O carnaval que vai chegar

Se há um político em quem jamais me imaginei votando, ou mesmo para ele sorrindo, é
Antonio Carlos Magalhães, acho que já andei escrevendo essas coisas por aí. Mas quero repetir neste momento.
Por outro lado se me fosse dado, pedido, levar alguma autoridade que nos visitasse a conhecer o lugar mais bonito do Brasil eu não teria nenhuma dúvida: a ladeira e o Largo do Pelourinho na Bahia.

Assisti a toda aquela transformação. Nos primeiros carnavais que andei por lá o local era uma fedentina só em meio a escombros de prédios e ruínas coloniais. No último, um
deslumbramento. Cores vivas, luz – muita luz – mais e mais cores e cheiro bom. Cheiro bom
de vida limpa, cheiro bom de lugar onde o povo pode morar decentemente.

Lugar onde o povo baiano pode se orgulhar de seu passado, de sua história, de sua arquitetura; de cada palmo do velho calçamento ali existente, daqueles telhados… daquelas paredes com tantas histórias seculares.

Tal encantamento foi produto da vontade política e da determinação de um político local: Antonio Carlos Magalhães, aquele mesmo; tive que tirar o meu chapéu…
Agora vem o carnaval aí. O primeiro, de verdade, desta nova administração municipal. O primeiro, o outro, não deu tempo, como sabemos. Pelas primeiras atitudes no carnaval passado tive a impressão de que a Secretaria de Cultura imporia sua marca, alguma marca. A RioTur
faz seu papel: promover a festa, atrair turistas e apresentar o superávit de sua competência gerencial e financeira. Esperava que a
Secretaria fosse olhar para os aspectos culturais da festa.

Este ano vejo a Secretaria de Cultura distante, longe, fora do jogo. Terá desistido deixando o carnaval por conta do mercado, um produto a ser vendido, sem cuidar de sua alma, sem preservá-la em seus aspectos culturais propriamente ditos? Administrar a evolução da relação complexa entre o interesse turístico e o do povo carioca?

Pergunto, por exemplo, se caberia à Secretaria de Cultura opinar sobre o aumento dos ingressos da Lesga?

Ainda assim estou otimista como nunca estive. Acho sim que é possível ordenar a festa sem tirar dela suas marcas de espontaneidade e descontração. Se a "Dream Factory" vai acertar, se vai dar certo, se os 800 banheiros vão "andar" junto com os blocos, se o xixi vai ser menos incômodo, se os ambulantes vão continuar no meio dos blocos, isto só saberemos depois do carnaval.

Neste momento o que importa é que o poder público não está omisso, não está "deixando rolar" dando migalhas de infraestrutura a uma gente que faz desta festa seu momento maior.

O que se via até aqui era uma vergonha para qualquer carioca, folião ou não. Exemplo maior de omissão, de falta de respeito, de covardia
se dava na Avenida Rio Branco deixada escura, fétida, sem policiamento e, pior para o carnaval, sem qualquer indício de uma ornamentação que lembrasse que é carnaval.

Na minha cabeça a ornamentação dá o clima, puxa o espírito carnavalesco da cidade. Ao ser iniciada e desenvolvida nas avenidas e nos bairros vai nos avisando a cada dia, nos preparando para os dias que virão.

Pode não parecer muito, mas o tratamento a ser dado à velha "Avenida Central" para mim será entendido como a real intenção do poder municipal.

E aí faço a ligação com a história lá de cima com o ACM. Faltou até aqui a vontade política de "salvar o Pelourinho", ou melhor, de
"respeitar" o carnaval de rua da nossa cidade.

Há uma avalanche de blocos surgindo a cada ano. Já há lugares em que os dias da folia são transformados em dias infernais para quem não é muito chegado. Onde isto ia parar?

Outra iniciativa que me anima é o revigoramento da parte "velha" da cidade – Saúde, Santo Cristo, Gamboa; é prova de comprometimento com a história dos ranchos, do próprio samba e do povo carioca a partir de uma de suas regiões historicamente mais importantes tanto de sua cultura popular como de suas lutas sociais.

O aumento da subvenção para os desfiles do grupo de acesso, uma outra prova. A ela se somam os exemplos anteriores aqui citados sinalizando que o compromisso municipal não é só com a elite do carnaval – grupo especial -, ou com os bairros privilegiados – zona sul e Barra.

Tomando o cuidado com elogios "chapa branca", tenho a esperança de que a cidade vai continuar explodindo em criatividade, tendo ao lado agentes públicos que não inventem a roda, que apenas identifiquem e cumpram as funções que lhes são atribuídas. Estaremos atentos.

O folião carioca fará sua parte.

Do ponto de vista dos desfiles, outro agente do carnaval em julgamento neste carnaval é a LESGA.

Por tudo que vem buscando, pelo espaço que procura conquistar, a impressão que me deixa é que a entidade demorou muito a ser formada. A evolução do carnaval, sua transformação em festa devoradora de verbas públicas transformadas em glamour, o salto enorme dado pela Liesa em relação às demais tornou o modelo "associação" impróprio para o avanço necessário.

Apesar de um trágico começo, a virada de mesa à época unanimemente considerada um suicídio, um tiro no pé, uma manobra nunca engolida, a entidade partiu na direção de abrir novos caminhos.

Mas que caminhos serão estes? Será que a entidade parou em algum momento para discutir seus rumos, seu papel a desempenhar na rabeira de um megaespetáculo?

Um disco bem sucedido artisticamente, com sambas de qualidade em igual número comparado ao grupo especial, e o simples fato de ter em seu desfile escolas já super tradicionais na cidade, com história respeitável naquela avenida, mostram que o espetáculo do acesso difere funfamentalmente do "especial" em três motivos; 1) dinheiro; 2) grana; 3) tutu.

