Paradinhas e bossas são colocadas em xeque durante debate sobre bateria

0 Flares 0 Flares ×

De cada dez baterias, pelo menos nove não saem do Sambódromo sem pelo menos realizar uma bossa ou paradinha. Outras arriscam mais e fazem coreografia que levantam o público. As paradinhas viraram elemento quase que fundamental de um desfile de escola de samba. Até a tradicional Mangueira, entrou nessa “bossa”. A bateria da Verde e Rosa fez uma “paradona”, escrevendo um momento importante na história do carnaval este ano. No entanto, na hora do julgamento, os ritmistas da Mangueira receberam nota  9. O tema sobre o julgamento de bateria foi discutido durante o último dia do seminário “Pensando o Carnaval”, neste sábado, na Facha, no bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio. Participaram da mesa os mestres Odilon (Mocidade), Ciça (Grande Rio), Nilo Sérgio (Portela) e Gilmar (Império Serrano).

– Precisa ter uma capacitação dos jurados. Eu achei que a melhor bateria do carnaval 2011 foi da Mangueira. E o jurado colocou na justificativa que ouviu um surdo de segunda. Como ele iria ouvir surdo de segunda. Ele ouviu um surdo mor. A Beija-Flor foi campeã do carnaval, ganhou todas as notas dez e foi campeã passando reta, sem variação, no ano ainda do [mestre] Paulinho. E no mesmo ano, teve bateria que fez paradinha e o jurado escreve que faltou criatividade. Eu adoro o Paulinho, amigo de todo mundo, mas precisa ter um padrão – desabafou Ciça, rei das paradinhas na Sapucaí.
Para mestre Odilon, conhecido como um apreciador de um andamento de bateria mais lento, há uma inversão de valores na qual as paradinhas e bossas ganharão mais importância em detrimento da manutenção do ritmo.

– A função da bateria é manter o ritmo. Você colocar o sambista para dançar. Está acontecendo uma correria que daqui a pouco a passista vai dançar frevo. Mas acho que o jurado deve respeitar as características de cada mestre. Senão, todos vão começar a tocar de maneira igual, o que já está acontecendo. O Ciça sabe que eu não gosto do ritmo da bateria dele. Mas se eu fosse jurado, eu daria onze pra ele em 2010 na estreia do Ciça na Grande Rio – conta Odilon.

Na plateia do auditório da Facha, o diretor musical da Imperatriz e ex-jurado de carnaval, Mario Jorge, apontou outro problema nas baterias atualmente. Para ele, não há uma coerência entre o ritmo imposto nos ensaios de rua e o apresentado na Sapucaí. Ele culpa principalmente a confusão que acontece no primeiro recuo de bateria onde muitas pessoas que não têm conhecimento algum de harmonia e ritmo dão palpite.

– Você ensaia no Sambódromo, na rua. Colocamos um ritmo que o ritmista não vai cansar, o folião vai brincar e o intérprete terá fôlego para cantar durante 82 minutos. Mas na hora de começar o samba fica uma confusão no início. É muita gente pedindo pra acelerar, diminuir o ritmo.  Deve ser respeitado o ritmo dos ensaios na hora do desfile oficial – alerta Mario Jorge.

Com as obras de revitalização do Sambódromo, mestre Gilmar defendeu que o segundo recuo de bateria ficasse mais próximo do meio do desfile e que a bateria ficasse um tempo menor no primeiro box.

– Você fica um tempo no primeiro recuo, escondido. Depois passa pela Sapucaí e se posiciona já próximo do final do desfile. Sou a favor de colocar esse segundo box mais próximo do meio do desfile. Ajudaria a sustentar o desfile – defendeu a idéia Gilmar.

Outra idéia defendida por unanimidade pelos convidados se trata de um novo posicionamento dos módulos de jurados. Até 2011, os jurados que se posicionavam nas cabines instaladas no setor 2 ficavam mais próximos da pista de desfile e teriam mais facilidade para escutar a bateria.

– A reforma do Sambódromo vai fazer com que todos os módulos de jurados fiquem longe da pista de desfile. Hoje, apenas os módulos ficam afastados. Eu acho que eles possuem dificuldade de nos ouvir. Para julgar é bem mais complicado. As cabines no antigo setor 2 eram perfeitas. Estavam bem em cima da bateria . Mas nós não somos consultados em nada. Quem entende não é ouvido –  desabafou Odilon.

No fim, o debate voltou mais uma vez para a padronização dos jurados. De acordo com Nilo Sérgio, alguns julgadores possuem preferências pessoais sobre bossas, convenções e andamento.

– Você não sabe exatamente o que o jurado deseja. Há jurados que preferem uma bossa de uma maneira ou de outra. É necessário uma padronização. O que seria ousadia e criatividade? Criatividade é paradinha? Isso precisa ser esclarecido – disse Nilo Sérgio desde 2006 no comando da bateria da Portela.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×