Os mais espertos do que nós

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Vejam só que as obras do “novo” sambódromo começaram e estarão já prontas para os nossos tão esperados ensaios técnicos. São mais de 18 mil lugares. Caramba! Será que é isto mesmo: 18 000 lugares, é muita coisa, ficará maior que o Maracanã?

É muita coisa e um número conhecido. Nos remete à antiga Geral do Maracanã com seus 30 mil lugares em pé reduzidos a 18 mil cadeiras após a “modernização” ocorrida em 2005 sob os auspícios da FIFA.

E por falar em Geral, fico imaginando… no futuro, como será que um dia ela será lembrada?

Símbolo de desconforto e subdesenvolvimento? Falta de consideração para com torcedores em pé assistindo a jogos ao longo de duas, três horas?

Marca de um pensamento aglutinador voltado para dar acesso às grandes massas de um país ainda em busca do desenvolvimento, com seus torcedores ainda em processo de proletarização?

Confesso que não tenho lá muito interesse em confirmar uma ou outra ou até outras hipóteses. O que me interessa é testemunhar a magia que havia ali, o significado de tanta harmonia entre desiguais (?), inimigos (?)?

Como é, afinal, que devemos chamar aquela pesada animosidade momentânea de uma partida de futebol no Maraca domingo?

Quero voltar ao momento do projeto, pouco antes da Copa de 1950. Ali já se tinha notícias de conflitos com mortes em estádios do Reino Unido como o Villa Park, em Birmingham, em 1946, e até outros anteriores como em Glascow, em 1902, ambos com dezenas de mortes e centenas de feridos.

Que terá levado os projetistas do estádio a ter a coragem de apostar na inexistência de conflitos, fazer profissão de fé de que aqui nesta parte do planeta não haveria pecado. Que flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses jamais se estranhariam, se desrespeitariam, se agrediriam naquele espaço sagrado da Geral, sem qualquer muro, sem qualquer divisão, proteção, sem qualquer cuidado maior.

Como chamar isto? Inconsequência, irresponsabilidade; será que ali eles ficavam junto à prancheta discutindo, procurando prever o que estavam criando?

Pois um pedaço enorme de minha vida ali virou escombro junto coma Geral.

Se Pelé jogou cem vezes no Maracanã eu vi noventa. Dessas noventa, oitenta vi da Geral.

O fascínio de ver o maior de todos os reis, no maior de todos os estádios do mundo, de tão perto.

Perto dele no primeiro tempo, perto dele no segundo tempo. Sempre ali, pelo lado esquerdo do ataque do Santos, ou por trás do gol saboreando cada momento de magia da arte que mais me tocava.

Quantos Fla-Flu, jogos com o Botafogo, Vasco. Olaria, Bonsucesso. Ali um menino ainda sem medo. Toda uma vida ali em baixo sem nunca… mas nunca mesmo, ter visto uma única briga, um único tapa.

Pode haver em toda a história do mundo, em toda a história da vida, um exemplo maior de respeito ao outro? De tolerância, daquilo que se pode referir como democracia naquilo que a palavra pode ter de mais bonito?

E quem era aquele povo que esteve ali até o dia em que a Geral foi riscada do mapa de nossas histórias? Quem era aquela gente que deixava uma lição a cada domingo, uma lição a tanta gente que a via com tanta desconfiança, com tanto preconceito, com tanto desdém, quantos desdentados, mestiços que eram, subempregados que eram…
 
Que alegria era aquela? Que tipos surgiam dali? Que demonstração absoluta de bom humor, de irreverência, de fair-play, marcas maiores que orgulham tanto o povo carioca. Marcas que fazem dele, apesar de tanto, um diferencial entre tantos outros povos do mundo, mesmo sem a-menor-pretensão-de-ser-melhor-que-ninguém.

Olha rapaziada aí desse lado… leva a mal não, mas eu vi. Vivi isto tudo intensamente. O suficiente para sentir novamente, tantos anos depois, o sabor, o gosto de sangue, da mesma facada ao ler o pungente texto do jornalista Pedro Motta Gueiros, no O Globo de 20/04/2011, sob o título “O MARACA NÃO É MAIS NOSSO”.

Sim, jornalista Pedro. Não sei quantos anos você tem. Não sei quantas vezes você esteve lá com seu pai. O quanto de emoção você terá deixado ali. Mesmo assim concordo com você. Quantas de nossas maiores e melhores memórias afetivas estavam ali até outro dia e hoje são parte de escombros em meio a entulhos… de pedras e de interesses tão pouco identificáveis.

E eu fico sempre me perguntando, em relação a tudo e também ao carnaval: O quanto de tanta transformação que nos enfiam goela abaixo, sempre tão bem embrulhadinhas, faz parte da inevitabilidade da própria vida, da urbanização das cidades, do mundo, da sociedade global, atemporal e o quanto fica escondido, justificado e embrulhado por tudo isto e serve apenas aos interesses da tão pouca gente?

