‘O carnaval é homofóbico, racista e machista’, dispara Milton Cunha no Happy Hour CARNAVALESCO

milton9Ele brilha como comentarista na maior emissora de TV do Brasil. Milton Cunha foi o convidado do Happy Hour CARNAVALESCO, no All In Sports Bar, e durante o bate-papo contou como venceu na vida levantando a bandeira dos gays e minorias. Carnavalesco ‘sem sucesso’, como o próprio se define, encontrou sua verdadeira vocação na televisão. Doutor em João 30 e Rosa Magalhães, revela em uma entrevista sem filtro que foi ele quem apresentou Fabíola para Anísio Abrahão David e não tem medo de revelar a face preconceituosa do carnaval: ‘É racista, homofóbico e machista’. Confira abaixo a entrevista completa:

– Milton quando você decidiu vir para o Rio e como foi essa decisão?

Milton Cunha: “Eu me lembro que com quatro anos já enfrentava meu pai. Eu já era isso com essa idade, tinha braço, voz articulada. Meus pais nunca souberam como lidar comigo. Pessoas muito tradicionais, que não tiveram acesso à informação. A porrada comia, apanhava muito. Eu sabia que o tempo iria passar e uma hora eu iria embora para o mundo. Quando é que chega a hora? Estudei muito, entrei na universidade com 15 anos e me formei aos 19, me mandei. Em 1982 pego minhas coisas e vou embora. Naquela noite eu avisei que iria embora. Sempre fui do enfrentamento. Se não fosse eu morreria. Quando eu desci a escada para pegar a mala de papelão, meu pai estava esperando. Imaginei que teria barraco. Ele disse que me levaria na rodoviária. O dia estava amanhecendo e ele me falou que estaria fazendo o que ele deveria ter feito. Choramos os dois mas sem olhar um para o outro. Fui para nunca mais voltar. Ficou tudo aquilo para trás”.

– Como surgiu essa paixão pelo carnaval das escolas de samba?

milton10Milton Cunha: “A primeira lembrança é 1974, desfile do João 30, As Minas do Rei Salomão. Quando vi aquele metaloide achei lindo. Eu ia ao carnaval fantasiado em Belém. Essa coisa do show, do espetáculo, eu me liguei pela primeira vez ali em 1974”.

– A Beija-Flor é um divisor de águas na sua vida? Como foi essa aproximação?

Milton Cunha: “De 1982 a 1993 estava fazendo de tudo. Teatro, moda, varrendo camarim, uma luta. Uma das modelos que desfilava para mim era Fabíola Oliveira. Fizemos o concurso Garota de Ipanema no Scala. Eu procurei o Anísio para me patrocinar e ele levou a Beija-Flor no concurso. Anísio pediu que eu levasse ela para o João 30, para que ela fosse para o Marrocos com a escola em um Réveillon do Rei Hassan. Passaram-se 30 anos, eles tiveram filhos e nunca se separaram. Eu que formei o casal. A Beija-Flor entra assim na minha vida. Eu sigo a minha vida. O Anísio me procurou em 1993 alegando atraso nas costuras da escola. Era o carnaval da Maria Augusta, ‘Unidunitê’. Me pediu 70 roupas de passista, eu desenhei e fiz todas. No dia do desfile ele me deu uma roupa para desfilar no abre-alas. Depois que Augusta saiu, Fabíola me propõe ser carnavalesco. Eu não queria, achava que seria diretor de ópera de ballet. Anísio me perguntou como seria uma ópera minha. Aí contei para ele como seria um espetáculo em homenagem para Margeret Mee. O Anísio disse que era esse o enredo da Beija-Flor para 1994. Assim começou a minha carreira como carnavalesco”.

– Como carnavalesco qual foi seu maior desfile e qual foi maior decepção?

milton7Milton Cunha: “Tenho orgulho de meus enredos críticos e as homenagens à Bidu Sayão, Margaret Mee, Fatumbi. Boi Voador e Agudás me deram muito prestígio. O meu maior trabalho visual é Viradouro 2009. Ali foi um problema grande de dinheiro. No dia do desfile desci com tudo meu e decidi terminar minha carreira. Ainda fiz Cubango em 2010, meu último trabalho”.

– Em seus estudos acadêmicos você abordou João 30 e depois Rosa Magalhães. Se tivesse que escolher um predileto qual seria e por qual motivo?

Milton Cunha: “A minha personalidade é um tripé. Gosto de me divertir, beber, de estudar e ser ator. Eu me construí estudando, caindo na gandaia e me fantasiando. Eu sou doido até página 8. Na página 9 sou seduzido pela inteligência dos doutores. Fiz mestrado e doutorado em João 30 e pós-doutorado em Rosa. São opostos. Rosa é histórica, João é onírico. É um cérebro em tormenta, uma lógica própria. Rosa é acadêmica”.

– O Milton Cunha é um cara sempre alegre, mas e na intimidade dentro de casa?

milton6Milton Cunha: “Tenho essa postura alegre perante a vida. Acredito na bonança, sou esperançoso. Não é um personagem. Acorde de bom humor, vou ler, assisto filmes. Minha formação é basicamente visual. Sou um apaixonado pelas artes. O Milton pessoa é esse”.

– Como você acha que conquistou o povo. Hoje, as pessoas te param querem fotos e autógrafos. Como isso aconteceu?

Milton Cunha: “Ninguém é melhor que ninguém. A partir dessa premissa abraço meu semelhante e eles sentem. Ao longo de 25 anos fazendo isso, vou conquistando, elas vêem que não é personagem, percebem que é muito mais doido ao vivo. É tudo verdade, acho que foi assim que conquistei”.

– Você venceu diversos prêmios como enredista. Acredita que é melhor ser enredista do que carnavalesco? Qual é o segredo do bom enredo?

