Pecado é não brincar o carnaval. Mangueira bate na lata para vitória da parceria de Lequinho, que supera Cartola em conquistas

Por Guilherme Ayupp, Luis Felipe Aragão, Fiel Matola, Dandara Carmo. Fotos: Magaiver Fernandes

mangueira_final2018_-178Samba mais ouvido na fase de disputas no site CARNAVALESCO e obra mais elogiada pela crítica especializada de carnaval, a composição dos compositores Lequinho, Júnior Fionda, Alemão do Cavaco, Gabriel Machado, Wagner Santos, Gabriel Martins e Igor Leal foi aclamada a grande campeã da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval 2018 em final realizada na madrugada deste sábado no Palácio do Samba. O hino irá embalar o desfile sobre o enredo ‘Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco’, de autoria do carnavalesco Leandro Vieira. A parceria levou para casa o troféu D´Samba/CARNAVALESCO como premiação pela vitória.

Lequinho, que já se auto-intitula da Mangueira, merece tal alcunha. O poeta acaba de superar ninguém menos que Cartola na galeria de sambas da velha Manga, com sua décima conquista. Ao seu lado outros gigantes da ala de compositores mangueirense: Junior Fionda e Igor Leal alcançam suas nona conquistas, igualando-se ao próprio Cartola e superando nomes como Carlos Cachaça. Gabriel Martins repete a conquista de 2017 e Alemão do Cavaco, que foi incorporado ao time neste ano, chega também à sua quarta conquista na verde e rosa. A última vez que a Mangueira desfilou com um samba sem ter a autoria ou de Lequinho ou de Alemão do Cavaco foi em 2010.

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– É como se fosse a primeira vez (sensação da décima vitória), todo o ano se renova a emoção e a vontade de vencer é muito compensador. ‘Vem vadiar por opção, derrubar esse portão, resgatar nosso respeito’ vai tocar o coração de todos – garantiu Lequinho.

mangueira_final2018_-141A apresentação da parceria de Lequinho, se fosse comparada a um jogo de futebol, teria sido uma daquelas paridas perfeitas onde defesa e ataque funcionam perfeitamente e o time vence por uma goleada. Tudo funcionou. Tinga um gigante no palco eletrizou a quadra. A quadra toda abraçou a composição e foram 40 minutos alucinantes. Sambistas de outras escolas, como Selminha Sorriso, Lucinha Nobre, e Amanda Poblete, fizeram questão de ir para o meio do povão torcer. Tamanha superioridade foi confirmada com o anúncio oficial que não durou nem 15 minutos desde o fim da apresentação.

Agora tetracampeão na Mangueira, Alemão do Cavaco falou da nova parceria com Lequinho e derreteu-se em elogios ao enredo que a escola vai levar para a avenida ano que vem.

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– Quando fomos adversários sempre tive muito respeito pelo Lequinho, apesar de muita coisa que as pessoas tentavam criar. Comandei o carro de som da escola alguns anos, quando ele era cantor e sempre tivemos uma relação fraternal. Lequinho está na história dessa escola e ter podido compor com ele foi um privilégio muito grande. O nosso samba eu acredito que pegou na veia através da mensagem. A cada apresentação eu sentia as pessoas cantando com prazer os trechos que criticam o preconceito com os sambistas. Samba é coisa séria, com dinheiro ou sem dinheiro – filosofou o poeta.

mangueira_final2018_-143Júnior Fionda foi informado à reportagem do CARNAVALESCO que a partir deste momento está sentado ao lado de Cartola com nove conquistas na verde e rosa. Ele disse que evita olhar as coisas por esse lado.

– Acho que são épocas distintas, o Cartola é um gigante da música brasileira, uma das figuras mais importantes da história da nossa cultura. Fico feliz em saber que tenho essa marca, mas mais ainda em ter o nosso samba abraçado por tanta gente, não apenas mangueirenses, como uma obra que traz uma importante mensagem. Pecado é não brincar o carnaval – definiu.

Igor Leal estava radiante com mais um triunfo.

– Isso aqui é Mangueira, o samba é universal. O samba é Mangueira.

Chiquinho diz que dívidas estão equacionadas e garante Leandro até o fim do mandato

Com o samba escolhido a Mangueira inicia sua preparação eu rumo ao desfile. No mês que vem começam os ensaios na Visconde de Niterói. O presidente Chiquinho da Mangueira explica à reportagem do CARNAVALESCO como será o ensaio da escola em Copacabana.

mangueira_final2018_-168– Vamos iniciar em novembro os ensaios na Visconde. Em Copacabana será um ensaio técnico como fazemos na Visconde de Niterói e no próprio Sambódromo. Já formatamos o pedido aos órgãos competentes – afirma Chiquinho.