O quanto disso tudo é decorrente da marcha dos tempos, da vida? E o quanto é decorrente dos interesses e manobras mais mesquinhas, mais ocultas e culturalmente inconseqüentes?

E faço a comparação com os flanelinhas. Como dói ir ao samba, ou ao estádio, e o flanelinha nos “extorquir” em 10, 20 pratas para garantia de guardar-não arranhar nossos carros? Ah! Se soubéssemos que cada um tira “o quanto” e “o quê pode”?

Se soubéssemos o quanto tiram de nós de maneira mais sutil, mais “digna”, menos “suja”, mais dolorida, roubando de nós nossas próprias vidas, nossa história, afastando de nós a possibilidade de exercermos nossa maneira de ser como povo, como gente, como sambista, como torcedor… como cidadão.

Nós que só queremos levar para casa nossos salários… o produto honesto de nosso trabalho diário, criar e educar nossos filhos, por um mundo melhor.

Nem sempre percebemos aqueles que são mais espertos que nós. Quanto tiram de nós nossas maiores riquezas, essas mesmas que não valem nada… mas nada mesmo!…para eles.

Tanto ou mais dolorido que o texto foi a introdução daquela matéria de O GLOBO, esta assinada por Arnaldo Bloch, dando conta que o Maraca deixou de ser do Rio para ser da FIFA.

Pior, deixou de ser do Brasil para ser da FIFA. Deixou de ser do povo brasileiro para ser da FIFA.

Pior ainda, sugere o Arnaldo Bloch. O Maraca não é mais teu, meu, de nossos avós e de nossos filhos. Ele não vai nunca mais espelhar o que todos nós somos e fomos um dia. Só faltou dizer, mas eu digo agora, que ali vai se instalar um MARACANÃ-KINOPLEX.

Pois no Maracanã, na geral, inventamos a “neutralidade-em-pé-lado a lado”. Onde aqueles projetistas foram buscar a sabedoria de apostar que a maior parede, o maior muro contra a violência seria a própria ausência de muros e paredes?

E agora seus verdadeiros donos, assim identificados por Bloch, a FIFA e seus patrocinadores, seus padrões, seus parceiros comerciais, exigem, impõem, novos, seus e absolutos padrões de qualidade.

Em nome do conforto absoluto de algumas dezenas de milhares de torcedores que irão aos campos de jogo, a cada partida, em cada estado-sede, a FIFA comanda, ordena obras e reformas monumentais, impõe padrões a inúmeros estádios pelos países-sede, nem sempre, ou quase nunca, economicamente preparadas.

O que dizer quando viramos o outro lado da moeda e constamos que, ao mesmo tempo, a mesma FIFA tão bem sabe que este público, presente aos estádios, é absolutamente irrelevante diante de um platéia estimada em bilhões de pessoas assistindo confortavelmente de suas próprias casas nos quatro cantos do planeta.

Para trazer para nossa linguagem, imagino a FIFA chegando em sua casa, entrando pelo quintal frondoso e dizendo que vai ter que derrubar aquele cajueiro de cem anos que teu avô se embalava na rede com o teu pai e depois contigo. E que ia derrubar aquela churrasqueira ali no canto, e os balanços dos teus filhos. Que ia cimentar todo o chão gramado. E que ia usar o teu quintal por um único mês e depois ira embora deixando tudo como agora.

OÉ o legado que te cabe, mermão!

Li o texto e estive lá. Parece mesmo uma boca banguela a espera de um implante. Implante de eu sorriso falso, para apenas um mês de Copa do Mundo.

E a gente aqui reclamando dos flanelinhas…

Como pudemos não invadir ou não ter estado ao lado do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). Sim o IPHAN. Nada é tanto ou mais patrimônio histórico de um povo do que o palco de sua maior e mais inesquecível tragédia.

E se fosse o Cristo, o Corcovado? Ficaríamos tão conformados, tão passivos? Nos contentaríamos com tanta cascata bem vendida? Legado cultural, esportivo, aeroportuário.

O legado – ou será largado? – do Pan está aí para mostrar como e quanto os “mais espertos que nós” podem fazer o que querem de nossa boa fé. Parece uma fórmula perfeita: obras caríssimas, construídas em tempo exíguo, para eventos curtíssimos, sob o cutelo do calendário.

Tudo tão irreversível, tão incontestável…

E um legado que não vem…

Espremido entre a barafunda de questionamentos já me vejo bombardeado por e-mails que até já sei de onde virão: será que dá para ser contra a realização da Copa? Será que temos que “engolir” a Copa do jeito que eles querem? Tem mesmo que ser tudo assim, tudo posto na mesa de forma tão arrogantemente indiscutível, pronto, acabado, incontestável?