Milton Cunha: “É o recorte, o ângulo de visão, É preciso uma mente aberta. Todo enredo é bom desde que você faça uma abordagem interessante. O problema é que não pode ficar óbvio, só no que está escrito, Você tem que estabelecer relações”.

– Como a TV Globo entrou na sua vida? E o que ela mudou na sua vida e carreira?

Milton Cunha: “Pensei que eu nunca ia. Fazia desfile do Acesso na CNT e Campeãs na Band. Já tinha ligado pro Roberto Talma, ele disse não. Tinha desistido, eu não tenho padrão Globo. Uma vez cruzei com o Miguel Athaíde (diretor da TV Globo) na Sapucaí. Tive uma luz. Pedi uma oportunidade. Eu fui à emissora e foi ele que me colocou no desfile do Acesso, na estreia da Série A. Já nesse desfile o Boninho me chama para fazer o Especial. Foi muito rápido. Quando chega em 2014 faço a série “Enredo e Samba”. Quem me deu a chance foi o Athaíde, fiz Copa do Mundo, ali eu emplaquei”.

– Em 2016, o Paulo Barros reclamou de um comentário seu. Como você analisa a crítica no carnaval? E acha que um dia poderá novamente ter o Paulo Barros como um colega ou amigo?

milton5Milton Cunha: “Eu acho que a crítica tem que ser feita, o criticado faz a réplica e nós a tréplica. Não pode faltar o diálogo. Ele não pode querer cercear, a crítica tem de existir. É desse jogo que vamos avançando. Não há dono da verdade. Há um artista criando outro observando. É dessa reflexão que partimos. Cala a boca já morreu. Todos têm direito à opinião. Eu não analiso projeto, mas a escola na avenida. Não me importa o projeto, isso é com os âncoras. Minha função é comentar a realização. Sou do diálogo e embate intelectual. Quero que o Paulo continue a criar. O erro da água não apaga o brilhantismo dele. A mesa do Harry Potter é gloriosa. O Fuscão Preto também. Ele tem muitos acertos, mas quando errou foi a desgraça do século”.

– O que você mudaria no julgamento do carnaval?

Milton Cunha: “Eu queria que não pesasse a bandeira. Passou de cueca branca tem que ser 9,0, não pode considerar o tamanho da escola. Alegoria da Portela tirou 10 em 2005. Não pode. Coragem para tirar ponto de quem tem que tirar. Eu mudaria isso”.

– Como trazer o público que gosta do carnaval, mas está afastado? E como trazer os jovens?

Milton Cunha: “Eu faria mais diversão. Tem que ter uma energia solta, marcha enfileirada é chato. Cadê as pessoas doisas e nuas? Tem que enlouquecer mesmo, desafiar a história. Proporia alucinações para atrair. Eu não quero só olhar. Fica esse povo xiita fanático só”.

– Voltaria um dia a ser carnavalesco?

milton4Milton Cunha: “Vai jogar praga na tua família (risos). Quer saber? Eu nunca dei sorte. Sempre um carro quebra, algo atrasa, nesses vinte e poucos anos. Consegui boas posições, prêmios, mas o meu exu sempre bateu comigo que não era para eu fazer isso. Ralava, batia na trave, acontecia algo, nunca foi tranquilo. Esses anos todos foram difíceis. Até que eu saí e não me arrependo não”.

– Da nova geração quem você aposta para ser um carnavalesco top no futuro?

Milton Cunha: “Estamos bem servidos. O Alex de Souza faz milagre sem dinheiro. Ele mostra que escola de samba é criação, não é poder econômico. Leandro Vieira, a porrada do ano. Bom gosto sem esconder a escola de samba. Ganhou o samba com um visual singelo e equilibrado. Viva essa vitória da Mangueira”.

– Escolhe qual desfile: Margaret Mee, Bidu Sayão ou Agudás? E por que?

Milton Cunha: “Bidu Sayão, pela comoção a volta da primadona velhina ao país. Estive de fronte do frenesi midiático. Gostei daquilo, sou eternamente grato a ela e ao Anísio. Tinha que ter dinheiro, ela veio de primeira classe”.

– Em 2006, o desfile da Viradouro ficou em terceiro. Foi surpreendente?

Milton Cunha: “Fizemos um desfile poderoso, mesmo com a morte do Monassa. Estava na hora certa e no lugar certo. Foi bom.”

– Na São Clemente você tem o carinho da família e fez grandes enredos como Boi voador e o Clemente João? Era mais fácil fazer esse tipo de enredo na São Clemente ou outra escola aceitaria?

milton2Milton Cunha: “O que me surpreende é a falta de propostas para ter uma visão mais engraçada. Somos filhos de Dercy Gonçalves com Chacrinha. Que pena que nem a São Clemente quer mais”.

– Falta o tom de humor e crítica nos desfiles?

Milton Cunha: “O júri só premia o caretismo. Todas que propuseram deboche foram detonadas. A última foi o Boi Voador. A pá de cal. Ninguém faz a história gay. Todos tremem de medo, há um gesso, é só discurso oficialoide. Cadê a ousadia?”.

– O carnaval é preconceituoso?

Milton Cunha: “Acho sim. É machista, racista e homofóbico. Quem são os presidentes negros? Quantas mulheres? Quantos gays? A cota é baixíssima. Vamos soltar foguetes pelas mulatas que são rainhas de bateria. Isso é uma procissão de negritude. Na hora que não tiver o quadril o gringo vai embora. É a única fonte de lucro”.

Um comentário em “‘O carnaval é homofóbico, racista e machista’, dispara Milton Cunha no Happy Hour CARNAVALESCO

Os comentários estão desativados.