eu repito que gostaria que fosse a secretaria de Cultura. A conversa da Riotur com a Liesa para resolver a questão da verba se deu a partir de um empurrão meu quando estava preocupada com o calendário, vendo a proximidade do carnaval, e não sabia o cenário. Fui até o presidente da Riotur para oferecer ajuda e a sensibilização de ter a conversa. E sai de cena, porque não era mais da minha alçada. No meu sentimento estou com sambista pelo seu empoderamento, estou com o ritmista, a porta-bandeira, a velha-guarda, a criança. Eles podem sempre contar comigo. Sou ativista de carteirinha assinada em prol do samba. Está no meu DNA. As pessoas entenderam que essa pauta da verba do carnaval, infelizmente, não é minha. A receita para resolver é muito simples e barata: faça uma plenária e ouça o sambista”.

SAMBA PATRIMÔNIO DO BRASIL

img-20171203-wa0009“Fomentar não significa sustentar para sempre. O carnaval como só espetáculo perde o seu ativo cultural, que implicava em compromissos do poder público. Como o samba é patrimônio do Brasil, o estado brasileiro tem alguns compromissos e isso permitiu que as escolas tivessem acesso às verbas de estatais por conta desse título. É só lembrar que as escolas estamparam em suas quadras: ‘samba patrimônio do Brasil’. Agora, qual foi o uso desse dinheiro que foi adquirido por conta desse carimbo? Sou tão amiga do samba e do sambista que nunca cobrei essa conta, porque o valor não poderia ser usado apenas para festa. Ele tinha que ser utilizado para manutenção, transmissão, valorização e salvaguarda do samba”.

RELAÇÃO DO CARIOCA COM O CARNAVAL

“O carioca é apaixonado pelo samba e carnaval, mas não conhece. Para fazer somente o entretenimento não precisa de mim, porque o dinheiro público tem que levar desenvolvimento. O desafio é desconstruir o pensamento que a Prefeitura do Rio fazia esse aporte por entretenimento. O fomento é para dar ajuda para plantar a semente e a partir daí caminhar com as próprias pernas. É preciso ter a contrapartida social. Os enredos poderiam ser explicados em escolas públicas. Imagina ter o samba fomentado 12 meses na cidade. Quantos empregos gerados? Quantos turistas vamos ter?”.

CULTURA NO RIO DE JANEIRO

“Na minha gestão, a primeira coisa foi pensar nos eixos estratégicos da política cultural da cidade. Um deles é a memória. O Rio de Janeiro sempre trabalhou mal o seu principal ativo cultural. A cidade tem dois atrativos para o turismo: a beleza natural e o atrativo cultural. Existe uma barreira a ser rompida que é o preconceito cultural. A minha gestão é participativa. Fui muito para rua para ouvir as pessoas. A referência cultural do Rio é ativo para questões econômicas, sociais e até de segurança pública”.

USO DA RUA PARA MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

20171130_223140“As pessoas entraram na vibe e criaram que a prefeitura proibiu o samba na rua. Foi a PM, que é do Estado. A PM está usando um decreto feito pelo Sérgio Cabral em 2013, quando o Rio vivia aquela fase de manifestações, mas ela não pode regular o solo da prefeitura”.

REABERTURA DO MUSEU DO CARNAVAL

“O Museu faz parte dessa política de reforçar as principais referências da cidade. Vamos devolver um símbolo importante para cidade. É mais que reabrir o espaço. São dois momentos: o primeiro que não é o ideal, mas urge que seja aberto já. Esse espaço é pequeno para o universo que é o carnaval do Rio. Por isso, eu digo que é uma primeira etapa, quase que simbólica. A previsão de abrir é em abril, porque hoje o Museu virou depósito. Podemos mostrar a escola campeã. O carnaval precisa estar de janeiro a janeiro sendo visitado. Trabalhar a memória e patrimônio da cidade. Tem um histórico que parte do acervo foi para Liesa, mas não tenho a confirmação dessa informação. Hoje, o espaço tem paredes degradadas. Teremos que fazer uma obra interna. Queríamos abrir em janeiro, mas esbarramos nos usos do espaços que já estavam alinhados. Fizemos o exercício da narrativa que colocaremos no Museu. Terá exposição, uma parte interativa, ainda não do tamanho que pensamos, e estamos ouvindo muito as pessoas, sambistas e não sambistas, para saber o museu que as pessoas querem”.