Da dívida inicial encontrada por sua administração, Chiquinho conta que toda ela já está equacionada. Sobre o futuro, ele afirma que seu sucessor encontrará uma Mangueira bem mais estruturada que aquela que ele encontrou.

– A Mangueira hoje deve cerca de R$ 5 milhões, mas é um valor 100% equacionado. Nossa administração já quitou desde que assumimos R$ 9 milhões. Não penso nisso de quem deve me suceder. A Mangueira é uma escola democrática. O próximo presidente será quem os associados acharem que deve ser. Uma coisa posso garantir. A escola que o próximo for pegar estará muito melhor do que aquela que eu peguei – avalia.

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Chiquinho tem a mesma sensação que boa parte do mundo do carnaval, a de que a Mangueira só não foi bicampeã do carnaval porque perdeu para si própria. E o presidente é sucinto ao avaliar o que fazer para não repetir os erros de 2017.

– Não errando. Considero o julgamento do carnaval uma das coisas mais corretas desse país. A Mangueira perdeu para ela mesma. O jurado fez o que deveria ter sido feito. Eu mesmo vi o erro na hora e sabia que nós perderíamos o campeonato – reconhece.

mangueira_final2018_-101Para tranquilizar o mangueirense, Chiquinho promete que até o fim de seu mandato, Leandro Vieira será o carnavalesco da escola.

– Meu trato com Leandro é de palavra. Nós não temos um contrato. Ele tem um compromisso comigo e eu com ele. Até o fim do meu mandato ele será da Mangueira. O dia que a escola não puder bancar o seu salário eu banco. E ele recebeu propostas mais atraentes financeiramente – destaca Chiquinho.

Para o presidente de uma das maiores instituições da cultura brasileira os ensaios técnicos estão inviabilizados por enquanto.

– Lamento muito. Mas não pensem que a Liesa faz isso porque quer, mas pela necessidade. A atual política pública da prefeitura inviabiliza a realização dos ensaios técnicos, infelizmente.

Final teve grande baile de carnaval

mangueira_final2018_-94Como prometeu a Mangueira preparou uma autêntica overdose de carnaval em sua quadra na noite de escolha do samba. Oito horas da mais pura folia. Ao invés do tradicional show de pagode que sempre abre os eventos nas quadras, a verde e rosa optou pelo conjunto de exaltação ao samba-enredo, que fez todo mundo viajar nos clássicos do gênero. O público presente entendeu o recado da escola e compareceu à quadra fantasiado, como se no carnaval estivera. A lembrança dos antigos carnavais seguiu com o show do grupo ‘Os Clarins da Mangueira’ que relembrou as inesquecíveis marchinhas.

Evelyn Bastos, se encaminhando para o quinto ano de reinado, como sempre foi um furacão. Vestida com um ousado maiô cheio de decotes e todo dourado arrancou suspiros, aplausos e muitos flashes do público na quadra. Ela contou sobre a produção feita para final e o relacionamento com a comunidade.

– Foi feita pelo Kaleb Aguiar, e ele é incrível. Ele não me fala o que vai fazer, ele simplesmente traz para quadra e eu fico simplesmente apaixonada. Gosto muito de dourado e ele da sempre essa preferência pelo dourado nos meus figurinos. Meu relacionamento com a escola é automático, porque eu sou daqui, moro aqui e isso acaba facilitando muito. Não é uma questão de chegar e conquistar, mas pelas pessoas aceitarem alguém do morro. É ter alguém de raiz, alguém de essência representando o coração da nossa escola – citou a rainha da bateria da Mangueira e do samba no pé.

Mudanças no samba vencedor

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, Leandro Vieira contou que pequenas mudanças devem ocorrer na obra campeã.

mangueira_final2018_-45– Independente do resultado de hoje, nós temos uns pequenos ajustes, adicionaremos uma pitadazinha de crítica, uma brincadeirinha melhor, coisa pouca – disse.

Leandro colocou que se fosse decisão dele, ele diminuiria o carnaval da Mangueira, mas isso está além do seu alcance.

– Eu adoraria reduzir o carnaval da Mangueira, é o momento de se pensar o desfile das escolas de sambas e pensar a pertinência desse modelo que está aí dentro do mundo moderno que temos. Mas, em contrapartida, a redução não é aceita por outras escolas, e aí eu não posso chegar lá só para brincar, a Mangueira quer brigar e para brigar temos que está em pé de igualdade. Eu penso em aumentar a criatividade para apresentar um carnaval competitivo dentro das condições que eu posso fazer – pontuou o carnavalesco.

Perguntado sobre o andamento do barracão em tempos de crise, Leandro enfatizou que até o carnaval a Mangueira estará pronta.

