O “algo mais” do carnaval

0 Flares 0 Flares ×

De tudo que vivi, vi e estou vivendo no carnaval carioca permaneço em meio a uma contradição muito interessante. Quanto mais gosto da festa, mais me preocupo com ela.

E quando tento definir, identificar, mapear o foco dessa preocupação sempre me vem à cabeça o mesmo conjunto de fatos, quase sempre vinculados ao julgamento.

Tudo na verdade gira em torno de contradições já há muito identificadas. O que escrevo aqui nada mais é do que um resumo, uma síntese de tudo o que esparsamente escrevi em colunas passadas, talvez com uma linguagem diferente.

Só para começar:

Será que a direção dos desfiles está mesmo preocupada com o julgamento, ou está preocupada unicamente com o espetáculo? Ou amenizando um pouco: será que o mais importante para quem dirige o carnaval é o espetáculo, e que o julgamento é apenas uma decorrência?

Todos nós em nossas vizinhanças, em nossas redes de relacionamento, em nossos locais de trabalho, após o carnaval nos deparamos com opiniões sobre o desfile que passam longe das nossas preocupações e se resumem apenas à beleza  daquilo que presenciaram.

E quando me refiro “às nossas preocupações” estou tratando daquele outro lado, tão pouco valorizado pela direção dos carnavais: o lado cultural da festa.

Quem hoje dirige o carnaval carioca: a RioTur, a LIESA e a TV Globo. Não sei se exatamente nessa ordem.

Se olharmos os estatutos da Riotur saberemos que seu objetivo principal é a “ (…)captação de fluxos turísticos, dos mercados nacional e internacional, para a cidade do Rio de Janeiro, deflagrando a cadeia produtiva do turismo, gerando o ingresso de divisas, de dinheiro novo, o aumento da oferta de empregos e da arrecadação de impostos, fortalecendo a economia da cidade”.

Do ponto de vista institucional não pode haver missão mais nobre, mais técnica, mais pragmática. E nesse sentido os rumos que o desfile alcança hoje atestam uma competência inegável. A festa é a cada ano mais glamourosa, mais rentável, atraindo progressivamente turistas, telespectadores e atraindo atenções nacional e internacionalmente.

Bem, escrevi aí telespectadores, muito bem. A quem cabe a tarefa de abrir caminhos, divulgar, vender enfim tanta excelência? A quem cabe o papel de “tirar” a festa da Sapucaí e estender seu brilho nacional e internacionalmente?

Todos sabemos que esse papel cabe hoje substancialmente à rede Globo de televisão.

Que papel pode haver de maior complementaridade àqueles estatutariamente atribuídos à Riotur?

Conceitualmente as Organizações Globo são um conglomerado de empresas brasileiras vinculado a áreas de mídia e comunicação. Uma das maiores do mundo. A partir da criação da Rede Globo em 1964, e do início das transmissões no ano seguinte, iniciou sua trajetória imbatível tanto em audiência como em faturamento, atingindo em 2010 um faturamento na ordem dos sete bilhões de reais.

Não está ai, portanto, para brincadeiras.

Para que possa exercer a parte que lhe cabe nessa tarefa, exige e impõe um produto ao nível de sua programação de janeiro a dezembro, com seu padrão de qualidade, e que alcance – ou pelo menos não fuja- de seu público habitual: nossas mães, nossa tias, nossos irmãos, nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho e todas aquelas outras pessoas com as quais nos encontramos logo após o carnaval.

Surge à cena a entidade que faz esse meio de campo aí: a LIESA.

Por todas aquelas razões que estamos cansados de saber, o desfile era um instrumento limitadíssimo para que os objetivos da Riotur fossem maximizados. O desfile, tal como era, não atraía nem um pouco os interesses empresariais de uma empresa de comunicação que, como sabemos, não está para brincadeiras na busca de seus resultados financeiros.

Operou-se aí o casamento perfeito que está há muito tempo dando show de bola se considerarmos os objetivos que cada um desses agentes busca alcançar.

