Pela República no Carnaval

Infelizmente não me lembro das circunstâncias. Mas lembro que era ainda adolescente, me trancara no banheiro e, ao me recusar a abrir a porta, ouvi a voz clara e grave de meu pai: “nenhum homem pode ser uma ilha”.

E foi assim que passei toda a vida com esse ensinamento na cabeça. Nunca mais falamos sobre o assunto, mas eu entendera exatamente o que o velho estava querendo dizer.

Passei grande parte desta mesma vida acreditando ser essa uma frase de algum poema de Pablo Neruda, de quem meu pai sabia tudo.

O tema é, no entanto, do poeta inglês John Donne que andou pela terra na passagem dos séculos XVI e VVII.

De um ou de outro, o que importa é a verdade trazida: um homem não pode ser uma ilha.

A ninguém é dado o direito de ficar distante de seu tempo. Sobretudo hoje, em que se sabe de tudo e quando as verdades e lições chegam por todas as mídias e de todo lado.

Nenhuma ilha pode ser uma ilha, muito menos uma (a) ILHA (com letra maiúscula).

Mais ainda quando o assunto é carnaval. Ela que coloriu nossas vidas, que um dia trouxe uma esperança muito mais que verde, mostrando a verdadeira cara do carnaval carioca mesclando o carnaval apolíneo das escolas de samba com o carnaval dionisíaco das ruas da cidade.

Em entrevista recente tanto o prefeito da cidade quanto o presidente da Liesa vieram a público para criticar o comportamento de algumas escolas, resumindo suas observações com o conceito de “falta de ambiente republicano”.

Ora, que atitude pode ser mais anti republicana, mais atrasada, mais antidemocrática pode haver nesses nossos dias do que o afastamento de um jornalista apaixonado por sua escola, pelo fato de ter participado de uma reunião com um candidato a prefeito municipal.

Digo isto porque também fui convidado, também estive lá. Pelo fato de pertencer há mais de trinta anos a um mesmo grupo político, deixei bem clara minha posição de não alinhamento à candidatura, ainda que a candidatura seja de um jovem político cuja trajetória certamente enche de orgulho seus eleitores.

E assim todos ali. Em nenhum momento foi pedido alinhamento à campanha, muito menos compromisso de voto.

Mas, então, o que fazíamos ali, naquelas duas noites.

Como todos sabem um grupo de militantes da imprensa carnavalesca, promoveu um seminário para discutir os rumos do carnaval a partir dos critérios de julgamento. Ora, pode haver algo mais sadio, mais aberto, mais honesto do que isto? Ninguém ali estava ganhando nada, ninguém ofendendo ninguém. Apenas criando um espaço democrático, republicano e aberto para discussão com o único – repito: único! – desejo de contribuir para uma festa da qual tanto gostamos e que é objeto de tanta dedicação “ao longo de todo o ano”.

E quem eram essas pessoas que se dispuseram a participar, a contribuir com tais objetivos, sem ganhar um único centavo, um único cafezinho ou sanduíche de mortadela?

Essas pessoas eram algumas – muitas! – dos maiores protagonistas do carnaval das escolas de samba. Estavam lá carnavalescos de ponta e promissores, compositores campeoníssimos em suas escolas, dirigentes incontestes, mestres de bateria, coreógrafos das comissões de frente, mestres sala e porta bandeiras, todos com suas estantes repletas das mais diversas premiações anuais carnavalescas.

Dali foi tirado um relatório encaminhado à Liesa, sem qualquer repercussão até estes dias. Os temas mais instigantes estavam lá e estão até hoje sem merecer uma discussão aberta. Tudo que se discute hoje fica restrito ao plenário da LIESA, sob o clima reverencial existente entre a Liga e os dirigentes das escolas.

E agora vem um candidato, que poderia e pode (repito: e pode!) ser qualquer outro, ou mesmo um candidato a governador, ou a deputado, a nos convidar para finalmente debater as questões do carnaval.

O clima que presidiu minha e outras participações esteve e está voltado para uma única questão: levar os temas carnavalescos para o debate político eleitoral. Reconhecer que uma festa de tamanha importância, de tamanho “tamanho”, seja levado ainda mais a sério, assumindo definitivamente o seu “tamanho” e importância em meio ao amadorismo que ainda resta depois de tanta evolução.

Tudo que se pretendeu ali era ver tais questões discutidas em horário nobre, já que em nenhuma outra eleição, mesmo em nível estadual ou parlamentar, o carnaval foi objeto de debate e reflexão. Nem tudo ali era unanimidade entre os presentes. Tirou-se ali uma  ideia geral a ser levada a debate. O mais importante erra o debate, trazer o carnaval à luz da sociedade, aos eleitores.

E agora vem essa notícia, esse surto inacreditável de “dinossaurismo”, inacreditavelmente partindo de uma escola tão cheia de luz, de alegria, voltada para o futuro, que deixou para sempre sua marca de anti obscurantismo.

É difícil acreditar. Acordei neste domingo com essa notícia. Torço para que tenha havido um mal entendido. Para ser mais que sincero, torço até para que o motivo seja outro, e explico: qualquer escola tem o direito de escolher ou afastar qualquer profissional que esteja integrando sua equipe. O que nenhuma escola “deve” fazer é agir a partir de uma motivação tão destoante, tão na contramão dos tempos modernos.

Será que a escola foi a única a tomar tal atitude, portando-se a ILHA como uma ilha? Será que outras também vão se distanciar “ambiente republicano” desejado pelo prefeito em declaração ao site CARNAVALESCO em 26 de junho, ratificado pelo presidente da liga no dia.

Ou será que ILHA tomou isto como pretexto e acabou transformando a Liesa em uma pequena lha?

Pelo texto que li, a motivação prende-se ao fato de o jornalista ter assinado o manifesto e, por isto, ter sido considerado “persona non grata” à Liesa. Quer dizer então que, por ter sido convidado e ter participado, também sou “persona non grata”, e que terei que devolver o convite para o sorteio tão e sempre tão gentilmente me cedido?

Será que é isto mesmo. Não acredito que a direção da Liga, por tão pouco, se posicionasse tão “obscurantisticamente”, de forma tão medieval, tão “anti republicanamente”, pondo-se à contramão de si própria e do prefeito que apontaram esse traço como objeto de crítica às escolas.

Com a palavra a ILHA e a LIESA… “responda quem puder” …
 

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