O samba de luz derrotado?

A apuração das notas é, e sempre foi, o momento mais eletrizante do desfile. Grandes alegrias e muitas decepções.

É como o momento do gol, do pênalti, da grande defesa. No futebol essas emoções estão presentes por todo o ano. Já pensou como seria uma apuração de notas a cada fim de semana?

Por outro lado, na apuração tudo acontece, gols, pênaltis, gols perdidos e feitos, grandes defesas, bolas na trave, tudo isto em uma única fiada de emoções ao mesmo tempo.

Em ambas as paixões temos a presença marcante e fundamental, definidora, dos juízes, ou julgadores, se preferirem. E aí reside a diferença emocional para torcedores e adoradores do jogo e da festa: no futebol o replay tira a dúvida na hora, ou pouco depois. Ali podemos aplacar ou potencializar nossas alegrias e decepções.

Nos desfiles as questões fundamentais, a confirmação de erros apontados ou a confirmação de equívocos ocorridos demora muito tempo. Talvez porque a LIESA prefira assim, longe da emoção pós-carnavalesca ao invés da memória fresca e emocionada do momento. De minha parte acho que o aprimoramento do julgamento ganharia, bem como o carnaval teria mais uma atração, se as justificativas fossem postadas ainda sob os chamados ecos da folia.

No carnaval passado as justificativas vieram a público 40 dias depois de anunciadas as notas. Se for assim também agora saberemos de tudo lá para o final de março. Será a quaresma da quaresma?

Como Portelense vivi este ano a sensação única das últimas décadas. Duas, aliás. Primeiro a sensação de ter esperança de ganhar. Com aquele samba, com a expectativa de melhor gestão de barracão, com aqueles fundamentos todos, quesito a quesito, havia a esperança enorme de que a escola conseguisse no dia “D” aquilo que é o “X” da questão para vencer: a realização de suas possibilidades, ou seja acertar tudo e não errar nada.

E veio o desfile. Com ele a segunda sensação: a certeza da vitória.

A Portela entrou de tal forma retumbante, o samba tão magnificamente puxado, cantado e dançado por todos, o deslumbramento do casal, a bela comissão de frente, e suas cores lindas com alegorias superiores ao esperado quanto à beleza e adequação ao enredo e, principalmente, superando as más noticias do proverbial atraso do barracão.

Era tudo tão bonito, tão mágico, a reação do público tão desejada e ocorrida, a águia tão inesquecível, poucas vezes comparável, Paulinho da Viola e Marisa Monte pedindo passagem e aquele samba tão formidável dando tudo que podia e mais, muito mais além do que podia.

O desfile da Portela era ali a configuração do ponto mais importante e consolidador de toda a preparação do carnaval. A Portela era naqueles momentos a plena realização de suas possibilidades.

A magia chegou ao ápice ao passar a bateria. Passei quatro carnavais na Bahia em outros tempos, quando a “Praça Castro Alves era do Povo, como o céu do avião”, como ensinou Caetano Veloso. Até hoje as batidas diferenciadas do OLODUM e do YLÊ AYÊ não me saem da cabeça, tantos e tantos anos depois. Ao passar a bateria vi ali o enredo representado na levada da bateria. Os julgadores deveriam julgar aquela parte do enredo, as levadas do OLODUM e do YLÊ, cada uma a sua maneira, ambas contadas através da percussão. O quesito enredo julgado pelo quesito bateria. Ou será que não foi assim e tudo fez parte do delírio que eu vivia? Nos ensaios ouvia a levada do Ijexá dos Filhos de Gandhi. Duvidei que no dia do desfile a bateria ousasse tanto.

E foi assim com a bateria que a emoção incontida chegou sem avisar. A certeza absoluta… isso, a certeza absoluta da vitória. Repito: naqueles momentos, depois de tantas decepções de tantos carnavais do passado distante derrotados em apurações, tive a sensação da certeza total da vitória.Pensei então em meu pequenino filho, a certeza de que nascera para ver a Portela campeã.

Mas não durou muito não, talvez o bastante para ver como vai ser o dia em que a vitória vier de verdade.

Na passagem da sexta alegoria, dali até o final, veio a sensação de sempre. O desenvolvimento do enredo, segundo sua concepção, seguia sem perder conteúdo, mas o desfile caiu. Será que faltou barracão? E veio então o 3º Tripé: A casa é sua Dois, Dois. A oferenda aos Erês representada pelo Caruru na Bahia, no Rio aculturado para os doces de 27 de setembro. Só fui saber disso pelo Google, mas, ainda que previsto no enredo, a visualização dos bonequinhos nus, tal como nas mais humildes casas comerciais de Madureira, deu o sinal definitivo que faltava barracão na parte final do desfile, no terço final do desfile.

E veio o resultado. Bateria 9.9; 9.7; 10 e 9.7. Custei a acreditar. Ou melhor… ainda não acredito. Se fosse um só jurado, ou até dois… mas foram três. Vou ter que esperar até o fim de março para tomar conhecimento das razões de os julgadores terem punido tanto uma das baterias mais festejadas da cidade.