Pobres de nós…

Não queremos os carnavais como os de antes; não queremos atrair turistas, embora sejamos todos muito simpáticos com eles; não queremos criar nada que atrapalhe o espetáculo, que tire seu glamour, sua beleza, enfim, que deixe de atrair turistas. Não queremos faturar nadica de nada com o carnaval.

O que queremos é saber por que as coisas “convivíveis” não podem conviver harmonicamente; por que não podemos atrair turistas com sambas melodiosos? Por que não podemos atrair os telespectadores com uma bateria cadenciada, ouvindo-se seus instrumentos diferenciados como orquestras de percussão que eram?

Por que não podemos valorizar nossos ídolos, reverenciando as Tias Dodô de cada escola, evidenciando-as na mesma medida em que são reverenciadas artistas e outras celebridades off carnaval?

Não, não queremos espantar turistas, nem atrapalhar a RioTur em nada. Não queremos tirar da sala um só telespectador e nem um só centavos de balanços de quem quer que seja.

A pergunta que se quer fazer, depois dessa conversa toda aí em cima, é a seguinte:

Será que não há “algo mais” a ser considerado nos nossos desfiles do que a atração de turistas? Que a atração de telespectadores e divulgação do carnaval nacional e internacionalmente? Que a adaptação de uma festa de carnaval ao atendimento dos pressupostos anteriores?

E não me venham com essa história de “saudosistas”, de “tradicionalistas”. Não é disto que estamos tratando. Aqui se defende algo concreto, visível que é a defesa da bandeira do samba contra todo tipo de ataques, ainda que legítimos e institucionais.

Que as alegorias sejam deslumbrantes, que as comissões de frente sejam inesquecíveis, mas que não sejam estes os fatores preponderantes na definição dos vencedores. E nem que essas vitórias se façam valer com a subalternização do canto e da dança do samba.

Que os sambistas jamais deixem de ser os heróis dos nossos carnavais.

Assim foi ontem, que assim seja hoje para que seja assim ‘sempre para sempre’. Pobre de quem não vê que o desfile só é o que é por sua singularidade, por sua “beleza”. Uma singularidade que vem de toda uma história construída secularmente pelo samba e pelos sambistas, com o acolhimento de todas as influências que caíram sobre nossa gente.

O resto é beleza.

Saudemos a modernidade vinda com a evolução da sociedade, do mundo, da própria vida  e das aspirações humanas. Mas resistamos à “modernidade” usada como “cavalo” para interesses nem sempre tão carnavalescos..

Será que “este algo” mais dos desfiles é capaz de sensibilizar tais entidades com seus objetivos tão pragmaticamente definidos?

Será que a Secretaria Municipal de Cultura, por ser de cultura e não de fomento turístico e nem mercadológica, teria interesse de cuidar desse aspecto da festa? Será que algum prefeito teria tal interesse, tal preocupação?

Dói constatar que, pelo menos em todas as gestões até aqui, a Secretaria de Cultura passa ao largo de tais questões, exceto, ao que me lembro, quando tomou para si a organização do corpo de jurados para o grupo de acesso.

O samba hoje é marcheado, o desfile militarizado, as baterias marcializados. Quem ditou que fossem assim? Quem é que disse: daqui para frente tem que ser assim? A quem interessa que as coisas tomem esse rumo?

Insisto nesta questão: é um filho feio que não tem pai.

Todos reclamam dessas “deformações”, mas não se mexe um dedo para identificá-las, estudá-las, organizadamente.

Os desfiles têm que ser discutidos e avaliados por quem ama e por quem faz o carnaval.

Que se considere e leve em conta os dogmas propostos por quem se beneficia dele, seja institucional ou empresarialmente ou mesmo por delegação.

Quem quer assim, não sei direito… apenas presumo, intuo.

Certeza mesmo só tenho a de que  tudo passa pelo julgamento.

Mas isto fica para a outra vez.

E-mail para contatos mais longos: lcciata2@hotmail.com

Facebook: Luis Carlos Magalhães (enquanto não voltarem os ‘comments’)

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×