O Conto do Menino-Rei

Diferentemente de um conto de reis e rainhas, nasceu em 20 de julho de 1940 na cidade de Campos, o terceiro dos seis meninos de uma família humilde, mas nobre de espírito e caráter. Como sonho de todo menino, ele queria brilhar no futebol. Trilhou os caminhos dos campos de sua cidade, goleiro habilidoso, fazia bem seu papel. Mas sabia mesmo que sua qualidade maior era quando ia ao vestiário e no chuveiro soltava sua voz. Em 1955 uma nobre corte aportava em Campos. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano apresentava-se na cidade enchendo os olhos do menino de brilho e pintando o coração do muleque de verde-e-branco, paixão a primeira vista!
 
E cantava bem o tal menino Demerval, era convidado para cantar em festas, bailes e eventos na cidade mas na verdade o futuro dele estava na Capital, onde participou de programa de calouros. Ainda cru, foi gongado algumas vezes, bateu cabeça e comeu fogo até conhecer uma mulher que coincidentemente tinha no coração uma paixão em comum: o Império Serrano. O então menino já não se chamava mais Demerval agora era Roberto Ribeiro. O nome de nascimento não lhe dava a margem que precisava para tentar a carreira de cantor. Liette lhe apresentaria ao “palácio” Imperial e à nobreza suburbana em Madureira, onde chegou de mansinho. Com seu jeito quase que mineiro, fez uma parceria além de musical com Jorge Lucas, na época presidente da Ala dos Compositores.

Mas tornaria o interprete oficial da escola da Serrinha. O ano era 1971 e o enredo “Nordeste, seu povo, sua história, sua gente”. O menino que ainda não era Rei levou sozinho a escola, que pulou do 8º lugar em 1970 para o 3º em 1971. Nessa época foi convidado por sua gravadora para gravar um CD com sua então “madrinha” Elza Soares. O sucesso acenava. Em 1977 em parceria com seu então cunhado Jorge Lucas, venceu a disputa de samba Imperiana com o enredo “Brasil, Berço dos Imigrantes”, o que rendeu o 6º lugar à escola. Deu voz ao Império até 1981, onde passou a bola em uma carta belíssima a Quinzinho em 1982, onde a escola foi campeã com “Bumbum-baticubum-prugurudum”.

O sucesso batia a porta e não pedia licença, entrava e fazia o então menino que sonhava em ser jogador em Campos se tornar um dos maiores intérpretes de samba do Brasil. Ganhou inúmeros prêmios, Globo do Ouro, Troféu Villa-Lobos entre outros. Gravou mais de 20 álbuns, sendo o último em 1992. Emplacou sucessos, como “Todo menino é um Rei”, “Estrela de Madureira”, “Acreditar”, esse último da gloriosa Ivone Lara e Délcio Carvalho. Fez parcerias incríveis, gravou com Chico Buarque, Clara Nunes, Alcione, Grupo Raça, Beth Carvalho, Gonzaguinha e outros. Sua lealdade e amizade rendeu uma homenagem singular na contra-capa de seu LP de 1978 onde ele colocou uma cadeira vazia com os dizeres: “Cadeira reservada ao poeta maior do Império Serrano, Silas de Oliveira”.

Correu o mundo com nossa música, a cada ano diferente um LP incomparável, sua alegria e simpatia somavam a uma voz de veludo e um talento incrível. Um artista popular e preocupado em manter suas tradições e agradar seu publico. Nos deixou em 1996 e se essa semana estivesse entre nós completaria 71 anos de idade. Fica aqui minha homenagem a esse grande Menino Rei, a voz privilegiada do samba.

Fiquei muito feliz de chegar à quadra do Império Serrano nessa última feijoada de 6 anos e ver a Vellha Guarda show cantando e encantando com musicas de Roberto Ribeiro. Que essa nova diretoria continue assim, exaltando os seus. Que resgate também o Memorial Roberto Ribeiro, esquecido com o tempo na quadra da escola. Os fãs pedem isso. Em 2012 o Império do Futuro homenageará seu padrinho com o enredo “Todo Menino e um rei e toda mulher é guerreira”

Agradeço ao amigo Alex Ribeiro, filho do “cara” que me recebeu com amizade em sua casa numa manhã de sábado. Aconselho a leitura do livro de sua mãe, Liette de Souza, “O menino Rei, a voz privilegiada do samba” da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Silva, de 2010. Bacana também é o DVD do programa Ensaio lançado em 2007.

Vale a pena sambar de novo:

Roberto Ribeiro canta seu maior sucesso no Fantástico, Todo Menino é um Rei:

Roberto Ribeiro e Beth Carvalho cantam Cocoricó: