Phelipe Lemos e Dandara Ventapane atingem maturidade na Ilha e devolvem excelência no quesito

Por Diogo Cesar Sampaio

Responsáveis pela maior nota da Ilha no quesito, desde o seu retorno ao Grupo Especial em 2010, o casal de mestre-sala e porta bandeira Phelipe Lemos e Dandara Ventapane conquistou a confiança do presidente e da diretoria, além de ter caído nas graças da comunidade insulana. A dupla conversou com site CARNAVALESCO, e relembraram suas trajetórias na carreira e falaram do momento atual na Ilha. Além disso, ambos contaram como foi o primeiro contato com o mundo do samba, e como se iniciou essa paixão pelo carnaval.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-32-58– Meu primeiro contato com escola de samba foi através de meus pais.  Numa escola de samba onde eu morava, mas principalmente no Porto da Pedra por meu pai ser ritmista da escola, na Acadêmicos do Cubango, onde a maioria das pessoas da comunidade onde eu morava, desfilava. E meus pais tinham uma ala na Cubango. Tinha que participar dos ensaios. Eles levavam a mim e o meu irmão, e todas as crianças dos responsáveis que desfilavam. Esse foi o primeiro contato com samba que eu tenho forte na minha mente – declarou Phelipe.

– Minha primeira lembrança é, na verdade, eu desfilando na Herdeiros da Vila, escola mirim da Vila Isabel. Ali eu já comecei a desfilar. Minha mãe tinha ala mirim, ala na escola. E antes disso, eu botava a fantasia da minha mãe da ala, que ela tirava foto para vender, era eu pequenininha no meio de uma fantasia gigante. E eu queria sempre tirar foto! Eu falava: “Mãe, tem que tirar uma foto minha”. E ela: “Mas vai acabar com o filme, garota” – revela Dandara aos risos.

A dupla também relembrou como foi o início de ambos na função de mestre-sala e porta bandeira. Enquanto Phelipe descobriu logo no início sua vocação para dança, Dandara foi se encontrar como porta bandeira depois de muitos anos no samba, e de uma forma inusitada.

– Nessa caminhada com meus pais na Acadêmicos do Cubango, em 1997, eu tive a idade para desfilar em ala mirim. Eu desfilei na ala das crianças. E em 1998 eu passei a ser mestre-sala mirim na Cubango. Tinha uma ala, um projeto de mestre-sala e porta bandeira, e eu entrei nesse projeto e daí eu não parei mais – afirmou Phelipe.

– Bom, comecei desfilando em alas e em carros alegóricos na Vila. Depois fui passista durante 8 anos na Vila Isabel também, e aí comecei a sair também em comissão de frente junto com isso tudo. Eu desfilava em ala, carro, comissão de frente, desfilava em muitas escolas. Aí chegou uma época que eu queria desfilar em algo diferente, comprometer um pouco mais com o carnaval, coisa que eu gosto tanto. E daí eu tive duas porta bandeiras que me incentivaram a começar. E eu pensei: Então tá, vai que dá certo? Primeiro foi a Rute Alves em 2009, que eu era da comissão de frente na época, e a gente ensaiava muito juntas; e depois foi a Lucinha Nobre, em 2012 ou 2011, que essa daí quase que me empurrou para eu virar porta bandeira. Mas foram elas duas que me abriram esse horizonte – relatou Dandara.

‘Saí da Imperatriz porquê não sou acomodado’, ressalta Phelipe Lemos

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-25-45Phelipe Lemos falou durante a conversa sobre como foi sua saída da Imperatriz Leopoldinense, após o carnaval de 2015. Alegando precisar de desafios, o mestre-sala nega qualquer desavença com sua ex-escola. Ele ainda afirmou ser amigo e manter contato até hoje com Rafaela Theodoro, sua parceira de dança por muitos anos.

– A minha saída da Imperatriz Leopoldinense se deu, como posso dizer… Eu não sou acomodado. Eu não tenho o hábito de me sentir confortável num lugar, e só porque estou confortável, eu vou continuar. Eu achei que eu precisava de um estímulo para continuar meu trabalho. Até porque, quando a gente não evolui, a gente é ultrapassado. E eu ainda não estou com o pensamento de ser ultrapassado, meu pensamento é sempre ultrapassar. E eu precisava de um gás novo, de um gás diferente, então eu me desliguei da escola. Lógico que, normalmente, você nunca sai contente, você sai magoado e tal, mas eu tenho uma ótima relação com a escola, com Luizinho, com a família de Seu Luizinho. Hoje eu tenho uma relação muito boa com a Raphaela (Theodoro, porta-bandeira da Imperatriz), até porque nós éramos, tínhamos uma parceria muito boa, e em 2015 ela se desfez. Logicamente, muda um pouco, mas hoje não cabe espaço para ressentimentos ou mágoas, e a gente continua tendo uma amizade bem maneira – assegurou.