– A Mangueira anda de acordo com as dificuldades, o importante disso tudo é que no desfile a gente vai está pronto. Agora, a gente vai levando, no dia ficará perfeito e bonito.

Bateria segue crescendo ano a ano

mangueira_final2018_-8Mestre Rodrigo Explosão, comandante da bateria da Mangueira, ao lado de Vitor Art, fez um balanço sobre o andamento da bateria em 2017 e o que espera para 2018.

– A bateria foi muito boa em 2017, conseguiu alcançar tudo que nós ensaiamos. Eu vejo uma evolução, cada ano é um ano diferente, a gente sempre quer melhorar. É um trabalho a longo prazo, nada acontece de uma hora para outra. Eu e Victor Art temos três anos na frente da bateria, a tendência esse ano é melhorar ainda mais o conjunto – explicou.

Sobre a quantidade de ritmistas, Rodrigo disse que para 2018 será o mesmo de 2017, ou seja, 260 ritmistas. Para o samba deste ano, o mestre ressaltou que a bateria tem que ter um andamento que proporcione felicidade.

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mangueira_final2018_-112– Eu acho que o samba deve vir com o mesmo andamento de 2017, porque o enredo deste ano também é festivo. Não adianta colocarmos o andamento lá embaixo, senão ele não funciona.

Com a responsabilidade de cantar ao lado de Periclés, Ciganerey disse que o astro veio para somar.

– Ele é um grande profissional, um grande cantor, e eu acho que veio pra somar e vai dar certo na avenida. Eu acredito que a gente vai conseguir fazer uma dupla legal. São
vozes um pouco diferentes, mas eu acho que na hora vai ser show na avenida.

Apenas 10 alas comerciais na Verde e Rosa em 2018

Ex-presidente da Mangueira e com papel importante na diretoria da Verde e Rosa, Alvaro Caetano, o Alvinho, revelou que a escola terá apenas 10 alas comerciais em 2018.

mangueira_final2018_-88– As alas da comunidade serão no total de 1500 componentes, mais bateria, velha guarda, crianças. Na verdade, nós teremos de ala comercial aproximadamente 600, 700 fantasias. Após a gravação do CD, os ensaios passam ser às terças na quadra e domingo na Visconde Niterói – contou.

Alvinho comentou o possível fim dos ensaios técnicos no Sambódromo.

– Eu acho importantíssimo você treinar aonde você vai jogar, local do desfile oficial. As autoridades competentes vão batalhar para conseguir dar essa alegria na Sapucaí ao povo carioca.

Casal quer manter o padrão de qualidade

mangueira_final2018_-80Um dos melhores casais de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus e Squel, estão cientes que a responsabilidade só aumentou para o desfile de 2018.

– Foi muito trabalho para alcançar as notas desse ano. Deu tudo certo e vamos continuar trabalhando para o ano que vem. Não queremos parar nunca, por isso sempre estamos ensaiando – comentou Matheus.

– Temos que trabalhar ainda mais, incansavelmente, como já estamos fazendo. Precisamos disso para conseguir manter essas notas – complementou Squel, que fez mistério sobre a fantasia de 2018: – Ainda não sabemos e se soubesse seria segredo – brincou.

Ao contrário do que Chiquinho anunciou à reportagem do site CARNAVALESCO na véspera da final a votação que definiu o samba campeão não pode ser acompanhada pela imprensa na sala de reuniões da quadra, como foi feito no Carnaval 2016. A Mangueira será a sexta escola a desfilar no domingo de carnaval em 2018 com o enredo ‘Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco’.

Análise das outras apresentações:

mangueira_final2018_-106Parceria de Tantinho: O início da apresentação foi empolgante, com uma excelente condução do intérprete Anderson Paz. A torcida veio em grande número com bandeiras e bolas nas cores da escola. A empolgação dos torcedores não conseguiu contagiar o restante da quadra, que apenas acompanhou a apresentação lendo a letra do samba. Nas duas passadas apenas para o canto da quadra ficou bem nítida a garra da torcida, porém sem a participação do público na quadra e os segmentos. O rendimento no final não seguiu o bom início da obra.

Parceria de Rodrigo Pinho: A apresentação iniciou sua apresentação de forma bastante aguerrida. Comandada por Pixulé a torcida cantou forte a obra na quadra. Alguns integrantes de segmentos apoiaram o samba junto da torcida. A porta-bandeira da Viradouro, Rute Alves, se acabou de cantar e dançar durante a apresentação. A parceria trouxe “estandartes” de papel cartolina com versos do samba. A apresentação entretanto não foi linear, tendo sofrido momentos de queda. O intérprete Emerson Dias integrou o time da parceria no meio da apresentação, a partir dos 20 minutos.