Paradinhas da bateria

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O ano era 1959. O desfile corria de maneira costumeira na Avenida Rio Branco, onde as escolas se sobrepunham, umas após as outras, sem apresentarem grandes novidades. Com pouco mais de três anos de idade, a Mocidade Independente de Padre Miguel estreava no grupo das grandes escolas do carnaval carioca. Dispostos a mostrarem que vieram para ficar naquele seleto grupo, seus integrantes prepararam algumas novidades para surpreender quem assistia às apresentações. A bateria da Mocidade trazia marcações invertidas com a segunda afinada mais alta do que a primeira. De repente, em frente ao módulo dos jurados, após um único apito de Mestre André, todos os instrumentos pararam de tocar ao mesmo tempo e apenas os "taróis" mantiveram o ritmo para que a escola não atravessasse o canto. O comandante da bateria ficou sambando para os incrédulos jurados e quando voltou a acenar todos os instrumentos retornaram ao mesmo tempo. Estava criada uma das maiores invenções da história do carnaval, a "paradinha da bateria".
 
Passados mais de 50 anos, todas as escolas copiaram a ideia inovadora de André. Porém, hoje em dia os mestres de bateria se preocupam com o futuro que as paradinhas terão. Diferentes maneiras de apresentar intervenções rítmicas foram vistas em mais de meio século de desfiles. Mas a preocupação que impera no mundo do samba é com o suposto exagero que vem sendo mostrado a cada ano. Com bossas cada vez maiores e em grande quantidade pode estar havendo um desequilíbrio harmônico, que ao invés de ajudar, esteja atrapalhando o canto dos componentes das agremiações.
 
De acordo com Mestre Ciça, tido como um dos mais criativos inventor de paradinhas, além de ser um dos melhores mestres de bateria, a tendência é que as paradinhas acabem com o passar do tempo. No último carnaval o diretor de bateria da Grande Rio conseguiu dividir o mundo do samba com uma paradinha fora dos padrões e que durava toda a primeira passagem do samba na avenida.
 
– Infelizmente as paradinhas estão chegando ao fim. A crítica está muito forte em cima da gente. A cada ano que se passa temos problemas de entendimento com o jurado. Quando ela é feita em um lugar que não atrapalha, não vejo o menor problema. Eu sempre trabalhei a paradinha para causar impacto, pois cada um tem sua característica e sabe a maneira que se sente confortável. Todos nós levamos de quatro a cinco bossas para a avenida, mas devemos usamos uma ou duas. Em relação às críticas, eu fiquei muito triste, pois na cabeça da gente sempre está tudo bonito. Achei que a paradinha de 2010 não prejudicaria a escola, mas o jurado tirou ponto justificando que sua execução havia prejudicado o andamento do samba e o canto da escola.
 
Já para Mestre Marcão, diretor do Salgueiro, existe uma tendência de aumento no número de paradinhas. O maestro da "Furiosa" afirmou que a concorrência de novos talentos estimula a criatividade de quem não quer perder o lugar conquistado.
 
– As paradinhas vão aumentar ainda mais. Está vindo muita gente nova agora, como o Nilo Sérgio, o Marcone, o Thiago. E os antigos não querem ficar para trás. Os jovens têm um raciocínio mais rápido, então se tiver confiança nos surdos para não perder o ritmo, as coisas se desenvolvem. Eu, particularmente, não gosto de paradinhas muito longas. Se der para fazer dez  mais curtas, eu prefiro. Se fizer uma paradinha muito longa, eu posso estragar uma harmonia, evolução, canto, conjunto, e isso não vai ser legal. Esse ano vou fazer umas seis ou sete paradinhas, mas nem será uma coisa tão ousada. O que eu quero é animar o público, penso neles, que pagam para estar ali. Não penso em jurado, não quero impressionar jurado. Cada ano é um samba, um desafio. Uma coisa muito acelerada pode estragar uma bossa.

No Manual do Julgador, desenvolvido pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), existe uma recomendação para os jurados de bateria para que concedam notas entre oito e dez, considerando: "a manutenção regular e a sustentação da cadência da bateria em consonância com o samba-enredo; a perfeita conjugação dos sons emitidos pelos vários instrumentos; a criatividade e a versatilidade da bateria". Conhecido como um dos melhores mestres de bateria de todos os tempos, Mestre Odilon comentou sobre as recomendações feitas pela Liga.
 
– Na verdade, a folia depende do ritmo para a dança do samba. A bateria é um pedaço do grupo. Quando estava como mestre, até queria fazer várias bossas e brincar nos versos do samba, mas as coisas estão saindo de controle. Tudo está tomando um caminho diferente. O samba tem sido deixado de lado. O manual da liga pede criatividade e versatilidade, a gente trabalha a criatividade nas paradinhas, mas o que a Liga entende como versatilidade? Colocar a bateria em cima de uma pirâmide? Do jeito que está não tem como fazer as coisas melhorarem. O Wilson das Neves comentou essa semana que na velocidade que estão imprimindo o ritmo, a primeira marcação vai acabar encontrando a segunda. Tudo bem que o samba evoluiu, mas as origens estão sendo deixadas de lado. O samba tem que ter harmonia entre os instrumentos, não tem nada melhor que você brincar com a terceira em cima das outras marcações.
 
Depois de mais de meio século de vida, as paradinhas continuam dividindo os mestres de bateria de quase todas as escolas. Mesmo sendo unanimidade entre quase todos, alguns são impedidos de usar um número excessivo de paradinhas em nome da harmonia de canto e do andamento da escola. O fato é que as paradinhas de bateria estão passando por um período de evolução, de adaptação dentro desse novo andamento de samba imposto pelos moldes do carnaval moderno. A cada ano, a impressão é reforçada de que elas se afirmam, ao mesmo tempo como subjetivas, ficando a critério de cada mestre, e essenciais, sendo um item a mais de diversão para o público.

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