‘Minha relação com a Vila hoje é quase nenhuma’, revela Dandara

A porta bandeira Dandara confidenciou se sente ou passou algum tipo de pressão dentro do universo do carnaval por ser neta de Martinho da Vila. Ela revelou também um pouco de como é sua relação com avô, e como o mesmo reagiu a sua decisão de se tornar porta bandeira.

– Eu falo que eu já nasci neta do Martinho da Vila, não sei o que é não ser neta do Martinho da Vila. Eu procuro lidar com isso como se não fosse uma cobrança. Acho que as pessoas tem mais isso em relação a mim, do que eu ficar propriamente pensando nisso. Eu penso sempre em realizar um bom trabalho, em dar o meu melhor, fazer a melhor dança. E ser neta do Martinho da Vila, vou ser sempre, sendo porta bandeira, sendo comissão de frente, sendo cantora, sendo advogada, sei lá. Tem coisas boas e ruins que pesam, e a gente tem que estar sempre atento. Eu procuro estar atenta para que isso não me atrapalhe nunca. A criação lá de casa é sempre de levar onde você trabalha. É uma coisa que para a gente é natural. Vem do convívio nosso de família. Eu sempre fui para o samba, para os ensaios do meu avô, esse meio sempre foi natural para mim. Meu avô ficou surpreso quando fui virar porta bandeira. E, na verdade, só foi saber quando falei que queria tentar ser, e ser terceira porta bandeira da Vila, porque não tinha na época o cargo. Procurei experimentar. Ele deu todo o incentivo – revelou.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-23-39Dandara também falou como lidou com as críticas que recebeu no início de sua carreira como porta bandeira e na saída da Vila Isabel. Além de contar como está hoje sua relação com a escola do bairro de Noel.

– Achei até que poderia ser pior. É claro que sempre tem gente para criticar. Eu fui apostando num trabalho, em fazer um bom carnaval na Ilha, e deu certo. Fiquei um tempo um pouco mais afastada, por achar que as pessoas precisam mais desse tempo do que eu. É necessário para as coisas se acalmarem, entrarem no eixo. O tempo foi mostrando a verdade do trabalho e da dedicação. Isso nunca me incomodou. E também nunca ninguém chegou para mim para falar essas coisas. Tem muito disse me disse. São coisas que não chegam tão próximas da gente. Se não está próximo a mim, não tem o porque eu ficar preocupada. Já a minha relação hoje com a Vila Isabel não é muita, é quase nenhuma. Para falar a verdade, há três meses eu fui a um ensaio porque eu estava na casa dos meus pais. Eu acompanho um pouquinho, porque minha mãe é baiana, meu irmão sai na bateria. É uma coisa que eu tenho notícia, mas que não acompanho de perto. Não frequento a escola. Tenho muitos amigos lá, continuo vendo e estando perto de todo mundo, até porque foi o bairro onde nasci, fui criada lá. Mas com a escola eu não tenho tido tanto contato próximo – concluiu.

O encontro dos dois e a chegada na União da Ilha

Após estrear como primeira porta bandeira da Vila no desfile de 2015, Dandara no carnaval seguinte ganharia um novo parceiro. Após passagem marcante na Imperatriz, Phelipe Lemos retornava a sua escola de origem, a Vila Isabel, agora como primeiro mestre-sala. A dupla recordou como foi esse início juntos.

