O mundo gira, Vila! Com Paulo Barros inspirado, escola desfila por futuro melhor

Por Thiago Barros

vila-isabel_desfile_2018_28-8As rodas da vida moveram não só moinhos, como também a história da Vila Isabel. Após um 2017 complicado, com um desfile conturbado e que lhe rendeu apenas o 10º lugar, a Azul e Branco contou com um Paulo Barros inspirado na busca por um futuro melhor. Foi somente a terceira agremiação a passar pelo Sambódromo nesse Grupo Especial de 2018, mas a expectativa já é de que a Vila, após quatro carnavais, possa voltar a desfilar no sábado das Campeãs.

O mundo girou também para Igor Sorriso. Questionado no ano passado, quando a sua voz não teve o impacto esperado, ele respondeu com uma apresentação digna de todo o reconhecimento que sempre teve, desde o sucesso na São Clemente. Fantasiado de Jedi, de Guerra nas Estrelas, o intérprete mostrou que “a Força” está de novo com ele. Igor deu o tom para uma grande apresentação do chão “dos Macacos e do Boulevard”. A comunidade cantou muito o samba, que “mais pra cima”, funcionou muito bem.

vila-isabel_desfile_2018_28-5Mas nem tudo foi perfeito nessa passagem da Vila Isabel pela Sapucaí. A comissão de frente, por exemplo, decepcionou. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, apesar da fantasia de LED de Denadir ser sensacional, também teve problemas em dois módulos. O conjunto alegórico estava muito bacana, com efeitos bem interessantes, porém uma alegoria, a última, ficou um pouco abaixo do resto. Mesmo com estes detalhes contra, os componentes da Vila Isabel podem ter certeza de que fizeram um belo desfile.

Enredo

vila-isabel_desfile_2018_19“De onde viemos? Aonde vamos? Como escolher o futuro que queremos? A Vila Isabel traçou uma trajetória de descobertas e invenções que nos trouxeram até aqui. E que podem nos levar ainda mais longe”, diz a justificativa do enredo “Corra que o futuro vem aí!”, celebrando as conquistas da humanidade e mirando no que ainda pode ser feito. Um tema com a cara de Paulo Barros.

O desfile tinha uma abertura, chamada “E Fez-Se A Luz”, com comissão de frente, casal, tripé, abre-alas e velha guarda. Só depois começam os tradicionais “setores” com alas e alegorias. Eram seis setores: Gira Mundo Sem Parar, O Mundo Na Palma Da Mão, Som E Imagem Em Ação, Aonde Você Quer Ir?, Como Será O Amanhã? e O Futuro A Gente Inventa. Todos muito bem explicados.

vila-isabel_desfile_2018_002A Vila trouxe fantasias de facílima leitura, como as que representavam telefones, rádios, bússolas, dentre outras. Sem falar nas alegorias, que também eram bem fáceis de pegar o significado, com direito a uma mensagem de preservação ao ambiente no fim. Afinal, o setor do nosso futuro continha diversas referências ao tema. Como dizia o samba, “Hoje, pensar em ciência é ter consciência do que está por vir”.

Quando Paulo Barros está inspirado, é difícil de criticar o seu trabalho. Claro, ele não é perfeito, como ninguém é. Em 2015, por exemplo, não deu liga na Mocidade. Porém, o retorno dele para a Vila Isabel foi bem sucedido em termos de concepção e realização.

Fantasias

vila-isabel_desfile_2018_46-11Outra prova da excelência de Paulo Barros e Paulo Menezes foi o conjunto de fantasias da Unidos de Vila Isabel. Havia fantasias bem diferentes, como a Ala 7, Hieróglifos, Ala 12, com o Teatro de Sombras, a Ala 18, Descobrindo Novos Caminhos: a Invenção da Bússola e a Ala 21, No Fundo do Mar.

