Peruche peca no conjunto de fantasias na homenagem a Martinho da Vila

peruche_desfile2018_-88A Unidos do Peruche, segunda agremiação a passar pelo Anhembi na primeira noite de desfiles do Grupo Especial paulistano pecou no conjunto de fantasias apresentado para homenagear o cantor e compositor Martinho da Vila. Apesar de um bom começo, com figurinos bem acabados e bastante bem feitos, a agremiação não conseguiu manter o bom nível das roupas no restante do desfile. Além disso a harmonia e o samba-enredo não propiciaram uma boa atuação da escola nos quesitos técnicos de pista. O conjunto alegórico foi o destaque da homenagem, que trouxe Martinho na última alegoria saudando o público presente no Anhembi.

Enredo

O enredo em homenagem a Martinho da Vila foi todo desenvolvido através do argumento de que o termo ‘Dikamba’ em quimbundo – língua de origem banta -, signifca amigo, companheiro. A escola abordou em seu desfile um recorte que contemplou influências, inspirações e momentos que definiram a carreira do artista. Heranças musicais desde as origens africanas e ameríndias dos sons tribais que percutem nas veias do povo brasileiro, a apoteose do samba-enredo, gênero que Martinho ajudou a redefinir.

peruche_desfile2018_-90Comissão de Frente

A comissão de frente do desfile do Peruche foi inspirada em uma das obras de Martinho chamada ‘Samba dos Ancestrais’. O grupo representou os espíritos que abriram os caminhos para a evocação ao axé dos ancestrais no Anhembi, que se tornou um terreiro sagrado onde se manifestou a energia vital que deu ao dikamba Martinho o dom da música e a missão de propagar os sons da África. Os dançarinos foram acompanhados de um elemento alegórico que reproduzia visualmente as raízes primitivas e a magia das celebrações em noites de ritual, preparando a aldeia para as celebrações aos deuses. A indumentária do grupo de dançarinos era muito bonita e bem acabada. Em tons de verde e azul os bailarinos também estavam maquiados. Um dos integrantes possuía fantasia em tom mais avermelhado.

Alegorias e Adereços

O abre-alas (‘Dois mundos unidos pela música’) do desfile do Peruche representava o som dos tambores que une os povos tradicionais do continente africano e do Brasil indígena. A segunda alegoria, intitulada ‘Entre louvores e lavouras’ trouxe a terra de origem de Martinho da Vila, a cidade do interior fluminense Duas Barras. Na alegoria foram representadas as principais festas populares do município. É claro que em uma homenagem a Martinho não poderia faltar o bairro quelhe empresta o sobrenome artístico. O terceiro carro do desfile, ‘Irmana Noel, Irmana Isabel’ representou o boêmio bairro carioca de Vila Isabel. A alegoria reproduziu os barracos do morro dos Macacos e Pau da Bandeira, que compõem imagens importantes para a formaçao do bairro. Uma escultura de Noel Rosa veio à frente do carro. A quarta alegoria do desfile peruchiano abordou a relação de Martinho com a língua portuguesa, uma vez que se tornou embaixador da música e literatura lusófonas. O carro trouxe elementos da cultura de Portugal, além de ornamentos e máscaras africanas. A Unidos do Peruche encerrou o desfile com uma louvação às raízes negras do homenageado em sua última alegoria. Martinho da Vila veio à frente do carro acompanhado de amigos e familiares. A primeira alegoria, enorme, em certo momento trazia o nome da escola e depois mudava para dikamba. O conjunto que passou pela avenida valorizou a apresentação do enredo com carros bem acabados e de fácil leitura.

peruche_desfile2018_-68Bateria

A bateria do Peruche desfilou fantasiada de ‘Som africano’. A canção de Martinho da Vila de mesmo nome encontrada no álbum ‘Origens’ de 1973. A fantasia dos ritmistas de mestre Call representava as memórias dos ritmos e da musicalidade africana que, ao misturar estampas, grafismos e referências visuais, traduziu a diversidade cultural de povos que foram trazidos ao Brasil para o trabalho forçado nas lavouras e na mineração. A bateria fez uma paradinha no trecho final da segunda do samba antes de entregar para o refrão principal. A passagem pela avenida foi conservadora.

Fantasias

O conjunto de fantasias passeou por todas as influências artísticas e culturais que construíram a carreira de Martinho da Vila. As baianas vieram representando a canção ‘Batuque na cozinha’, um dos maiores sucessos da carreira do artista. As matriarcas da filial do samba passaram pelo Anhembi vestidas de quituteiras. Os passistas representaram outro grande sucesso do cantor, o samba ‘Renascer das Cinzas’, que se tornou um dos cânticos de exaltação da Vila Isabel na avenida. Por falar na azul e branca tricampeã do carnaval carioca, todos os figurinos do quinto setor relembraram clássicos carnavais da escola, que tiveram sambas de autoria de Martinho. Destaque para a 19ª ala do desfile, ‘Kizomba a festa da raça’, carnaval campeão de 1988, o primeiro da Vila, que apesar de não ter um samba composto por Martinho, foi um enredo de sua autoria.

O conjunto apresentou uniformidade e beleza no início do desfile. A ala que veio logo atrás do abre-alas se destacou no conjunto com um figurino em tons amarelados. As fantasias em sua maioria eram bastante volumosas, dando um efeito interessante na avenida. Entretanto as alas no final do desfile apresentaram sérios problemas. A ala imediatamente após a terceira alegoria destoou do conjunto, sem qualquer tipo de carnavalização da cintura para baixo. Uma outra, que vinha à frente do terceiro casal, cruzou a avenida sem chapéus. Uma terceira, após a quarta alegoria, não tinha qualquer tipo de decoração no corpo dos componentes.

peruche_desfile2018_-14Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal Jefferson Gomes e Thais Paraguassu louvou os ritos primitivos que encenam o movimento, a vitalidade e o vigor das forças da natureza cultuadas pelos povos africanos em celebrações tribais. O casal se destacou pela fantasia em tons palha e penas em azul. Ambos desfilaram com uma bonita maquiagem no resto e apresentaram correção na apresentação.

Samba, Evolução e Harmonia

Embora homenageasse uma das mais importantes figuras da cultura brasileira, o samba do Peruche não cativou o público nas arquibancadas do Anhembi. As alas sentiram a pouca comunicação com a plateia e também não cantaram de maneira satisfatória o samba-enredo, apesar do esforço dos harmonias nas laterais da escola. A evolução não foi regular, com um início de desfile bastante travado. Apenas depois do abre-alas que as alas se soltaram e mesmo com fantasias volumosas passaram pela avenida cantando, dançando e brincando.

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