– Para mim, era tudo novo. Eu vinha do meu primeiro ano como primeira porta bandeira da Vila. Foi muito repentino, já tinha uma certa novidade. E daqui a pouco, vinha um outro mestre-sala, um cara consagrado, que já tinha uma carreira. Mas graças a Deus a gente desde o primeiro momento sempre conversou bastante, esteve bem alinhado de querer criar a nossa dança. Ele não chegou, de forma alguma, impondo o modo dele, o ritmo dele. A gente sempre, desde o primeiro ano, procurou encontrar a nossa forma, e essa foi a nossa aposta que deu mais certo, porque mostrou que esse é o caminho. Em 2016 eu acho que a gente pensou assim: caramba que legal, dá para criar um trabalho bem bacana juntos. E eu acho que 2017 foi essa consagração desse trabalho, de apostar nele. O Phelipe, eu não tenho palavras para falar dele. Ele sempre me deixou muito a vontade para a gente construir essa nossa dança. Fora isso, a amizade que a gente criou junto com isso tudo, que também fortalece muito, a proximidade para esse trabalho dar certo como um todo, eu acho que é o essencial – falou Dandara.

– A minha parceria com a Dandara foi muito boa. Lógico, no início, a gente vai se conhecendo, e eu fui sempre muito sincero com ela. Eu disse tudo o que eu achava em questão de trabalho, em questão pessoal… Eu sou muito ainda, até hoje. Eu digo muito o quê eu penso. Claro que eu sei ouvir também, mas eu gosto de fazer o quê eu penso. Então, como eu fui muito sincero com ela, e ela também foi muito sincera comigo, o casamento deu certo. Eu acho que a receita está na sinceridade um com o outro: não gostei disso, gostei disso, não faça mais isso… Acho que esse é o ponto certo da liga do casamento do mestre-sala com a porta bandeira. E está sendo maravilhoso! A gente está fazendo um trabalho sensacional, que estamos aí indo para o terceiro carnaval juntos. Três anos de avenida, e está sendo maravilhoso contar com ela nessa evolução de vida – disse Phelipe.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-30-06Sobre a chegada do casal na União da Ilha, a dupla diz que se deu através de um convite feito a Phelipe. O mestre-sala revelou ainda que já havia certo namoro com a escola insulana desde os seus tempos de Imperatriz, e que após o carnaval de 2016, resolveu aceitar o convite, levando sua nova parceira Dandara junto com ele.

– O convite do casal foi através do Phelipe. Resolvemos apostar nessa parceria, de continuar junto, de continuar fazendo o trabalho. Com boas condições de se realizar o trabalho, acho que isso é essencial para um casal que busca nota. Ainda não acredito que eu esteja consolidada, mas acho que foi um grande passo esse último carnaval. A recepção na Ilha eu não tenho o que falar assim. A comunidade abraçou a gente de uma forma muito carinhosa, muito receptiva desde o primeiro dia. E assim, eu posso dizer que eu me sinto em casa. Eu vou para a Ilha e falo com todo mundo, a gente conversa, tem amigos. Então, eu fico muito feliz de estar na escola, e de estar criando laços, de não ser aquela coisa fria, até porque eu sou do samba, e a gente que é do samba gosta de ter amigos, conversar e de estar bem. Não é só trabalho, claro. Acho que casou isso tudo muito bem. A gente foi muito bem recepcionados por toda a diretoria, por todos os quesitos: Ito, Ciça, baianas… Não tenho nada a reclamar, só agradecer muito, porque a Ilha foi sensacional nesse ponto – contou Dandara.

– O convite foi maravilhoso. Já existia um namoro da Ilha com o meu trabalho, desde 2013, quando foi a preparação para o carnaval “Brinquedo ou Brincadeira” de 2014. Como eu estava numa evolução muito legal na Imperatriz, eu preferi manter meu trabalho com a parceira que eu estava, com a Rafaela, na Imperatriz. E depois disso, em 2015, foi quando eu saí da Imperatriz, ainda rolou esse namoro. Mas com respeito ao casal que estava na época, que já tinha assinado contrato e tudo mais, eu sou muito categórico na questão de profissionalismo no mundo do carnaval, eu não me ofereço para dançar em escola de ninguém, não gosto de tirar a vaga de ninguém, porém faço o meu trabalho. A Vila Isabel é uma escola muito família, as pessoas, eu tenho um carinho enorme pela Vila Isabel, todo mundo me tratam muito bem, eu trato bem também, porque foi de lá que eu despontei para o mundo. Saí de lá de segundo para primeiro na Imperatriz. A Imperatriz também é uma escola ultra família, tanto que todo mundo lá é um parente do outro, eles sempre me trataram muito bem. Mas a Ilha abraçou a gente de uma forma que eu ainda não tinha sentido. Acho que eu me identifico muito com a Ilha pela irreverência, pela alegria, pela espontaneidade que a escola tem e eu sou isso, a minha essência é essa. O jeito que a Ilha recebeu eu acho que nem tem como descrever assim o que é ser abraçado por essa comunidade – confessou Phelipe.

