Nos tempos da balança – bambas, bandas e pernadas

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Quando eu era pequeno, lá na Rua Cabuçu, no Lins de Vasconcelos, havia um bloco da rapaziada mais velha chamado "Juventude". Era assim:
"Se você gosta do samba Vem pra juventude sambar Boa Noite".

Eu ficava por ali brincando e vendo aquelas coisas todas. A influência direta era do pessoal da Unidos do Cabuçu que ficava ali bem perto
de onde morávamos e que naquela época era uma escola de "responsa", com muita tradição. Pode perguntar a qualquer um. Muito antes
de a Terezinha Monte chegar.

"O Cabuçu lugar bom de se morar
Lá do alto do morro
Se avista a cidade e um pedaço do mar".

E aí havia uma hora lá que o pessoal abria uma roda em torno de um sambista no centro e outro que ficava sambando e gingando em frente e em torno: um festival de pernadas:

"Ô Piau
Pula por cima do pau ô piau
Ô Piau".

E ia assim pela noite, com versos sucessivamente improvisados independentemente do ensaio do bloco. Algumas vezes era pra valer e outras eram mais encenação. Para nós da garotada era "à vera" ou "à brinca", como na bola de gude.

Eu sei é que a gente, os "pequenos" acabamos brincando também aquele jogo de pernadas, de banda, dos
"grandes".

Só muito tempo depois, já "grande", já devorador de livros e de histórias da cultura popular, vim saber que naqueles dias lá atrás eu estava fazendo parte da roda da história do povo carioca, da tradição da sua cultura. Vim a entender que aquilo que via e acabava fazendo se chamava "batucada".

Até então batucada era só aquele encontro em que se batucava nos taróis, nos surdos e repicadores para acompanhar os sambas do "Juventude".

Aí, com o tempo, comecei a ouvir falar de uma tal "balança" que ficava lá para os lados da
Praça Onze onde se encontravam os maiores batuqueiros do Rio de Janeiro. Sempre a Praça Onze…
Até hoje, por mais que já tenha pesquisado, perguntado, não consegui saber e-xa-ta-men-te onde ficava a tal "balança". Na minha cabeça, ficava ali por trás da Escola Benjamin Constant
em cujas escadarias se postavam as comissões julgadoras dos desfiles da década de 30.

Imagino que a "balança" tenha sido demolida a partir de 1942 com a remoção da Praça para dar passagem à Avenida Presidente Vargas. Sua referência permanece na memória popular, como tudo da mágica Praça Onze, e é citada aqui e ali pelos autores que contam a
história carioca, sobretudo os que falam da legendária turma do Estácio.

Não há um único autor que não se refira a Baiaco e Brancura como dois dos mais afamados batuqueiros da "balança", além de compositores integrantes daquela histórica geração. Inúmeros são os sambas que a ela, a 'balança', se referem, dentre eles o mais bonito
de todos: "Tempos Idos", em que Cartola e Carlos Cachaça recordam aqueles tempos, cheios de saudades.

Curioso destacar que ali na "balança", tanto quanto na Festa da Penha, ponto anual de embates de batuqueiros, podia-se ver algo como uma extensão da fidelidade pelas escolas e redutos de samba. Cada um cuidava de trazer preso a seu chapéu uma fita identificadora
de sua origem. Quem trazia o azul era da Portela; de vermelho vinham os do Salgueiro ou
do Estácio, verde do Império e os de rosa que…vocês sabem…

Na verdade a roda de batuqueiros era tão presente, uma atividade tão atraente para os valentões do samba, que não dava para ficar restrito a um só lugar e nem se podia esperar
um ano inteiro pelo mês de outubro da Festa da Penha. Havia "batucada" também no Tabuleiro da Baiana, no Largo da Carioca. Também no Largo do Machado, no Jardim do Méier, na Central e na Taberna da Glória.

A "balança" era a mais famosa, concorrida e a que mais conferia patente de bamba àqueles
que se tornavam conhecidos por nunca se deixarem derrubar. E, além de tudo, ficava na Praça Onze, reduto de sambistas.

Hoje sabemos que o nome é referência a um equipamento da Prefeitura do então Distrito Federal destinado a pesar carga de carroceiros limitando-as de forma a não sobrecarregar animais que as conduziam para o cais do porto.

É uma das versões. A outra se refere também a carroceiros e depois a caminhões, também para limitar cargas, mas apenas com fins fiscais e não, digamos, humanitários.

Ali se formavam imensas filas para a tal pesagem. E assim os carroceiros, moradores de morros e favelas onde se cantava e dançava o jongo, já levavam instrumentos próprios a estabelecer a cantoria e desafios improvisados que embalavam pernadas, bandas e tombos inimagináveis nos dias de hoje.

Em depoimento ao lendário jornalista José Carlos Rego, Xangô da Mangueira dá um show de bola catalogando as estratégias de defesa e de ataque utilizadas pela malandragem.

Segundo o lendário diretor de harmonia a batucada é manifestação genuinamente carioca. Sem qualquer relação com o samba-de-roda da Bahia, com a Capoeira ou qualquer outra modalidade, de qualquer origem.

Sabemos que há controvérsias, como quase tudo que cerca a cultura do samba. Os baianos certamente discordarão entre tantos autores por aí.

Como nosso interesse aqui gira objetivamente em torno da nossa querida "balança" da muito mais querida Praça
Onze, vamos dar voz ao mestre Xangô para curtirmos aquele tempo. Diz aí Xangô:
"A batucada se forma com os participantes em círculo fazendo ritmo com as mãos e cantando.(…) Um dos participantes sai sambando por dentro da roda até aproximar-se de outro e,levemente, nele encostar. É o que se chama 'tocar', 'dar o toque', signifcando ter sido aquele o escolhido para iniciar a brincadeira. A isso pode
chamar, também, 'jurar'. Quem foi chamado,entãoplanta-se no centro da roda. O iniciador passa a se exibir em
abundante variedade de passos de samba em torno do convidado. É através da coreografia que tentará iludir ou distrair o parceiro 'plantado' no centro da roda".

E é no mesmo livro de José Carlos Rego que Haroldo Costa domina e bota no chão:

"(Plantar) não é propriamente um passo: é uma atitude.
(…) Na roda de samba, 'planta-se' para aguardar a pernada do adversário(…)".

Toda aquela movimentação de passos variados, meneios, volteios que antecedem o golpe da pernada ficaram conhecidos como 'engoma', do verbo engomar, mesmo. O cara fica ali 'plantado', sendo 'engomado' para receber a foice por baixo.

E Xangô prossegue explicando os estilos das pernadas, das "bandas" e suas correspondentes estratégias de defesa exercida não só por quem está 'engomando' quanto por quem está sendo 'engomado'. Xangô fica sempre lembrando que (…) "a astúcia é o instrumento do batuqueiro para desviar a atenção do adversário e derrubá-lo":

Baú: consiste em dar um puxão rápido no tronco do adversário e, no mesmo instante, passar o pé por baixo;
A defesa do 'plantado', a quem nunca é permitido desviar o corpo, consiste em não permitir o puxão na sua roupa;

Banda de Frente:  consiste m deslocar a coxa ou o quadril do adversário com o joelho esquerdo e, quando ele tentar equilibrar-se, passar o pé direito; a defesa correspondente consiste em dobrar o joelho em direção ao adversário, cortando-lhe o toque de desequilíbrio também do joelho.

Dourado: consiste em deslocar o adversário com uma umbigada rápida e, dependendo da perna que a vítima levantar para defender-se,
bate-se na que ficou sustentando o corpo; a defesa desta modalidade de golpe consiste em encolher a barriga ou surpreender o agressor dando-lhe uma barrigada antes que ele o faça.

Com sabedoria Xangô lembra que os lutadores de judô e capoeira têm hoje  a mesma atitude.

De fato, podemos imaginar que a astúcia do agressor está em dissimular o momento do golpe e escolher a modalidade mais apropriada em cada momento. Da mesma forma, a astúcia do agredido é perceber no momento da 'engoma' o instante exato do golpe e identificá-lo. Só então, em raciocínio instantâneo, praticar o movimento de defesa mais adequado.

As mortíferas 'bandas de lado' têm como defesa o movimento que consiste em girar um dos pés para o lado em que se vai sofrer a agressão, mantendo-se sempre o calcanhar colado junto tornozelo como se fora uma tesoura abrindo-se num ângulo agudo.

De tudo que li a respeito, pude entender a razão pela qual certos personagens dos morros cariocas e das escolas de samba desfrutavam tanto prestígio em suas comunidade. Respeitados como valentões destemidos esses bambas da 'balança' eram tidos como guardiões de seus lugares.

Como maior exemplo de todos talvez seja apropriado citar Manoel Bambambam da Portela, valentão
afamado de Oswaldo Cruz, que teve o "poder" incomensurável de afastar da escola seu maior líder,
o sambista mais respeitado de todos os tempos.

Se consultarmos a história sobre o que ficou da memória de Bambambam e de Paulo, e do legado de cada um para a história do samba, poderemos dimensionar a força e o prestígio que a 'balança'
conferia a esses homens.

