Novo colunista faz sua estreia no CARNAVALESCO

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A primeira vez a gente nunca esquece. E é essa sensação, de que tudo que é bom se repete, que eu gostaria de deixar a todos que apreciam a coluna a partir de hoje. Espero que gostem. Que assim seja!

Essa coluna primeiramente se dedicará a comentar e exaltar a vida dos grandes artistas da música popular Brasileira que de uma forma ou de outra estiveram ligados as nossas escolas de samba. Artistas que antes ou depois de terem suas carreiras sólidas, não deixaram de declarar amor ao seu pavilhão.

Não podemos esquecer – e não iremos – dos grandes nomes que ajudaram a fazer o carnaval que hoje em dia amamos, participamos, criticamos e criamos. Grandes baluartes que fizeram a diferença serão lembrados aqui.

E para começar com o pé direito, comento a vida de Clara Nunes, a mineira que saiu de Paroapeba e ganhou o mundo. Se ainda estivesse entre nós em 12 de agosto completaria 70 anos.

Filha de pais pobres, e caçula de 4 irmãos, ficou órfã logo cedo, sempre despojada, alegre, sorridente, era tida como uma das mais animadas em festas da escola onde dava seus primeiros passos. No antigo cinema da cidade, um concurso de calouros já dava a nossa estrela a oportunidade de soltar a voz, que por direito e fato, garantia sempre os primeiros lugares.

A vida não foi fácil, aos 14 anos seu presente de aniversário foi um emprego na fábrica de tecidos onde seu pai trabalhava. Em seu primeiro Festival, a Voz de Ouro do ABC, ficou em terceiro lugar, o que a dava direito de gravar seu primeiro compacto pela Odeon. Sua vida começava a tomar novos rumos, a função na fábrica já não tinha espaço em sua agenda, mudou-se para o Rio de Janeiro onde naquela época efervescia a era dos festivais, a Jovem Guarda e o Tropicalismo.

Ela não era uma pessoa preocupada com o momento político de nosso país, não estava interessada em se engajar em nenhuma luta política, queria mesmo era projetar sua vida artística, ganhar fama.

Morou em Copacabana e pouco tempo no Flamengo, retornando a Copacabana logo depois. Nessa época conheceu Carlos Imperial que era amigo-irmão de seu então namorado Aurino, quem a trouxe para tentar a vida no Rio Janeiro. Cantava em Boates na Zona Sul do Rio. Dessa forma lança seu primeiro álbum em 1966, A Voz Adorável de Clara Nunes, um fracasso sem precedentes. A música romântica não era a temática da época. Ela precisava de mais. Apesar de inúmeras participações em Festivais e nos programas do rádio, sua carreira ainda era pouco notória, quase nula.

Apesar de sempre se firmar nas tradições das Gerais a vida no Rio de Janeiro dava a ela oportunidade de conhecer novas culturas, novos hábitos e nova forma de agir e pensar. Levada por uma amiga companheira de quarto conheceu a umbanda nas terras da Rocinha.

Ela precisava fixar-se em alguma tendência para conseguir alavancar sua carreira, logo focou a ideia de ingressar na Jovem Guarda, sendo assim seu visual precisaria ser mudado, cabelos longos, calças boca-de-sino, macacões florais e colares enormes, começaram a fazer parte do visual dela. Começava a estampar as páginas da Revista do Rádio e as fotonovelas da Sétimo Céu, além das participações no programa do Chacrinha, esse que a tinha como filha e ela como
um pai.

Em 1968, lança seu segundo LP, emplacando seu primeiro sucesso, Você Passa Eu Acho Graça, de Carlos Imperial e de Ataulfo Alves que dava nome ao compacto.

Nesse mesmo ano conheceria o que o Rio de Janeiro tem de melhor, as escolas de sambas. Como nos dias de hoje, a “escola de samba mais querida do planeta”, atraia os olhares de todo o mundo, sendo assim conheceu a quadra da Estação Primeira de Mangueira. Mas foi mesmo na Portelinha, em Madureira que se rendeu a Majestade do Samba. Foi muito bem recebida por Natal, e isso deixava confortável a adotar a Portela como sua escola do coração. Suas idas constantes a encontro da velha-guarda azul-e-branca, fez com que ganhasse o título de Madrinha da Velha Guarda da Portela. Era muito bem vista, adorava as rodas de samba, as feijoadas e caldos promovidos por lá.

Em 1970, passava por mais uma fase de mudança, precisava assumir as rédeas de sua carreira, gravou seu quarto LP, “Clara Nunes”. Sentia que o samba era um estilo musical o qual devia seguir, gravou sucessos como o campeão de 71 “Festa Para Um Rei Negro” do Acadêmicos do Salgueiro e “Misticismo da África ao Brasil” do Império da Tijuca. A partir desse momento, seu coração e sua carreira eram conduzidos por Adelzon Alves.

Apesar de não abraçar nenhuma luta nos tempos dos anos de chumbo, foi considerada subversiva em 1971 por gravar “Apesar de Você” de Chico Buarque. A letra que era um ataque ao governo de Médici, foi interpretada por ela como uma simples e briga de namorado. Para se desculpar diante esse mal entendido, foi convidada a grava o “Hino das Olimpiadas do Exercito”.