De cinco enquetes realizadas por rádios, TV e sites carnavalescos a bateria da Portela foi escolhida a melhor em três delas, fato que atesta sua excelência, apesar de não significar unanimidade. A pontuação oficial, por seus quatro julgadores, além de não considerá-la a melhor, o que é plenamente aceitável, tascou-lhe a caneta, desqualificando-a de tal forma que a bateria Estandarte de Ouro só mereceu ficar na frente da bateria da Renascer que teve a pior pontuação. Três baterias foram igualadas e outras sete lhe foram superiores.

O que mais me intriga, repito, é que esta não foi a avaliação de um ou dois julgadores, e sim de três julgadores; não foi um julgador equivocado, mas um julgamento múltiplo, fato que torna a espera pelas justificativas um exercício de busca suprema de equilíbrio e paciência.

Será que a mistura do samba com as levadas do OLODUM e do ILÊ? Será que o samba de luz foi derrotado pelos julgadores ? Só daqui a 40 dias saberemos.

O quê terá acontecido de tão grave com a Evolução e Harmonia da escola a ponto de ser tão castigada, tão reprovada?

Este o outro e pesado fardo. Enfrentar a longa espera e a análise dos efeitos dos sambas enredo sobre a Evolução e Harmonia das escolas. Quanto vale, afinal, um samba singular, de excelência tal que o distinga dos demais. Até onde vão seus efeitos, sua eficácia além garantir bons momentos num barzinho cantando e tomando cerveja?

O samba da Portela, na visão dos quatro julgadores, não foi capaz de garantir à escola uma boa harmonia (9,9; 9,9 ; 9,8 e 9,9 ); garantiu apenas uma evolução mediana (10 ; 10; 9,9 e 9,8), contrariando a mais vibrante evolução vista na pista por mim e uma harmonia impecável.

Fardo maior será carregar por mais um ano as velhas e useiras justificativas vãs do tipo: “…faltou algo!!!” Pelo menos disso esperamos ser poupados.

Vale, enfim, dizer que mesmo que nos quesitos bateria, evolução e conjunto a escola obtivesse pontuação plena, não alcançaria a Grande Rio e, portanto, permaneceria em sexto lugar. A questão aqui não é esta, não é uma torcida por melhor colocação, é muito mais que isto.

Trata-se aqui de declarar minha perplexidade diante dos resultados, não com o objetivo de desqualificá-los e nem de desqualificar este ou aquele julgador. Trata-se aqui apenas disso: demonstrar minha perplexidade e ansiedade de compreender critérios de julgamentos e de ter que esperar tanto tempo para desvendar tais mistérios.

O foco dado à Portela deve-se ao fato, também, de ser a escola que mais expectativa gerou no pré-carnaval e , portanto, servir como referência para análise das justificativas. E só para não ficar nela, não custa apontar a perplexidade de ver, ainda mais uma vez, a São Clemente e a Ilha serem julgada pelo peso de suas bandeiras, seus desfiles com avaliações, com raras exceções, nivelados por baixo nos mais diversos quesitos.

No mais, o desfile das campeãs repetirá a composição de pelo menos quatro, muitas vezes cinco, das seis que estiveram lá nos últimos anos. Pouca ou muito pouca novidade.

Tudo aquilo que achamos que ia acontecer depois da obra, efeitos no som, alegorias apequenadas e tantas outras variáveis… nada aconteceu, pelo menos que eu tenha notado. Tudo será como antes, exceto a beleza harmônica da nova passarela.

Bem vinda a sacudida no acesso, grupo que vinha perdendo e neste ano corria o risco de perder a graça definitivamente.

Ainda bem que o samba da Vila lavou a alma. Ali os julgadores aprovaram a evolução e a harmonia da escola que, no entanto, continua a perder em bateria e agora também em alegorias, longe que passou da tal EXUBERÂNCIA VOLUMÉTRICA DE MATERIAIS tão a gosto dos julgadores, mesmo em um enredo centrado na África.

Salve a campeã, seu carnavalesco, sua direção, sua comissão de frente e todos o segmentos de chão, de canto e de percussão que há muito se mostram campeões também dos ensaios técnicos.

Salve a Mangueira, sacudindo carnavais prá lá de apolíneos, fazendo-os apropriadamente dionisíacos, imprevisíveis sem deixar de mostrar que, no carnaval, inovação e tradição são aliados e não antagonistas. O casal da escola foi o toque sutil, óbvio-surpreendente, um dos momentos de encantamento deste ano.

A “porta-bandeira-onça-do-bafo” e o “mestre-sala-índio-do-cacique” pontearam o carnaval da ousadia, do desvario, mostrando a velha tradição dos maiores blocos da cidade no auge de suas lutas pela hegemonia do chão da sagrada avenida central da cidade, por onde tanto “sambaram nossos ancestrais”, como nos velhos carnavais que não voltam mais…

Comente: