O feijão e o samba

Sou Portela por causa da Velha Guarda.

Torço pela Portela por causa do Comandante Nilo.

Tudo começa no ano de 1965, o ano do quarto centenário do Rio de Janeiro. Até ali, menino ainda, eu freqüentava as quadras das quais pudesse voltar para casa a pé. Era um tempo que depois das duas da madruga era inútil se pensar em bondes , com muita sorte encontrar um ônibus desgarrado.

Ao Império e Portela íamos uma ou outra vez, em ocasiões super especiais.

Assim é que todos nós éramos Mangueira de alguma forma. Uns para sempre, outros nem tanto.

E foi assim que a irmã mais velha de um de nós, não sei bem por que razão, nos levou uma, duas vezes à Portelinha. De carro… que maravilha!

Quando chegou o dia da decisão do samba tomamos coragem e fomos para Madureira. A Portelinha ficara pequena e a final foi na quadra imensa do Imperial Basket Club, bem no meio da Estrada do Portela.

Lá pelas tantas anunciaram o resultado: Candeia era o vencedor.

Lembro ainda olhando do corredor de cima, em meio a mais de mil cabeças à minha frente, aquele corpanzil, aquela calva, o sorriso muito largo ziguezagueando entre as mesas apertadas se dirigindo ao palco.

Naquela noite, a noite do Candeia, ouvi pela primeira vez falar em Paulo da Portela. Ouvi pela primeira vez aquele samba de terreiro do Monarco e Chico Santana que contava uma história longa e bonita que ia De Paulo da Portela a Paulinho da Viola.

Uma história que marcaria minha vida. A partir da memória de Paulo passei a conhecer a Portela, sua história e seus compositores.

Depois veio aquele disco de 70 do Paulinho da Viola revelando a Velha Guarda. Depois a inigualável Cristina Buarque tirando do baú todos aqueles sambas com a marca registrada de Oswaldo Cruz.

Veio a debandada da Quilombo puxada por Candeia e depois a puxada de Mazinho para a Tradição. A Portela se partira em três e dava muito poucas alegrias a sua imensa e apaixonada torcida. Passei a conhecer muita gente que era Portela mais sequer assistia o desfile pela TV, sequer vestia a fantasia.

A ligação mais forte era com o a tradição, a história, o samba em si: a ligação forte absoluta era com a Velha Guarda da escola muito mais que qualquer outra coisa. Onde a Velha Guarda estivesse, estávamos lá.

Um dia a quadra foi invadida. A direção anterior era afastada e o Comandante Nilo tomou conta da escola. Os velhos Portelenses voltariam, o samba e a Velha Guarda seriam valorizados, a Portela voltaria a vencer.

E foi nessa esperança, nessa expectativa que, além de Portelense-Velha Guarda passei a ser Portelense-Sapucaí. A esperança de juntar tudo que a Velha Guarda representava com todo aquela história vencedora me encheu de entusiasmo.

A invasão da quadra, puxada pelo Presidente Nilo me enchia de esperança.

Hoje a Velha Guarda vai para um lado e a escola do Presidente Nilo vai para outro.

Se já me sentia mutilado desde que a frase mais linda fora apagada do arco de entrada da Vicentina (AQUI DEU FRUTOS A ÁRVORE QUE A VELHA GUARDA PLANTOU) que dirá agora que a própria velha Guarda se vai.

Acho que muitas escolas têm a missão de vencer o carnaval. E acho justo e natural que assim seja. Acho também positivo que Portela, Mangueira, Império e Salgueiro também tenham esse objetivo. Sempre foi assim, é uma competição.

Mas essas quatro têm uma missão muito maior que é manter firme a bandeira do samba. Proteger e cuidar de suas raízes garantindo assim as bases para um desfile cada vez mais grandioso que beneficiará a todas as outras, inclusive elas próprias.

Esse o papel da Velha Guarda da Portela. Compreender o futuro, mas manter acessa a dignidade histórica do samba em suas raízes; em sua forma de ser cantada, de ser dançada.

O objetivo da escola de samba Portela é um, é nítido, claro: vencer o carnaval para manter sua história e dar alegria aos Portelenses.

A missão da Velha Guarda é outra, não é ganhar carnavais.

Uma coisa é um OBJETIVO, outra coisa é uma MISSÃO.

A missão da Velha Guarda é cantar um samba que já não se faz por aí, ainda que se cante, por causa dela, em todas as rodas de samba do Brasil. A missão da Velha Guarda é dançar o “miudinho” em suas apresentações para mostrar a nós, a nossos filhos e netos, como se dançava naquele tempo.

Mais uma vez um pedaço de nós se vai. Quando quisermos ver a Velha Guarda temos que ver fora da nossa casa.

A Velha Guarda se queixa que perde espaço em sua própria casa. Como se estivesse se apagando como um dia se apagou aquela frase pintada no arco agora demolido da Vicentina.

Queixam-se da intromissão de uma outra forma de cantar e fazer samba que não é aquela da Velha Guarda, dos velhos Portelenses, dos velhos terreiros de Oswaldo Cruz e que ainda hoje é cantada no Candongueiro, na Lapa, em São Paulo e nas mais consideradas rodas de samba – repito – de todo o país.

Quando vejo escola repetir comportamentos já derrotados, não consigo mais acreditar. Ir em busca de patrocínios-cascata pendurados na lei Rouanet, ficar para trás na escolha de enredo, insistir em temas insípidos, inodoros e incolores para depois contar a mesma, im-pres-si-o-nan-te-men-te e e-xa-ta-men-te mesma história de outros carnavais, só me resta voltar aos velhos tempos, voltar a ser um Portelense-Velha Guarda e torcer para que o futura me desminta ou para que o pior não aconteça.

Que seja apenas mais um pedaço de nós.

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