Já estava incluída no contexto do samba, e a agora era uma das interpretes do samba enredo da Portela no Carnaval de 1972, “Ilu Ayê”, ganhou formas consideráveis no carnaval daquele ano. Embalada pelo sucesso, gravou “Seca do Nordeste” da extinta escola de samba Tupi de Bras de Pina. Um grande sucesso também gravado foi “Tributo aos Orixás” dos amigos

Portelenses Mauro Duarte, Noca e Rubem Tavares.

Sua carreira começava a ganhar os rumos que sonhava e a notoriedade no país era quase que impossível negar. Foi convidada para gravar “Tristeza, Pé No Chão”, de Armando Fernandesque vendeu mais de 100 mil cópias. A canção virou hino da cidade de Juiz de Fora.

Dessa forma o mundo virou-se para aquela mineira. Ganhou sucesso internacional, percorreu diversos países. Seu visual mais uma vez havia sofrido modificações, ela agora vestia-se de branco, vestidos longos, colares e guias de santo. Fora do Brasil ela representava a cultura de um povo, a cultura do povo Brasileiro.

Em 1974 estreou ao lado do grandioso Paulo Gracindo o espetáculo Brasileiro, Profissão Esperança, onde eram homenageados Antonio Maria e Dolores Duran. Grande momento em sua carreira, onde conheceu e foi produzida por Bibi Ferreira, que mais tarde tornara-se sua amiga e confidente. Ano de grandes mudanças também na vida sentimental, seu namoro com Adelzon foi atropelado por uma paixão por Paulo Cesar Pinheiro com quem se casaria em 1975, ano em que “Macunaíma, Heroí de Nossa Gente” foi sucesso e a Portela alcançou o 5 lugar do grupo 1.

Uma pessoa com lado espiritual aberto independente de religiões, assim podíamos classificá-la. Sim, ela ia aos terreiros de umbanda, batia cabeça no candomblé, recebia passes em centros kardecistas, era devota de Santa Barbara e acendia velas as segundas-feiras para as almas. Nesse contexto conheceu uma
poderosa benzedeira, a Vovó Maria Joana, moradora do Morro da Serrinha, reduto do Império Serrano. Passou a frequentar a casa de Vovó Maria Joana, participando das festas promovidas na comunidade de Madureira.

Em 1976 consolidou sua imagem de sambista no quadro musical Brasileiro, Canto das Tres Raças, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro era sucesso absoluto. Clara quebrou tabus de que mulher não vendia discos, era campeã de vendas. Foi a primeira cantora a ter um teatro com o nome dela.

Em 1979 após de retornar de viagem e não ter participado do desfile da Portela “Incrivel, Fantastico, Extraordinário”, Clara se engaja na luta de João Nogueira no Clube do Samba. O samba perdia espaço nas rádio, TV, revistas e por esse motivo, vários outros artistas se reuniam na casa do sambista para exaltar nosso maior produto de exportação. Nesse mesmo ano lançou seu 12º LP, Esperança.

Em 1980, seu pé quente deu vitória a Portela com “Hoje tem Marmelada?”, a Portela quebrava o jejum de 10 anos sem título. Imagem marcante é ver Clara junto com a velha Guarda da Portela, todos alinhados de fraque. Nesse mesmo ano a Beija Flor e a Imperatriz foram campeãs.

Em 1982 após o último campeonato do Império Serrano, com o inesquecível “Bum-bum Paticubum Prugurundum”, assim como fez com a Portela, Clara pediu que seu marido fizesse um samba de homenagem à escola, ela já tinha proximidade com a comunidade devido suas idas à casa de Vovó Maria Joana. Sendo assim nasceu “Serrinha”, que virou clipe do Fantástico no mesmo ano.

Clara foi uma mulher de fibra, conviveu com Cartola, Vinicius de Moraes, Chacrinha, Chico Buarque, Candeia, Elis Regina, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros tantos bambas. Foi sempre cercada por poetas e cantores memoráveis de nosso País. Tem relevância moral na música popular brasileira, marcou época, firmou estilos e criou tendências.

Nossa alegria foi ter ela em nossa compania durante todo esse tempo, tempo esse que nos foi injusto, deixou sua passagem com grandes marcas, registradas em notas e acordes musicais que jamais esqueceremos. Clara teve algo que nenhum outro artista vai ter igual nesse contexto: identidade. Clara é eterna.

Clara cantou a Mangueira, o Império da Tijuca, o Salgueiro, Tupi de Brás de Pina, o Império Serrano e sua amada escola, a Majestade do Samba, Portela. Em 2012 será homenageada pelo Paraíso do Tuiutí com o enredo “A Tal Mineira” do vitorioso Jack Vasconcelos. Desejo muita sorte!

Pra quem se interessar mais sobre Clara, aconselho a obra do Vagner Fernandes, “Clara Nunes, a guerreira da Utopia” da Editora Ediouro.

Vale a pena sambar de novo:

Clara canta Serrinha

Clara Nunes no desfile da Portela em 80

Sugestões, críticas e outras informações: imperioroberto@gmail.com

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