O rumo das baterias

Tenho muito orgulho de ter sido ritmista por muitos anos. Saí em inúmeras baterias de diferentes grupos. Já desfilei em dez escolas num único carnaval – sempre no tamborim.

É nítida a evolução técnica alcançada na última década. Muitos dos diretores passaram a estudar música, procurando uma profissionalização que o carnaval atual exige. Aumentou a exigência por batidas uniformes de caixa, afinação de surdos e equilíbrio entre os instrumentos. Há desenhos para as terceiras  e escolinhas em profusão. As baterias estão melhores, é fato. Em quase todos os aspectos.

A única coisa que tem me preocupado são as paradinhas, ou "bossas". Depois que Mestre Odilon criou as "conversas" entre instrumentos, com cada um deles tocando num momento, a coisa ganhou rumos estranhos. Nada contra a criação (pelo contrário), mas tudo contra a tendência que se criou a partir dela.

A cada dia surge uma paradinha mais "espetaculosa" e menos integrada com a melodia dos sambas. Com todo respeito aos grandes mestres do samba: tem muita bossa confusa, mal pensada e mal executada. É importante ter em mente que a bateria deve acompanhar o samba, servir a ele, sustentá-lo e valorizar a sua musicalidade. A percussão é um acompanhamento, não o prato principal!

A moda hoje é criar as paradinhas em cima dos compassos, para encaixá-la em qualquer samba. Isso é errado. Fica uma tremenda confusão. A bossa deve ser pensada em cima dos desenhos melódicos, das modulações da melodia. Música é harmonia, gente! Tem paradinha que obriga o cantor a acelerar ou frear o andamento do samba. Fica muito feio!

Amigos mestres, diretores e ritmistas: é hora de deixar vaidade de lado e pensar no rumo que estamos trilhando. Pelo bem de sua escola e do carnaval. Como dizia um samba da Imperatriz, "mais vale a simplicidade a buscar mil novidades e criar complicação". Às vezes uma manobra simples dá um efeito muito maior e mais e bonito do que a maioria das coisas que se tem criado.

O que importa, na verdade, é o "ritmo". Graças a Deus quase todas já acertaram esta parte. Deixem-nos ouvir um pouco mais dele!