Todas com fantasias pouco convencionais, mas de facílima leitura. Especialmente a da Bússola, que girava em determinados pontos do samba – assim como várias outras alas, que iremos destacar em Evolução. A Ala 20, o Voo do Balão, foi outra que se destacou, porque as pessoas “se cobriam” e “viravam” balões no meio do desfile.

vila-isabel_desfile_2018_057Outra fantasia bem bacana era a da Ala 13, Sorria Você Está Na Vila, que na frente da roupa tinha uma câmera de fotografia e na parte de trás uma foto de algum componente ou funcionário da escola. Uma justa homenagem a quem construiu o carnaval da Azul e Branco do bairro de Noel.

Só no último setor que duas fantasias não agradaram tanto. Foram compreensíveis pela proposta do enredo, mas o “Bio-Pierrot” e o “Arlequim, O Sabor do Carnaval” fizeram as representações desses dois personagens tão tradicionais de formas “curiosas”. Um com uma fantasia de flor e outro cheio de bananas.

Alegorias e Adereços

vila-isabel_desfile_2018_062Os carros alegóricos de Barros normalmente causam polêmica. Muitos amam e outros nem tanto. Provavelmente, nesse desfile da Vila Isabel, haverá essas duas opiniões. A apresentação, porém, foi muito mais positiva do que negativa. Muito mais “moderno” e nada “tradicional”, ele fez um desfile com sua assinatura.

Começando pelo abre-alas, A Luz do Conhecimento, que aliado a um tripé, que trazia o destaque de Thomas Edison, criador da lâmpada, e ainda Martinho da Vila. O carro, todo preto, tinha diversas coroas, os símbolos da escola, e efeitos simulando o fogo, além de iluminação com LED azul. Visualmente bem impactante.

vila-isabel_desfile_2018_66-1Já o segundo carro-alegórico era Nas Voltas Da Vila, simbolizando a capacidade do homem de seguir em frente e manter a vida em constante movimento, através de suas realizações e do seu trabalho. Ele tinha aqueles “globos da morte”, com acrobatas dando giros ao seu redor.

“As máquinas controlam nossas vidas cada vez mais, e talvez, um dia, robôs com inteligência artificial cheguem a pensar e agir como nós”. Com esse pensamento, a terceira alegoria foi Na Ponta dos Dedos, abordando a tecnologia e sua relação com o homem. Um efeito sensacional de digitação, visto de cima, era o destaque.

vila-isabel_desfile_2018_74-2O quarto carro foi No Ar, Uma Campeã De Audiência, falando do sucesso da TV e da sua importância para a sociedade. Tinha dois telões com imagens inesquecíveis que foram transmitidas na televisão, exibidas com uma linha do tempo. Na lateral, uma homenagem a Chacrinha, com componentes fantasiados representando o apresentador e cantando o samba em microfones.

“Rumo Às Estrelas” era a quinta alegoria, que destacava os experimentos e viagens da história. Afinal, quem inventou a possibilidade de voar, por exemplo, é genial. Com uma série de fantasias de LED e uma esfera rodando, ele impressionava mais pelo efeito do que pela leitura, o que não é um ponto tão positivo.

Mas quem decepcionou neste ponto foi a última alegoria, O Futuro A Gente Inventa, um carro bem simples e que tinha como grande atrativo apenas alguns pequenos carros que davam voltas em torno de um globo. Um recurso parecido com algo usado por Paulo na Tijuca de 2014, que homenageava Ayrton Senna.

vila-isabel_desfile_2018_021Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Raphael Rodrigues e Denadir Garcia, outra novidade na Vila 2018. “O fogo que arde na alma da gente” inflama a Avenida, com o casal vestido de “Fogo, descoberta que ilumina o futuro”. A indumentária dela roubou a cena. Um painel de LED na saia fazia o efeito do “fogo” – uma nova solução para uma ideia que não deu certo na Mocidade em 2015.

Dessa vez, Paulo Barros acertou em cheio. O resultado foi uma reação excelente de todo o público. Entretanto, a coreografia não foi perfeita. A fantasia, em certos momentos, deu a impressão de estar pesada e prejudicar a evolução da porta-bandeira. Além disso, uma falha aconteceu no módulo 2, quando a bandeira tocou levemente em Raphael.

vila-isabel_desfile_2018_20-4No geral, porém, foi uma passagem sólida do casal pela Sapucaí. Raphael mostrou sua já tradicional garra e Denadir bailou mostrando toda a sua experiência. No primeiro e no quarto módulos, não houve qualquer deslize. A coreografia, que era bem tradicional, foi executada corretamente.

