Onde está o dinheiro?

A revista Época desta semana publicou uma matéria sobre o interesse do Ministério Público na forma como o dinheiro público chega às escolas de samba e como é gasto.

Num passado recente, um representante do Executivo declarou que não iria fazer este tipo de questionamento. Que isto não interessava a ele e que seria a mesma coisa que perguntar aonde um artista gasta seu cachê.

Dentre as responsabilidades dos representantes do Executivo (prefeitos e governadores) estão a elaboração de políticas para saúde, educação, habitação, entre outros fatores pertinentes ao bem-estar, qualidade de vida, gestão da coisa pública e do controle do erário.

No mínimo um compromisso com a ética se espera em suas declarações e, principalmente, nas ações.

O curioso disso é que ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos amantes do carnaval se manteve no mais absoluto silêncio. Gente que gosta de debater notas de quesitos, qualidade de fantasias, de samba, das instalações de barracões e de desfiles, ignorou o assunto.

Mesmo publicado, parece que não pode ser comentado; nem mesmo replicado. Alguns poucos que divulgaram a matéria, tiveram exíguas e vazias respostas. Coisas do tipo: “Ah! Isso sempre foi assim”, “Quem tem que ser investigado é político corrupto”, “Vão cuidar de coisas mais importantes, deixem nosso carnaval”, “As pessoas que estão aí foram as que transformaram o carnaval em sucesso mundial, portanto não podem ser questionadas”.

Ora. Quem ama cuida. Deseja que o objeto desse amor seja um sucesso. E qual é o conceito de sucesso? Fazer certo é um deles. Obter êxito em algo. Ser o melhor, talvez. Querer que o objeto do amor seja saudável.

Nada que não posse ser falado, debatido e que precise contar com a cumplicidade do silêncio pode ser saudável.

Por outro lado, a mesma matéria divulgou dados e respectivas origens da verba destinada ao desfile do Grupo Especial.

Mesmo estes dados foram tratados com o máximo silêncio. Ninguém contestou ou corrigiu.

Supondo-se que seja verdadeiro o montante, é difícil realmente debater, explicar e defender a forma como contabilidades se tornaram inexpugnáveis caixas pretas. Como valores milionários, são considerados, nas discussões sobre carnaval, apenas trocados. Cifras altíssimas são tratadas como insuficientes.

E mesmo assim, escolas do grupo especial passam por dificuldades. Que até podem ser justificáveis mas, ninguém vem a público justificar de forma clara. Os argumentos, quando são postulados, possuem caráter vago.

Como explicar que escolas que durante anos contam com os recursos do grupo especial, sejam rebaixadas e repentinamente se mostrem sem nenhuma estrutura?

Certamente a culpa não é do sambista. O artista do carnaval, comparado ao talento do futebol, tem rendimentos muito menores. Não dá pra dizer que um intérprete, um mestre de bateria, um casal de mestre-sala e porta-bandeira, carnavalescos, coreógrafos, ferreiros, marceneiros, artífices são os responsáveis por dificuldades financeiras de algumas agremiações.

Seria negligência na gestão? Incompetência?

Ainda bem que vivemos num país onde ainda há muito por ser construído. O país ainda não está pronto e pode ser repensado.

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