Paulo Menezes explica como fará para sintetizar na Portela as muitas manifestações da Bahia

Um dos desfiles mais esperados do Carnaval 2012 é, sem dúvida, o da Portela. A grande repercussão de seu samba influenciou até mesmo na outrora conturbada relação da fanática torcida portelense com a diretoria da escola. Entre as esperanças da Azul e Branco para voltar definitivamente ao posto de bicho-papão de títulos, está a figura do talentosos carnavalesco Paulo Menezes, que falou um pouco mais sobre o desenvolvimento do enredo sobre a Bahia.
 
– Vamos falar da Bahia inteira. As festas, não só as religiosas, mas todos os tipos de festividade. Vamos tentar mostrar a maneira que o baiano demonstra a sua alegria e o seu modo de confraternizar – resumiu ele.

Paulo lembrou também a imensa quantidade de festas do estado baiano. Algumas, segundo ele, eram de seu próprio desconhecimento. A maneira encontrada para sintetizar tudo isso foi agrupar as festas por características.
 
– Tem festa de purificação, de lavagem, outras voltadas para a água, festas africanas, católicas, populares, o carnaval. Procurei setorizar tudo para mostrar um trabalho mais amplo possível. Fui à Bahia. O trabalho de pesquisa para mim é fácil. Sou formado em história e é um prazer fazer isso. Não trabalho com pesquisador. É uma opção minha. A pesquisa me dá novas possibilidades, novos caminhos. Se eu encomendar uma pesquisa, de repente me dão algo pasteurizado e eu não teria com descobrir esses caminhos naturais. O produto final do enredo sempre é um pouco diferente do que você planejou inicialmente. Acaba ficando até mais legal – afirmou Paulo Menezes.

A Portela será a segunda escola a desfilar, antes da Imperatriz Leopoldinense, que também trará um tema cheio de baianidade. A agremiação de Ramos falará de Jorge Amado e suas relações com a cultura baiana. A proximidade das duas escolas na ordem de desfile não preocupa Paulo Menezes, que também citou o fato de apontarem mais um enredo da Bahia como algo repetitivo.
 
– Vários enredos já passaram repetidamente pela Avenida e acho que tudo tem o seu momento. A minha Bahia é a minha visão num momento determinado. Se eu for falar de Bahia daqui a dois anos vou ter outra visão. É normal. Nós vamos amadurecendo, evoluindo o pensamento. Cada carnaval é diferente e cada carnavalesco vê o seu tema de uma maneira. Se eu for ficar preocupado com isso, não trabalho. O Nordeste é muito rico. Cultura, folclore e música, tudo isso é muito forte lá. É uma gama de cores muito forte que o carnavalesco consegue trabalhar. Sinceramente, não considero nada repetitivo falar do Nordeste. Que passe cada vez mais enredos assim, valorizando a cultura desse povo. Vejo isso como uma valorização e uma afirmação dessa importante região do Brasil.

Um mérito inegável de Paulo Menezes na preparação deste carnaval é a confecção da sinopse. O texto começou a dar vida ao grande samba, principal trunfo da Portela para este ano. Os próprios compositores da obra apontam a sinopse feita pelo carnavalesco como parte da inspiração. Ele conta no que pensou para a construção do texto.
 
– Foi mais difícil para os compositores do que para mim. Quando fiz a sinopse, tinha em mente que não queria um samba engessado, algo construído em cima de uma sinopse que apontasse o primeiro carro, segundo carro e etc. Queria um samba livre, solto, onde o compositor pudesse trabalhar o seu lado compositor. É óbvio que todo samba-enredo é uma obra encomendada, mas a nossa encomenda deste ano foi a menor possível. Apenas pincelei coisas que passarão dentro do enredo. Lamentavelmente a disputa de samba-enredo ficou muito presa a um formato. Resolvi apostar em algo diferente. Poderia dar muito errado, mas deu muito certo. Isso abre um precedente para os próprios compositores. O samba-enredo não é só dois refrões e duas partes, existem muitas outras coisas que podem compor um samba.

Diz o ditado que em time que está ganhando não se mexe, mas Paulo diz que não sabe se seguirá o mesmo modelo nas próximas sinopses que fizer. Para o carnavalesco, cada momento é diferente. Ele revela também um envolvimento quase espiritual entre este enredo e a Portela
 
– Não sei te responder isso hoje. Não sei o que eu vou fazer de enredo e nem onde eu vou estar. Existem coisas que fogem um pouco da nossa vontade. Quando eu vim para a Portela, senti que ia fazer Bahia. Vim para cá pra fazer Bahia. Acabou que surgiram várias coisas, outros enredos dados como certos, mas eu nunca sentei para desenhar. Esperei porque eu sabia que não faria aquilo e a Bahia acabou vindo, foi um caminho natural. Já tinha muita coisa pensada para esse enredo.

Outra garantia dada por Paulo Menezes é a manutenção do nível requintado de suas fantasias. O carnavalesco vem se notabilizando por usar cada vez mais figurinos ao invés de fantasias com esplendores e muitas penas. Ele lembrou a apresentação das fantasias à comunidade como um dia extremamente positivo neste carnaval portelense. Segundo Paulo, a reação dos componentes da escola foi uma espécie de reconhecimento do trabalho.

Mas, para que a Portela possa brigar pelo título, é necessário capacitar todos os outros nove quesitos e julgamento. Ciente disso, Paulo Menezes fala sobre a responsabilidade da escola de desfilar com o grande samba.
 
– É uma faca de dois gumes. Sempre digo isso aqui: só o samba não ganha carnaval. Não podemos achar que só com um grande samba está tudo lindo e maravilhoso. Temos que brigar para colocar o carnaval na rua. Precisamos mostrar para as pessoas que temos um grande samba e um grande carnaval. Quesitos eu tenho em casa, confio em todos os quesitos que vamos levar para a Sapucaí, mas tenho que dar segurança para os profissionais transformarem a capacidade em nota máxima. Desde que cheguei na Portela tento passar isso para a direção da escola – garantiu ele.

Com o enredo 'E o povo na rua cantando. É feito uma reza, um ritual', a Portela será a segunda a desfilar no domingo de carnaval.

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