Peso dois no quesito samba-enredo é a sugestão no seminário Pensando o Carnaval

Numa das mesas mais aguardadas do ‘I Seminário Pensando o Carnaval’, que acontece na Faculdade Hélio Alonso, em Botafogo, quatro poetas do carnaval atual debateram o julgamento de um quesito apontado por muitos o mais importante dos desfiles de escola de samba. André Diniz, Claudio Russo, Dudu Botelho e Jeferson Lima pediram, entre outras coisas, o fim do pré-julgamento das obras levadas pelas agremiações para a Marquês de Sapucaí, além de concordarem com a atribuição de peso 2 para as notas de samba-enredo.

A seleta mesa contou ainda com a mediação de Luis Carlos Magalhães, colunista do site CARNAVALESCO,  e teve como primeiro tema abordado o questionamento do que um samba precisa ter para receber a nota máxima no carnaval atual. Na opinião de Claudio Russo, que anunciou o afastamento momentâneo das disputas de samba na Beija-Flor de Nilópolis, escola onde já venceu três vezes, o julgamento que os sambas recebem nos fóruns de discussão na internet acabam influenciando na avaliação dos julgadores.

– O samba já chega na Sapucaí pré-julgado. Na verdade a obra é julgada ainda na disputa de samba. Tenho certeza que o jurado já vai para a Avenida pré-disposto a dar determinada nota. Muitas vezes quem está julgando não tem nem conhecimento de melodia, mas hoje virou circo, virou Broadway, as pessoas valorizam mais a plástica das escolas de samba. Bateria e samba-enredo infelizmente perderam espaço. É uma pena. Uma sugestão à Liesa é que esses dois quesitos valham o dobro dos outros. Desta forma nós veríamos sambas de mais qualidade. Quem sabe assim os presidentes iriam parar de escolher o samba do primo do cara que ta botando dinheiro na escola. Os compositores viraram malabaristas nas mãos das escolas –  desabafou Russo.

Já André Diniz, que venceu a disputa de samba-enredo na Vila Isabel em 12 oportunidades, disse que um samba precisa de quatro pré-requisitos para receber nota dez atualmente.

– O samba precisa ter sido bem gravado, já que ele é pré-julgado. Tem que ter, é óbvio, qualidade. Ter um bom rendimento na Avenida e ser de uma escola que tenha peso na bandeira. Atualmente não adianta você fazer uma obra de arte na Porto da Pedra que você vai ganhar no máximo um 9,9, mas se fizer qualquer coisa em algumas escolas você nota dez.

Para Dudu Botelho, que concordou quanto ao pré-julgamento das obras com os colegas de composição, é preciso também uma mudança no manual do julgador, opinião muito comum ao longo do seminário.

– O que está escrito no regulamento é pouco. Lá não fala nada da reação que o samba pode despertar nas pessoas, na emoção, esse é um ponto falho, além de outros. Não é possível que, em 25 anos, vários profissionais sejam obrigados a mudar e se readaptar as transformações de cada quesito e o manual de julgador permanecer o mesmo. Isso está errado. O curso de jurados oferecidos pela Liesa é insuficiente. O cara senta durante uma tarde lá e acompanha a leitura do manual. Isso é muito pouco. Acho até que um seminário como este deveria ser realizado pela Liesa de forma oficial. Tem que haver uma mudança – desabafou o poeta salgueirense.

Para fazer coro às reivindicações dos outros presentes, Jeferson Lima, autor do samba da Viradouro de 2011 e da Imperatriz de 2010, leu o trecho de uma entrevista dada por um julgador de samba-enredo há mais de 20 anos participando do corpo de jurados.

– Nesta entrevista o julgador diz que o samba deve descrever tudo o que passa na Avenida. O manual é ultrapassado, mas ele é desconhecido pelos próprios julgadores. Esse jurado está há mais de 20 anos julgando e fala um negócio desses.

Um dos problemas levantados pelo quarteto de compositores é a necessidade cada vez maior de se fazer um samba descritivo. De acordo com eles, esse fenômeno pode estar colaborando para a queda de qualidade dos sambas de uma maneira geral, já que, até os próprios carnavalescos, muitas vezes, não conseguem entender a subjetividade da obra. Para minimizar o problema, um encontro entre os jurados e pelo menos um compositor de cada um dos sambas que serão cantados na Sapucaí foi sugerido por Dudu Botelho. Na hipotética ocasião, os compositores fariam uma defesa do samba-enredo, explicando cada verso da obra.

Já para minimizar os efeitos do pré-julgamento apontado por todos, André Diniz pediu que os jurados visitem as quadras, de modo que conheçam melhor o que as escolas levarão para a Avenida. O atual cenário existente nas disputas de samba também foi criticado pelos quatro compositores. Claudio Russo constatou a vitória do capital nas eliminatórias e, assim como André Diniz e Dudu Botelho, fez duras críticas ao modelo que os compositores são obrigados a seguir, caso queiram ver um samba de sua autoria vencedor do concurso.