Na estreia na Ilha no ano passado, o casal conseguiu o feito de fazer os 30 pontos. Além da nota, foram alvo de elogios da crítica especializada. Agora, Phelipe e Dandara tem a missão de manter o nível, e quem sabe alcançar os sonhados 40 pontos. Sobre essa responsabilidade, eles falaram se consideram tal cobrança algo positivo ou negativo.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-24-36– Eu acho que primeiramente é algo muito positivo, porque a gente precisava dessa nota, precisava mostrar que a aposta nesse trabalho deu certo. Então, quando você consegue alcançar o objetivo é completamente positivo. Você vai para o outro ano com aquele patamar, então claro que você quer superar. A gente conseguiu o 30, agora a gente quer o 40. Isso é inevitável, a gente sempre quer dar o nosso melhor. Eu acho que é isso, é cada vez buscar mais, aprimorar nossa dança, trazer a nota para a escola. Isso também é importante para firmar nossa carreira, penso muito nisso. Foi uma profissão que eu escolhi, que eu abracei e eu espero que não seja curta, então eu penso a longo prazo. Eu penso que precisa de uns muitos anos pela frente de notas 40 e mantendo esse nível. A meta é essa – afirmou Dandara.

– Isso é muito positivo! Dá uma confiança a escola num quesito é muito bom. A gente trabalha para isso. A gente quer ser valorizado, não financeiramente apenas, mas valorizado quanto cultura. O pavilhão é o ponto principal de uma escola de samba. Não desmerecendo outros quesitos, mas eu não estou falando de quesito ,mas de bandeira mesmo. É a história de um povo representada em um pavilhão. Isso é muito importante. Não desmerecendo os casais que passaram aqui antes, mas fico muito feliz de mostrar a escola que ela pode confiar em nosso trabalho, que ela pode acreditar porque a gente vai dar o nosso máximo para buscar a nota. E que com isso ela possa, de repente, focar em outros quesitos que ainda não estejam, que eu acredito que não tenha hoje na ilha, quesitos que estejam enfraquecidos. Mas que ela possa focar em outras partes que estejam enfraquecidas, e acreditar e se despreocupar com o casal, que a gente possa estar tranquilo para fazer o melhor e buscar nas notas – alegou Phelipe.

Dança tradiconal x coreografias

Se tem uma questão que divide muitas opiniões no quesito de mestre-sala e porta bandeira, é a inclusão dos passos marcados nas apresentações dos casais. Phelipe e Dandara falaram sobre o tema, e apresentaram opiniões similares.

– Eu busco muito o tradicionalismo. Eu sou um mestre-sala que eu gosto de manter a dança real: riscar, cortejo, enamorar, o beija-flor… Gosto de manter muito isso nas minhas coreografias, nas minhas apresentações para os jurados. Porém, o carnaval, assim como o mundo, ele vai evoluindo muito rápido. E eu gosto também de mesclar. Eu acho que o jurado está ali, e ele não quer só ver o mesmo. Imagina se todo mundo resolver só fazer as mesmas coisas: só riscar, cortejar, beijar a mão da porta bandeira e apresentar a bandeira? Ele vai ter que dar dez para todo mundo, ou zero para todo mundo. Então eu gosto de mesclar, de buscar uma interação da minha dança com uma parte do samba, com a letra. Acho que atuar também faz parte. Não que a gente vai ser uma segunda comissão de frente, coreografada demais. Mas eu acho que mesclar esse tradicionalismo com uma coreografia faz parte – relatou Phelipe.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-25-22– A coreografia que a gente fala assim com os passos mais marcados, eles estão ali para complementar à dança tradicional, tudo que já evoluiu no quesito. Não gosto de vir extremamente coreografada, até porque uma coisa que eu e o Phelipe sempre fizemos foi aproveitar bastante, dançar bastante de improviso, com o quê acontece de momento, não no jurado, para a gente criar liga. A gente sempre tem que ter espaços, e quando a gente fala disso a gente fala da dança tradicional, que não está ali marcadinha, tendo de ser numa estrutura tão rígida e fechada. Mas eu acho que algumas coisas, alguns elementos, eles vem para agregar valor, e eu que sou da dança, formada nisso, acho que é super válido alguns momentos coreografados. Tudo é um bom senso. Que hoje em dia tudo que temos de procurar é esse bom senso, é o equilíbrio entre não parecer uma coisa extremamente coreografada, e nem parecer que está perdido sem ter momentos que mostrem essa sincronia. Porque sincronia faz parte da nota, do que o jurado julga. Também tem que mostrar esses momentos harmônicos – garantiu Dandada.

