Ninguém foi mais feliz no carnaval que Beth Carvalho

A primeira vez que vi Beth Carvalho foi no Cacique. Uma mulher linda, sensualíssima, ali no meio daquele monte de 'pegadores'. Já tinha assento à mesa que ainda não se revelara tão sagrada como hoje. Outra vez a vi já com um cavaco. Ficava mais bonita ainda.

Não sei direito que ano era isso. Anos 70, com certeza. Beth , hoje sabemos, bebia tudo que se cantava ali. Tal como faz ainda hoje, arrumou ali diversos afilhados. Usava seu prestígio de sambista e intermediava aqui e ali a gravação de um samba ou até suas gravações diretas. Ninguém terá feito isso mais que ela na história moderna da nossa música.

Estive lá na quadra reinaugurada. Uma obra limpa. Necessária, precisa. Ninguém inventou nada ali. A antiga quadra improvisada
virou quadra de verdade. Uma parte coberta que garantirá que nenhuma roda vai mais ser
interrompida por São Pedro. Um palco, uma mesa fixa, banheiros decentes.

E ela: a tamarineira, protetora. Fiquei ali, bem naquele ponto, me lembrando do impacto que me causou a imagem daquela mulher tão bonita, com aquele sorriso cativante, cantando tão bem, com tanto gosto, sambas tão bonitos.

Depois… vida que segue. Outras cidades, trabalho duro, filhos. Veio o ano de 1984. Beth já havia construído uma história. De sucessos, de consolidação de talentos. Tivera sua filha Luana.

Beth não pediu para construírem o sambódromo. Não pediu para a Portela homenagear Clara Nunes. Nem pediu para que o desfile daquele ano fosse dividido em dois campeonatos e muito menos que a decisão viesse em um supercampeonato.

Nunca pediu que o Cabuçu a homenageasse, muito menos justamente naquele ano. Em condições normais, naquele ano de 1984, Beth quereria mesmo era desfilar por sua escola, desfilar no Cacique na Rio Branco, curtir sua filha.

Nada disso. Os deuses do carnaval estavam a preparar naquele ano algo nunca visto antes. Nunca em toda a história dos carnavais algum sambista foi tão bafejado pelo triunfo, pelo júbilo, tantos prêmios. O que se viu ali foi uma verdadeira homenagem prestada a ela pelos
deuses do carnaval.

Sambista brasileira, carioca, Beth teve a suprema alegria de ter sua história de vida transformada em enredo pela escola Unidos do
Cabuçu. Logo ela, a Cabuçu, que seria a primeira escola a pisar e desfilar no novo templo do samba.

Olha que marca, que presente dos deuses. Ela, a Beth, ser o primeiro enredo mostrado na Sapucaí nova. Um samba enredo só para ela, falando só sobre ela, inclusive sobre sua filha.

Este presente alcança outra dimensão quando sabemos que a escola do Lins seria a campeã daquele ano, sagrando-se a primeira campeã
da passarela. Consequentemente ela, Beth, faria história, tal como a própria escola, sendo a primeira campeã daquele novo momento que
se iniciava. Como componente e como homenageada.

E veio o domingo. A Portela homenageava Clara Nunes em Contos de Areia, juntamente com Paulo e Natal. Como amiga de Clara, Beth estava lá. Sagrava-se assim, com a vitória da Portela, campeã no primeiro desfile do grupo especial do sambódromo.

Mas o desfile de segunda-feira lhe reservava mais emoções e surpresas. Sua escola Mangueira encantava a todos contando a vida de
Braguinha e sagrando-se vitoriosa naquele segundo campeonato.

Não bastasse isto, no sábado seguinte, ao desfilar pela Mangueira, venceria com sua escola o inédito e único supercampeonato com dois pontos a mais que a Portela.

Não me lembro de na época Beth ter comemorado tanto. E nem mesmo que os sambistas, ela e a imprensa carnavalesca terem apontado o ineditismo de tantas vitórias em tão pouco tempo.

Agora, neste carnaval, atravessando o momento mais difícil de sua vida, Beth está de volta na co-autoria do enredo de sua escola. Deixa para trás aquele incidente tão evitável do dia do desfile, em passado recente, que tanto constrangeu a ela e a todos.

Vai Beth. Veste sua fantasia e cante o "seu velho" que tanto você engrandeceu, curtiu e amou. Volte para seu lugar, no chão, se der, ou no carro provisoriamente. Mas vem para junto de nós, em nossa direção, no carro ou no chão. Estaremos ali ouvindo, sua voz ainda insegura, rouca, forte, orgulhosa e cheia de esperança. Na vida e na Mangueira. E nós ali, estaremos aplaudindo você. A você e a ela. A você, à vida
e à Mangueira. Querendo vê-la tão feliz como naquele carnaval que já vai tão longe.

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