E é esta mesma falta desses três elementos que transforma o desfile em propaganda enganosa passível – quem sabe? – de ser punida pela
lei do consumidor. A expectativa criada por um desfile de escolas tão fortes não se confirma no sábado por um simples fato: o público fica esperando aquela escola que já desfilou no "especial", com verba do "especial", com fantasias do "especial" e com alegorias "do especial".

Quando começa o desfile vê entrar, com exceções, escolas com verba do "acesso", fantasias do "acesso" e alegorias do "acesso".

E aí que surge a questão, a discussão acerca da "identidade" do grupo de acesso. Qual é sua função, seu papel nesse carnaval espetacular que o faz secundário, que o faz "menor"?

Será que o papel é esse que está sendo jogado, capaz de aumentar de tal forma o preço dos ingressos de frisas?

O que todos se perguntam é se este não é só o primeiro passo para aumentar arquibancadas e o disco? Será que assim não estará sendo fixado irreversivelmente o papel de "secundariedade", menor, de um grupo com tamanhas potencialidades?

A Lesga é uma adolescente. Completa agora um ano depois de um mau passo. Quem sabe se o papel do grupo não é outro, muito mais nobre, altivo e digno do que ficar "correndo atrás" dos holofotes do "especial".

Aumentar o valor de ingressos só afastará o público que pode lhe ser fiel. Aumentar ingressos é se fazer acessível apenas ao mesmo público do "especial", correndo o risco de não ser nem uma coisa nem outra. Aquele público que pode pagar o ingresso acrescido se contenta com o espetáculo apresentado?

A decisão de baratear o preço de venda dos discos é correta. Trata-se de um produto em escala de afirmação tanto quanto o desfile a ele correspondente.

Manter os ingressos acessíveis a seu público é abrir caminho para um espetáculo diferenciado, com cara própria, diferente do "especial". Daí, desse patamar conquistado, apagaria seu mau passo e se habilitaria por verbas mais merecidas, mais compatíveis com um "novo" dia
do carnaval, com uma "nova" atração do carnaval.

Desse novo patamar tornaria inadiável a correção da distorção das verbas, mantendo arquibancadas muito mais baratas que as do
"especial", fidelizando seu público transformado o sábado em dia "gordo" atraente inclusive para patrocínios e transmissões.

A alavancagem de recursos que o "acesso" precisa tem que vir de subvenções mais justas e de contratos bem negociados e não do bolso dos sambistas.

Minha sugestão, a partir de dados expostos por Fabio Fabato em textos passados, vai no sentido inverso ao que foi adotado pela Lesga. Ao invés de praticar o aumento, inverter o rumo e vender todo aquele espaço de frisas, ao longo de toda a pista, a preços de banana do ponto
frio bonzão transformando aquele espaço na chama acessa de que o desfile monumental hoje tanto se ressente. Ou quem sabe de graça
para que o calor das torcidas e dos sambistas contaminasse de vez a festa, tornando-a diferente da frieza  das arquibancadas dos desfiles principais.

O sonho maior ainda é ver tal medida ser bem sucedida e transportada para o desfile "especial".

Hoje a experiência de assistir os fogos de Copacabana pela TV é mais bonita do que ficar lá na praia ao vivo. A TV se apropriou da festa moldando-a segundo as características de sua linguagem própria, tal como vem acontecendo com o carnaval.

Os fogos foram para longe, muito distante; o mar sem as palmas levadas para Iemanjá, as areias cheias de "zonas VIP's" e palcos monumentais tocando música eletrônica.

O carnaval e os desfiles, as festas populares precisam de ousadia em seu benefício.

Pode haver atestado maior de incompetência do povo carioca do que o Terreirão do Samba?

Como explicar que na terra do samba, no local – Praça XI – que é a cara do samba, haja um espaço tão formidável, já conquistado pelo povo para festas populares absolutamente subaproveitado há décadas durante 300 dias no ano, utilizado só no carnaval ?
No mínimo o espaço desértico poderia ser utilizado pelos competidores do Paris-Dacar, em sua versão sul americana, antes de enfrentar
os rigores do Atacama: deserto por deserto, também temos o nosso…

Onde está o poder de representação dos sambistas? Onde está o poder de interferência de jornalistas e cronistas comprometidos com o samba? Onde estão os políticos comprometidos com a cultura popular? Onde estão os empreendedores culturais desta cidade?

Na questão do Terreirão do Samba todos nós, cariocas, somos incompetentes e derrotados. Aquilo ali é uma prova de nosso fracasso e de nossa falta de representação e iniciativa.

Os desfiles têm sido mornos, sem contagiar plateias. É preciso ousar no carnaval, repito, em benefício do próprio carnaval e dos sambistas. Ousar em benefícios outros já há bastante gente ousando.

 Sem querer ser mais esperto que ninguém, aproveitando o desproporcional  aumento das frisas e o bom exemplo do preço dos cd's do acesso, vou dormir hoje sonhando que no próximo carnaval não haverá mais frisas. Ali naquela beira de pista será um espaço com-ple-
ta-men-te ocupado pelo povo do samba, fazendo lembrar a antiga "geral" do Maracanã.

Ah! Como ia ser bom ver as escolas cantando, contagiando todos aqueles "setores 1", e estes contagiarem as frias arquibancadas como nos velhos tempos, bem mais que idos.

Tempos que só existem na cabeça daqueles para quem o carnaval, sem a proximidade do canto e da dança do povo, acaba ficando como aquelas comidas "fast food", "junk food" que são servidas para os sambistas cada vez mais.

E cada vez mais caras…