O amor pelo Império Serrano: lágrimas e toda a pureza do sentimento da pequena Giovanna

 

 

Como medir um amor? Foi a primeira pergunta que fiz ao presenciar a cena. Foi forte, tão forte quanto às lágrimas que saltaram aos olhos da menina. Quando se presencia um momento desses é preciso parar e admirar. Ao mesmo tempo, para todos os apaixonados pela “folia momesca” é impossível não se ver e não ver sua vida passando diante dos próprios olhos, em quadros tão rápidos que fica difícil de organizar e compreender o que eles querem dizer. Olhar mirado naquela figura, que outrora fomos nós, nos fazem entender a razão de tanto esforço para levar o que acontece no carnaval aos mais distantes rincões.

O choro compulsivo da pequena Giovanna Casagrande, dez anos de idade, ao ver sua escola passar pela Avenida, me fez lembrar todas as vezes que essas mesmas lágrimas rolaram de meus olhos por causa dessa festa tão graciosa e, às vezes, tão ingrata. Simplesmente, fiquei imóvel, atônito, ao me deparar com um quadro que, há muito, não via na Sapucaí. As lágrimas lavavam sua alma, se misturando aos versos do samba entoados com força e fibra pela jovem foliã, que se equilibrava na grade das frisas para ficar mais perto de suas "mães baianas".

A criança, levada a quadra por sua mãe, frequenta os ensaios desde os cinco anos. Na primeira vez que pisou dentro de uma escola, se encantou com os rodopios de Raphaela Cabocolo, a dona do pavilhão da Verde e Branco da Serrinha à época. Não teve jeito, foi amor à primeira vista. Amor, não apenas pelo “Maior Império de Bambas”, mas a jovem foi tomada por um sentimento arrebatador: o mágico desejo de se tornar porta-bandeira.

– No início não queria levar a Giovanna para as aulas, pois não queria forçar a barra. Depois de muitos amigos insistirem, decidi colocá-la no projeto do Manoel Dionísio. Acho que foi a decisão mais correta que tomei. Ela está indo para o quarto carnaval como porta-bandeira da escola mirim Corações Unidos do Ciep e vai ser uma das meninas que vai desfilar na ala em homenagem ao projeto do Dionísio na Porto da Pedra – explicou Karla, mãe da apaixonada petiz que ganhou a reverência de baianas, espectadores, componentes, velha guarda (salvem os cabelos brancos) e do sisudo diretor de ala durante o ensaio técnico do último domingo. Essas cenas ficarão gravadas na memória por muitos carnavais. Notar aquela explosão de amor traduzida no choro de uma criança, a manifestação mais pura que pode existir, nos leva a refletir sobre os rumos que nossa tão amada festa tomou nos últimos tempos.

Alguns anos atrás os ensaios técnicos movimentavam alguns milhares de pessoas em uma programação que começava no início de dezembro e só terminava às vésperas da folia. Programação que mudou com a limitação de um ensaio por escola. Devido ao carnaval ser em março, a atual temporada de ensaios técnicos começou apenas na segunda quinzena de janeiro, cerca de um mês e meio depois de outros tempos. Quando se ama de verdade uma instituição do carnaval, nada mais faz sentido naqueles dias de folia. Um ano inteiro de trabalho e uma vida toda de amor se resume naqueles minutos, onde a tensão da sirene e da linha de início se confunde com a Apoteose, simplesmente consagradora, que os espera de braços abertos e lágrimas nos olhos.

Lágrimas, como as do integrante da Velha Guarda que vê sua escola se esforçando para não descer de grupo ou que não se contém ao ouvir a nota dez do locutor oficial. Lágrimas, como as da porta-bandeira, que desolada pela nota baixa é consolada pelo seu guardião eterno, o mestre-sala. Lágrimas do torcedor, do componente, do diretor que não faz ideia de como está o desfile e se perde nas emoções ao ouvir os gritos de campeã das arquibancadas. Lágrimas de quem assiste pela televisão ao ver sua escola brilhando, linda e bela, como se não houvesse nenhum problema. Lágrimas do ritmista que desfila seminu, pois sua fantasia não chegou a tempo dele entrar na Avenida. Lágrimas, como a daquele moleque que cruzou o país para ver de perto sua maior paixão. Lágrimas, do jornalista que em meio a tantas desilusões e dificuldades, tem a certeza de estar no caminho certo. Lágrimas. Ah, as lágrimas! Como as daquela menina que um dia se equilibrou na grade para ver, alguns centímetros mais perto, seu Império Serrano desfilar, pois no carnaval 2014 a escola não terá alas mirins.

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