Perfil carnavalesco: talento e criatividade são marcas de Jorge Silveira, carnavalesco da Viradouro e Dragões da Real

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jorge1Dono de um traço singular com um incrível talento para desenho, Jorge Silveira, o responsável pelo carnaval da Dragões da Real e da Unidos do Viradouro em 2017, ano após ano, demonstra seu talento tanto no Anhembi, e agora estreia na Marquês de Sapucaí. O carnavalesco e professor de desenho, de apenas 36 anos, contou sua história ao site CARNAVALESCO.

– Eu observava muito meu pai desenhando, ele sempre trabalhou com escultura e desenho. Quase imediatamente quem trabalha com esculturas, desenha. A maior parte das pessoas é assim. Então, o desenho foi uma forma de comunicação muito comum na minha família. Eu já aprendi a desenhar antes mesmo de começar a escrever. A primeira forma de contato com o mundo em forma de comunicação foi através dos desenhos. Desde muito pequeno tive muito incentivo em casa e acabei procurando alguns cursos ainda criança para começar a aperfeiçoar o traço, e trilhar caminho nisso. Não era a primeira opção da minha vida, mas acabou se tornando com o tempo – confessa.

Além de ser carnavalesco de duas escolas tradicionais, Jorge ainda possui um ateliê em Niterói, onde repassa seu talento para diversos alunos.

jorge2– O ateliê veio antes de tudo. Assim que saí da rotina de curso de desenho fui fazer faculdade. Fiz educação artística na escola de Belas Artes da UFRJ. A partir daí, eu fui aperfeiçoar tecnicamente o trabalho e me tornei professor de desenho, passou a ser meu ofício. Então montei meu ateliê em Niterói, que existe há 15 anos, onde dou aulas de desenho. Meu trabalho passou a ser formar outros artistas. Já faz algumas gerações que tive oportunidade de encaminhar diversos alunos, e muitos deles, hoje, são meus colegas de trabalho. Pessoas que chegaram pra fazer desenho e em seguida foram fazer faculdade, no mesmo caminho que eu e se tornaram professores. Fico muito feliz porque deu um sentido de continuidade, outras pessoas seguiram o legado e tem um monte de gente a partir da vivência lá na escola de desenho. Esse ano dei férias coletivas para meus alunos. A cada ano vinha antecipando porque o carnaval tem hora que consome por completo, e esse ano a Viradouro exigia um grau de atenção diferente de qualquer outro. Já seria uma época de férias, só antecipei para poder mergulhar de cabeça na execução do projeto, porque como todo mundo que vem ao barracão pode ver, eu estou efetivamente fazendo com as próprias mãos. Não tem essa, boto a mão na massa. É um desfile atípico, com barracões espalhados, mas desde que começou, lá em abril, nunca faltei um ensaio na quadra e nenhum na Amaral Peixoto. Estou presente em todos momentos da escola e isso exige muito. Como que eu faço? Durmo pouco e como mal, mas compensa – brinca.

jorge3Apesar de ter convivido dentro de um ambiente carnavalesco, através de seu pai, o artista começou sua trajetória participando de desfiles virtuais de carnaval e em seguida, recebeu uma chance do atual carnavalesco do Porto da Pedra, Jaime Cezário.

– Meu pai era carnavalesco, quando via ele desenhando era relacionado também a carnaval. Acabei naturalizando o desenho de carnaval como algo comum em casa. Convivia com figurino de carnaval e em todos os processos que meu pai trabalhava. Assim que terminei a faculdade decidi que era hora de finalmente arriscar e me lançar profissionalmente. Primeiro participei de carnaval virtual, com algumas experiências. Em 2012 apresentei meu portfólio para alguns carnavalescos e um deles me disse “sim”, que foi o Jaime Cezário, que hoje é meu amigo. Até o carnaval do Palhaço Carequinha eu desenhei sete carnavais pra ele. Substitui o André Machado, que era desenhista dele por muito tempo, e hoje é carnavalesco do Rosas de Ouro em São Paulo.

O ano de 2017 será a estreia de Jorge na Marquês de Sapucaí à frente de um desfile. E de cara, já enfrenta a missão de trazer a Viradouro de volta para o Grupo Especial. Apesar de saber que o trabalho é árduo, ele garante que não está poupando esforços.

– Estou tendo a minha primeira oportunidade sozinho no Rio e isso é bem diferente. Não é em uma escola pequena. A Viradouro se acostumou a ser grande. Costumo dizer para os torcedores que a escola é do Grupo Especial, mas está estacionada na Série A. Ela ficou 2 décadas no grupo principal, sempre disputando títulos. Por natureza, é gigante. Isso envolve toda uma cultura, uma tradição e uma série de simbolismos com significados que tenho obrigação de respeitar, até por ser novo. Se eu não respeitar vou certamente bater de frente, e não quero isso. Quero valorizar os signos da escola e usar em favor dela mesma, é puxado mas é muito legal também. Tem muita alegria e satisfação – afirmou.

Como conselho aos novos profissionais, o desenhista garante que tem de haver persistência, e que não basta só saber desenhar para trabalhar no universo do carnaval.

jorge4– Já recebi no barracão algumas pessoas que estavam fazendo a mesma coisa que eu fiz, e dou a eles a mesma orientação que segui. Carnaval envolve muita preparação, existe uma diferença grande entre ser apaixonado por carnaval, desenhar bem, e entender tecnicamente o processo de construção de um espetáculo. Desenhar apenas não basta, é preciso ir muito além disso. Saber contar uma história, saber se relacionar com pessoas, o tempo todo você vai se relacionar com se humano, quem produz o carnaval são as pessoas. Então, lidar com elas é um fator fundamental. Se você não souber interagir, e não estiver apto par a ouvir críticas, ponderar, saber a hora certa de se posicionar, quando ceder, quando não deve ceder, o resultado final não dá certo. Carnaval envolve jogo de cintura, tem que entender da produção do espetáculo, a estrutura do carro alegórico, de textura de materiais, dimensões de avenida, de materiais que são permeáveis ou não, o efeito que proporcionam na avenida, a ordem de desfile, de como se projeta uma alegoria, como sequencia cromaticamente a escola, como trabalhar a luz achatada da Marquês de Sapucaí que não é agradável a nenhum carnaval, é uma série de responsabilidades que se modelam para que o espetáculo aconteça. Não basta saber desenhar, essa é apenas uma das funções. Muitos profissionais não desenham, não considero inclusive que desenho seja o fator determinante para um profissional do carnaval, mas que ajuda, isso é fato. Sabendo desenhar economizo tempo, amortizo os defeitos e torno mais prático. O mesmo que aplico aos meus alunos quando dou aulas trato um profissional do barracão, é a mesma didática, não muda em nada. É como se tivesse ampliado minha sala de aula para o barracão da Viradouro, um aprendizado constante meu e deles – finaliza.

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