Noite inesquecível

As escolas de samba que desfilaram na segunda-feira proporcionaram um espetáculo inesquecível sob todos os aspectos. Cada uma com suas particularidades: o colorido alegre da São Clemente; a criatividade da Ilha; a beleza do Salgueiro; a ousadia da Mangueira; a genialidade de Paulo Barros e a emoção da Grande Rio. Uma noite para ficar guardada na memória.

É claro que dentro desse painel houve desfiles melhores que outros. Não fico em cima do muro. A Unidos da Tijuca fez a apresentação mais completa da noite e deve brigar pelo título com a Vila. O desfile da escola não fez o público explodir como em anos anteriores, mas esbanjou criatividade e foi perfeito tecnicamente.

Paulo Barros deu uma aula de desenvolvimento de enredo com originalidade. Transformou um tema previsível numa alegoria sobre o sertão cheia de “sacadas” geniais. Paulo deixa de lado os brilhos e babados e faz um arte única, hoje mais adaptada à necessidade do equilíbrio visual – mas sempre privilegiando a sua concepção artística. É um artista maduro que faz toda a diferença no carnaval. Mostrou que sabe desenvolver temas sugeridos por terceiros, que não saíram de sua cabeça.

Vale destacar mais uma vez a comissão de frente, mas não parou aí. A criação de um cenário para a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira foi uma nova mostra de que é preciso inovar no carnaval. Porque nunca ninguém pensou nisso? O setor de mestre Vitalino foi impactante assim como o maravilhoso aeroporto do abre-
alas.

A bateria de Mestre Casagrande deu mais um show de ritmo e sustentou um desfile que credencia a escola a mais um título. Talvez sem a aclamação popular de 2010, mas com muita qualidade.

ALEGRIA GERAL
A noite foi aberta pelo melhor desfile dos cinqüenta anos de história da São Clemente. A alegria deu o tom nas cores vibrantes das fantasias, de extremo bom gosto e na gigantesca mulata – a melhor maneira encontrada por uma escola de chegar perto do público na nova dimensão da Sapucaí. Fábio Ricardo mostrou que sabe pensar carnaval. Não é apenas mais um desenhista de plumas. Transformou a estátua da liberdade em garota de Ipanema. Genial!

O gingado da enorme mulata inflável foi embalado pelo refrão empolgadíssimo que mexeu com as arquibancadas. Muito “bububu no bobobó”! A participação do violinista na paradinha da bateria foi a cereja do bolo num desfile que levantou arquibancadas e frisas e fez carnaval de verdade. Um show!

ILHA FANTÁSTICA
A União da Ilha, através de mais um carnavalesco genial (Alex de Souza), mostrou uma Inglaterra colorida e bem humorada. Coroou Maria Augusta e Renato Sorriso e mostrou a evolução de mais um grande artista. Belíssimas soluções a colocam na briga direta por uma vaga nas campeãs.

A OUSADIA DE IVO
Ivo Meirelles não é mais um no carnaval. Ele faz de tudo para buscar a diferença. E isso é louvável. Precisamos de ousadia. Mas essa busca nem sempre é bem sucedida.

A inovação deste ano (para alguns usada para desviar a atenção de um resto de desfile não tão bom) esbarrou numa pista lotada por pessoas como camisa de apoio da escola e no fato de que o som do tripé que trazia Alcione, Dudu Nobre, Luizito, Sombrinha e Xande de Pilares não foi repetido por todo o sistema de som da avenida, ficando restrito ao local onde estava.

Esse problema deixou a maior parte da escola sem referência de som e, portanto, parada. Fora os pequenos buracos que se formavam quando a inovação acontecia.

CORDEL NÃO EMPOLGOU
O Salgueiro fez um desfile bonito, com o requinte de Renato Lage, mas não conseguiu empolgar o público apesar da excelente bateria comandada por Marcão e da bela comissão de frente de Hélio Bejani.

A escola voltou a ter problemas na entrada das alegorias – não do mesmo tamanho do ano passado, mas que tiveram repercussão no desfile. O abre-alas, inclusive veio sem algumas composições. Volta nas campeãs, mas não acredito em briga por título.

SONHO ADIADO
O sonho do título da Grande Rio foi adiado. O enredo sobre superação começou com uma belíssima comissão de frente mas alternou momentos de emoção com outros de frieza. O nível de alegorias e fantasias ficou abaixo da média do ano.

A bateria modificou sua concepção, com paradas mais curtas, andamento mais lento e afinação mais pesada. Deu certo: ajudou a harmonia e a evolução dos componentes e também a valorizar o samba-enredo que se mostrou melhor na avenida do que na gravação.