Comissão de Frente

Assinada por Alex Neoral, a comissão de frente foi uma ducha de água fria. Primeiro, porque tinha um tripé enorme, que parecia que serviria para algo muito bacana e, na verdade, não era nada demais. Segundo, porque a coreografia girava em torno de só alguns acessórios que até tinham efeitos legais de LED, mas não diziam muita coisa.

vila-isabel_desfile_2018_46-13Os componentes estavam fantasiados de Leonardo da Vinci (com fantasias pretas de muito bom gosto) e faziam passos bem legais de acordo com a letra do samba, mas o grande “X” da comissão eram esferas que tinham hologramas de diversos inventores e grandes criações da humanidade.

Seria um efeito muito legal se fosse um “plus” na comissão. Se uma história fosse bem contada e isso fosse um recurso no meio, ou somente no ápice, mas não. Foi tudo “só” isso. Quando a apresentação acabava, dava aquela impressão de “Ué? Mas já? Não vai ter mais nada?”.

Samba-Enredo

vila-isabel_desfile_2018_085É preciso respeitar (e muito) André Diniz e companhia na Vila. Evandro Bocão, Pinguim, JP, Marcelo Valência, Júlio Alves e Deco Augusto assinaram essa obra, que muita gente criticou antes do carnaval, mas rendeu demais na Sapucaí, com um andamento mais “pra cima”. É como se diz: Carnaval só se ganha na Avenida.

A sinopse do enredo era misteriosa, e o samba parecia não fazer muito sentido, com os versos soltos. Mas vendo o desfile, tudo se encaixou. Especialmente as “voltas da Vila”, porque várias alas e carros tinham o efeito do “mundo gira”. Assistindo ao carnaval que foi apresentado, é fácil de conectá-lo à obra.

vila-isabel_desfile_2018_94-6Harmonia

O que ajudou nesse rendimento também foi a harmonia da escola. Um show do carro de som, comandado por Igor Sorriso, e da comunidade “dos Macacos e do Boulevard”. Uma apresentação de gala do chão da Vila Isabel, que bradou o samba a plenos pulmões. Um outro ponto positivo para Paulo Barros, que fez fantasias que facilitavam isso.

Até mesmo as alas coreografadas e as composições de alegorias cantaram muito bem – com destaque, claro, para a alegoria da TV, onde componentes cantavam em microfones cujo som era reproduzido pelo carro. E as alas de comunidade também merecem elogios pelo que fizeram. Cantaram muito os componentes das alas 8, 17, 20 e 24.

vila-isabel_desfile_2018_94-12Evolução

Nada de buracos, componentes brincando e um ritmo tranquilo para o desfile. A evolução da Vila Isabel não deu motivos para perder pontos. Uma inovação foram as diversas alas da escola que tinham acessórios que giravam, causando efeitos muito legais. Caso da 3, Força das Engrenagens, por exemplo.

Bem diferente do que aconteceu no ano passado. Por isso, o diretor de harmonia da Vila, Marcelinho Emoção, e todos os seus diretores de ala, merecem elogios. O trabalho deles ficou bem evidente no desfile, com todos cantando muito o samba e orientando as alas a se movimentarem de maneira correta.

vila-isabel_desfile_2018_115-6O futuro é logo ali?

Com um dos mais vitoriosos carnavalescos dos últimos anos, a escola espera esquecer os últimos desfiles. Desde que foi campeã, em 2013, a escola nunca mais voltou entre as seis melhores do Grupo Especial. Vale lembrar que Paulo Barros já trabalhou na Vila – e, na ocasião, voltou no Sábado das Campeãs.

Foi em 2009, ao lado de Alex de Souza, hoje no Salgueiro. Com enredo sobre o Theatro Municipal que alcançou a quarta colocação. Desde que começou a carreira no Especial, em 2004, Paulo Barros ficou fora do Top 6 somente em 2008 com a Viradouro e em 2015 com a Mocidade. Em ambos, por só uma posição, terminando em sétimo.