O mundo é a nossa passarela

Atualmente é muito mais difícil ser sambista fora do Rio de Janeiro do que parece. Acredito que um pouco mais difícil do que admirar escolas de fora do Rio de Janeiro morando no Rio de Janeiro. Fora a óbvia barreira geográfica o preconceito e a visão ortodoxa são empecilhos bem complicados de superar.

Tenho vivido na pele tal dilema ao planejar minha viagem a São Paulo na sexta e sábado de carnaval. "Mas como você vai para São Paulo no carnaval?! Não gosta mais de samba?" perguntam os amigos. Justamente por ser apaixonado pelas escolas de samba estive aberto a uma das experiências mais legais dentro do universo carnavalesco que é essa de experimentar "escolas de samba" fora da Sapucaí. Foi assim que em 2003 ouvi os sambas de São Paulo pela primeira vez (alias, os sambas de 2003 e 2004 de São Paulo são sensacionais) e passei a assistir aos desfiles do Anhembi pela televisão.

E não parou por ai. Nos anos seguintes conheci as escolas de Cabo Frio e Porto Alegre. Em Cabo Frio uma estrutura muito boa chamada "Morada do Samba" com barracões e pista de desfile bem na entrada da cidade são atrativas para um belo espetáculo apresentado pelas escolas. Já em Porto Alegre as escolas, apesar de desfrutarem de um complexo de barracões exclusivo ainda enfrentam o preconceito de uma parte da sociedade. Independente disso a fibra dos foliões é suficiente para colocar belíssimos "carnavais na rua" e proporcionar um espetáculo que se consolida cada dia mais inclusive revelando talentos e artistas.

Recentemente visitei Manaus e saí deslumbrado com sua monumental Passarela do Samba. Além de uma construção muito bonita é gigantesca digna dos desfiles de escolas de samba considerados pelos manauaras como o 3º melhor do Brasil. Já coloquei na lista e um dia assistirei aos desfiles das arquibancadas circulares de sua dispersão. Ontem assistia a vídeos dos charmosos desfiles de Antonina no Paraná em ruas de paralelepípedo. Impossível não se apaixonar.

E assim a lista cresce com as escolas de samba de Floripa; as de Joaçaba (onde as escolas fazem a curva); de Uruguaiana; de Campos; de São Luís no Maranhão; de Belém e até mesmo em Recife. Aqui a história começa a complicar. Os sambistas de Recife ainda hoje sofrem com a chamada batalha entre "frevo e samba" brilhantemente descrita pelo antropólogo Hugo Menezes Neto (quem quiser ler o artigo dele sobre o assunto é só entrar em www.tecap.uerj.br). As escolas de samba são vistas como uma manifestação "menor", simples cópia do samba carioca. Assim elas perdem espaço inclusive físico e a batalha é árdua a cada
carnaval. Mesmo no interior do Rio de Janeiro as escolas sofrem para mobilizar a atenção das prefeituras em torno do seu desfile. Assim, não bastasse ser esnobada pelo epicentro e muitas vezes modelo de desfile que é o carnaval carioca, as escolas ainda enfrentam o descaso de seus mandatários municipais que não tem a mínima noção do valor cultural que representam as escolas de samba. Nós cariocas, mesmo poderíamos lançar um olhar mais atento sobre esses "outros carnavais" enquanto locais de inventividade e criação interessantes como fonte de inspiração para mudanças.Não apenas como agentes o que os cariocas já fazem em inúmeras cidades pelo país e pelo mundo, mas passivamente, abertos as experiências e aprendendo com os sambistas locais.

Com todo respeito sou do tipo que quer samba a vida inteira. Toda manifestação carnavalesca deve ser estimulada e contam com meu apoio. São as escolas de samba porém o real motivo da minha devoção. Estejam onde estiverem, do Japão à Paso de Los Libres na Argentina.