Da mesma forma outros valentões se tornaram célebres em suas escolas como exemplo e referências históricas. É o caso de Marcelino, o Massu da Verde Rosa, seu primeiro mestre-sala, imortalizado por Sergio Cabral e Rildo Hora no samba "Os Meninos da Mangueira" e elencado por J.Muniz Junior como sambista imortal.

E é dele, respeitadíssimo por sua gente, linha de frente dos Arengueiros, que vem a sentença, precisamente assinalada por Muniz Jr., que bem dá conta da  origem e precariedade de tanta autoridade: "Só ficava em pé quem tinha cartaz, e mesmo assim num cochilo qualquer perdia o nome".

Outro belo exemplo  de batuqueiro é mestre Fuleiro, honra e glória do Império Serrano, filho de família super sólida e rigorosa, filho da jongueira Vó Thereza, lendária moradora da Serrinha. Dali também ficou o exemplo do conhecido sambista e batuqueiro  Calixto célebre por ter introduzido os pratos nos desfiles das escolas nos anos 1950.

Outro exemplo marcante é o sambista Neca da Baiana, mais um daqueles vindos do Vale do Paraíba, da cidade de Valença. Neca, também incluído entre os imortais por J.Muniz Júnior. Era considerado por esse autor como um batuqueiro invencível contando para tanto com o testemunho insuspeito de Djalma Sabiá. Está imortalizado nos carnavais da escola pelos
papéis que desempenhou em desfiles memoráveis a partir da exuberância de seu porte físico.

Neca foi simplesmente o Zumbi dos Palmares no lendário desfile de 1960. Repetiu o feito
quatro carnavais depois representando o não menos lendário Chico Rei de Vila Rica no desfile de 1964. Fechou com chave de ouro desfilando em 1971 representando Mani Congo no
vitorioso enredo Festa Para Um Rei Negro.

Ídolo por suas façanhas de batuqueiro na 'balança' da Praça Onze…ídolo da escola  como sambista em seus tão inesquecíveis desfiles.

Destacaram-se figuras hoje menos conhecidas, mas que alcançaram notoriedade naqueles tempos de valentia, alguns até com sambas em seus louvores.

Na Mangueira Bernardo Sapateiro e Gasolina.

Também da Mangueira o valentão João Maluco, irmão do não menos valente Chico Porrão, este o fundador da Estação Primeira que fez companhia a Cartola e Carlos Cachaça no dia de triste memória em que Paulo tentava seu retorno à Portela depois do incidente com Manoel Bambambam no carnaval de 1941.

No afamado morro da Favela, barra pesadíssima de então, marcaram época e tiveram fama os batuqueiros Sete Coroas e Camisa Preta. Da Lapa boêmia saiu Miguelzinho. Do morro do Pinto, Buluca e Papoula e Malvadeza do Salgueiro.

Lá para os lados dos subúrbios, ainda segundo Xangô, pontificavam na 'balança' Mestre Caneta, Quarenta e Lilico de Rocha Miranda, Lucas Maneta e Curupaco da Dona Clara, de Madureira e ainda Messias Rebola e Mãozinha Coroa, ambos da Serrinha.

Todos de terno de linho, chapéu e sapatos brancos impecáveis, camisa de seda, e muito pouco dinheiro no bolso.

Gente que ficou na memória escondida da cidade, na memória apagada de seus lugares demolidos para dar passagem ao tempo e à modernidade. Uns nas glórias de suas escolas e nas histórias passadas de boca em boca.

Histórias que o grande Xangô deixou nos livros de José Carlos Rego como a que destaca, entre tantos que conheceu, um único batuqueiro
a quem qualificou como "quase imbatível": Pico, de Oswaldo Cruz. De Oswaldo Cruz? É, de Oswaldo Cruz…ô lugarzinho danado! Modéstia à parte…
Sugestão para ouvir agora:

Samba Tempos Idos, de Cartola e Carlos Cachaça
Disco: Pranto de Poeta
Faixa: 6
Voz: Cartola
Gravadora: BMG/RCA

Fonte de consultas:

Dança do Samba-Exercício do Prazer: José Carlos Rego – Rio de Janeiro: Aldeia: Imprensa Oficial, 1994.

Sambistas Imortais – vol. 1- J. Muniz Junior – Cia. Brasileira de Impressão e Propaganda. Ano da edição não identificado;

Fala, Mangueira!: Marília T.Barboza da Silva, Carlos Cachaça, Arthur L. de Oliveira Filho-Rio de Janeiro: J. Olympio. 1980;

Bateria: O Coração da Escola de Samba; Julio César Farias – Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2010.

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