Uma sugestão dada às escolas por Jeferson Lima foi disponibilizar o intérprete oficial para, a partir de determinado momento da disputa, gravar os sambas concorrentes e igualar, de certa forma, as condições para todos. O número máximo de dois compositores por parceria também foi outra hipótese levantada pelo compositor da Imperatriz Leopoldinense.

Como já vem acontecendo com grande maioria dos convidados do seminário, a aprovação da nota dez justificada também se fez presente.

– Há uma banalização da nota máxima. O jurado deve sim justificar a nota máxima. A São Clemente, por exemplo, sofre uma perseguição tremenda. O peso da bandeira aparece com força nessas horas – opinou Jeferson Lima.

– Acho que isso deve acontecer sim. E outra coisa. Não concordo com esse negócio de comparação. Porque só se pode dar notas dez para uma ou duas escolas –  pediu Dudu Botelho.

– O jurado acaba batendo em quem convém. Com a nota dez justificada ele vai ter que colocar no papel o porquê daquele samba ter recebido a nota máxima – disse Claudio Russo.

– Acho importante isso, mas mais importante ainda é combater a nota dolosa. Tem jurado que dá 9,2 , 8,8 e dez pra duas escolas. Teve um cara que deu notas até 9,2 e depois dez para duas escolas – afirmou André Diniz.

Outro fator muito comum presente nas justificativas nos últimos anos é o jurado que tira ponto no quesito samba-enredo pelo fato de a escola estar cantando pouco o samba. A mesa foi unânime mais uma vez ao discordar do fato. Jeferson Lima foi além, e citou um caso ocorrido em 2004, quando foi compôs o samba da Imperatriz.

– O jurado me tirou ponto por que, na concepção dele, um refrão não era tão forte quanto o outro. Eu quero que alguém me diga onde está escrito isso. Um samba para ser bom não precisa ter dois refrões, às vezes nem um. É preciso urgentemente definir parâmetros de julgamento mais claros.

O peso dobrado para o julgamento dos sambas-enredo, assunto debatido em algumas mesas redondas carnavalescas também foi algo pedido pelos compositores. André Diniz foi além, e estendeu o pedido para outros quesitos de chão.

– Além do samba-enredo, a evolução, a harmonia e a bateria também merecem receber peso dois no julgamento. Isso irá valorizar coisas que estão sendo esquecidas pelas escolas de samba. É bom também que tenham atenção redobrada com o julgamento do quesito enredo, que nos mostra absurdos a cada ano.

Dudu Botelho concordou com as palavras de André com relação ao quesito samba-enredo e disse que a medida pode recolocar os sambas no lugar de destaque que perderam. Já Jeferson Lima, apesar de concordar, lembrou o perigo que a injustiça no julgamento possa prejudicar ainda mais às escolas. Ele lembrou que o fato mais importante é capacitar os jurados.

Além de atestadamente estar sendo um problema do carnaval contemporâneo, o julgamento, muitas vezes equivocado, pode estar criando certos dogmas perigosos para o futuro do samba-enredo. Dudu, Claudio Russo, Jeferson e André Diniz confirmaram que as justificativas acabam guiando as composições dos anos seguintes.

– O samba que fiz sobre o Theatro Municipal tinha 83 tons diferentes. Ele foi duramente penalizado pelos julgadores. No samba sobre o cabelo já fiz de uma forma diferente. Não tenho dúvida que a nota acaba interferindo no nosso trabalho – disse André Diniz.

– A nota do jurado influencia sim os compositores. As justificativas acabam guiando os futuros sambas. Ninguém quer ver o seu filho levar uma nota baixa – revelou Russo.

Jeferson Lima lembrou as penalizações já destinadas aos sambas que usam palavras com mudança de sílaba tônica e admitiu que isso acaba interferindo no trabalho. Neste momento, Claudio Russo citou o cantor Djavan, que tem muitas músicas com essa característica como justificativa para abolir a tese da sílaba tônica.

No final do encontro, Luis Carlos Magalhães pediu para os poetas opinarem sobre a participação da imprensa online no carnaval carioca e mais precisamente durante as eliminatórias de samba-enredo. Todos reconheceram a importância dos sites especializados e elogiaram o trabalho de divulgação das obras ainda na disputa de samba-enredo, mas pediram mais responsabilidade e controle aos blogueiros e donos de site na hora de escreverem crônicas sobre os sambas e no cadastramento dos participantes dos fóruns de discussão.

Dudu Botelho pediu também, mais respeito da comissão de credenciamento da Sapucaí com os profissionais de imprensa que cobrem o carnaval durante todo o ano. O salgueirense lembrou que, muitas vezes, pessoas que se dedicam à cobertura das escolas de samba ficam relegadas à concentração ou dispersão, enquanto outras, que pouco tem a ver com o espetáculo e acabam atrapalhando o desenvolvimento dos desfiles, desfilam com credenciais de livre acesso durante o carnaval.