Saudosismo? Saudades da geral, complexo de vira-lata? Muito, muitíssimo mais do que isto.

Como imaginar toda aquela obra feita para o Pan, com novas rampas, novos camarotes; como imaginar todas as cadeiras antes “implantadas” sobre a geral, tudo tão caro, tudo tão recente…tudo abaixo…re-orçado, re-faturado…re-recebido, construído para um único mês.

Será que o nosso templo maior, nosso estádio, estará sendo subtraído de um tipo de torcedor para ser entregue a outro? Será que estamos criando torcedores diferentes como aqueles dos dias de carnaval e aqueles outros dos dias dos ensaios técnicos?

Não consigo deixar de pensar: quem são esses “príncipes”, tão poucos, com tanto poder? Será que é isso a democracia? “Olha, tem que ser assim e pronto!”.

Em nome de quê, de quem? Quem os colocou em posição tão democraticamente injustificada a ponto de, em nome de interesses tão discutíveis, mexerem com valores tão fortes, tão presentes, tão caros a toda uma comunidade?

QUEM SÃO ELES? QUEM OS COLOCOU LÁ? DE ONDE VEIO TANTO,TANTO, MAS TANTO PODER? QUAL O NOSSO PAPEL NISSO TUDO?

Ou será que estou fora da realidade e é isto que estamos querendo? Só o tempo dirá?

Mesmo que vençamos, mesmo que vinguemos o velho Maracã de 1950, tais atitudes encontrarão justificativas? Ninguém quer a derrota, nem voltar as costas para a Copa, a resistência é de outra natureza.

Não pensem que vejo nenhuma vantagem efetiva em ser o maior do mundo, também a questão não é esta. Por outro lado, como pode um estádio onde já coube 200 mil pessoas ser transformado em uma arena para 76 500 torcedores, a partir de uma decisão de tão pouca gente.

Será que um dia obedeceremos aos lugares marcados? Ou melhor: quantos de nós procuraremos nossos lugares marcados? Quantos de nós pediremos a alguém para levantar de nossos lugares marcados? Um nível de exigência que nunca tivemos e que perdurará por 30 dias.

A esse respeito, que tal darmos um pulinho na Kinopléxica Alemanha e vermos como estão as coisas por lá, dentro do padrão FIFA de qualidade.

Segundo Motta Gueiros, no Westfallen Stadiun, em Dortmund, nas competições continentais todos os lugares são ocupados segundo a numeração dos ingressos vendidos. Já para o campeonato nacional aqueles assentos numerados são removidos e o estádio vira um caldeirão semelhante ao nosso Maraca dos velhos domingos ensolarados.

O quanto perderemos com o Maraca-Kinoplex? O quanto ganharemos? O estádio certamente será belíssimo, confortabilíssimo, para mim, para você e para quem puder pagar. Será que teremos os preços do Sambódromo?

Será que nosso papel é o de ficarmos como meninos, com água na boca, a espera do pirulito representado pelo cumprimento do prometido legado urbanístico, de transportes, metroviário, aeroportuário? Será que esse tal legado é como o dos estádios da eurocopa portuguesa, a espera de demolição por absoluta impossibilidade de aproveitamento?

Será que esse tal legado é como os patrocínios de nossas escolas de samba? Quanta aposta, quanta cascata, quanta decepção…

O fim da geral, segundo Gueiros, foi o primeiro banimento de nossa singularidade e da soberania de nossa gente. E prossegue, radicaliza: “Não se mexe na Capela Sistina. Se restaura quando necessário. Estar no Maracanã tem, ou tinha, a dimensão do sagrado”.

Isto mesmo, caro jornalista, o Maracanã era sagrado para nós. Se algo tivesse que ser mexido, que fosse mexido: que venha a Copa. Mas com todo o cuidado, respeito e a consideração absolutamente ausente nestas decisões que antecedem a Copa do Mundo.

Quantas almas estarão sendo implodidas ali? Jazem naqueles escombros. Muitas sim, muitas não. A minha está lá.

A minha, a de meus pais e de meus filhos. Um pedaço da alma carioca, um pedaço da alma brasileira. Será que quem fez tais implosões tinha, ou tem, legitimidade para tanto? Será que é um Blatter, um Teixeira que estão mexendo tanto assim conosco?

Ainda bem que vamos ganhar uma Geral, ou seja, mais 18 mil lugares para a festa do novo sambódromo. Será que com o samba poderemos comemorar, ou também encontraremos por perto “gente mais esperta do que nós”?

Semana que vem vamos ver isto?

e-mail para contatos mais longos: lcciata2@hotmail.com

Sugestão para leitura: Texto: O MARACA NÃO É MAIS NOSSO, assinado por Pedro Motta Gueiros, com introdução de Arnaldo Bloch, publicado em O GLOBO da edição de 20/04/2011, na LOGO: a página móvel. Também republicado no BLOG do Juca Kfouri.

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