Relação com os jurados e as justificativas

A relação com o julgamento nunca é fácil. Todo casal, assim como qualquer outro quesito de uma escola de samba, tem de se desdobrar para entender a perda de décimos na apuração. Muitas vezes, a justificativa ao invés de esclarecer, só confunde ainda mais. Sobre essa relação, Dandara falou como encara tudo isso.

– Essa é a parte mais tensa, porque aí já não depende mais da gente. Eu acho que são pessoas que estão ali preparadas para fazer aquilo. Tenho o maior respeito pelo que elas falam. A gente tem que procurar absorver. No calor do momento, é sempre muito difícil. Geralmente é do ser humano não lidar bem com a crítica. Eu acho que tem que ter calma, serenidade, dar um tempo para a poeira abaixar, você ler e reler, procurar entender o quê o jurado quis dizer. Às vezes, cada um fala e escreve de uma forma diferente, então o quê você entendeu de cara não é necessariamente o quê ele quis dizer. Por isso é importante ter calma para interpretar o quê aquela pessoa está querendo te dizer com algumas poucas palavras. A gente tem também que estar aberto a críticas construtivas. Tem que ter também discernimento para entender também, e não querer só seguir aquilo. Você tem que procurar ter a sua marca, o registro do seu trabalho, e que aquilo agrade também. Mas é isso, sempre bom senso – afirmou a porta bandeira.

Sobre a avaliação das fantasias, dentro da nota do quesito de mestre-sala e porta bandeira, Phelipe Lemos revelou achar justo o peso dado no julgamento a indumentária do casal.

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-31-09-Eu acho que é importante sim. A indumentária ela fala muito da dança do mestre-sala e da porta bandeira. Lógico que, vamos dizer, nós estamos em uma disputa. Estamos disputando o carnaval com 13 outras agremiações. Não é justo o presidente que investe pouco em fantasia ganhar 10 em mestre-sala e porta bandeira, mesmo que o casal dance bastante. Ele está investindo em um luxo. Lógico que também não é justo o presidente que investiu muito em fantasia, e o casal que não dançou nada ganhar 10. Acho que tem que haver esse equilíbrio, que é o que acontece no julgamento. É metade dos pontos para fantasia, e metade dos pontos para a dança do casal de mestre-sala e porta bandeira. E eu acho que é justo esse equilíbrio no julgamento. Porque aí você deixa um pouco da responsabilidade para o carnavalesco, que vai desenhar, para o presidente, que vai investir, e aí é tua dança que vai complementar isso. Ou seja, esse investimento deles complementa a nossa dança – disse Phelipe.

A relação do casal com a fantasia

Um dos pontos mais debatidos do carnaval ao longo dos anos é o peso da fantasia de porta bandeira. Dandara relevou não gostar de vir muito pesada, e que a fantasia mais leve permite um bailado melhor para ela.

– Isso depende muito do enredo. Depende muito do que a escola vem apresentando. Eu particularmente gosto de estar o mais leve possível para poder dançar, para poder me mover mais. É o meu estilo. Daí também é uma questão de gosto. Eu acho que a gente tem se adequar ao enredo, sempre buscando junto ao carnavalesco o que ele está fazendo na fantasia, manter a proposta, mas sempre da melhor forma possível. Se a gente for para avenida da melhor forma, eu acho que não fica pesado para ninguém – contou.

O casal também disse dar palpites sim em suas fantasias, mas negaram participar da criação e confecção das mesmas, apesar de acompanharem de perto.

– Dou muitos palpites. Eu acho que quem vai para avenida sou eu, então tem que dizer: eu não gosto do esplendor, cabeça grande não, bota é uma coisa que eu não costumo utilizar e nem pretendo utilizar tão cedo, porque acho que limita um pouco dos movimentos, como sou muito ágil, a bota trava meu calcanhar… Então eu costumo conversar muito com o carnavalesco sobre isso. Dizer para ele: Olha, eu acho que a fantasia deveria ser assim. Que na linha dele de desenvolvimento de enredo ele colocaria ali a nossa pitada de desenvolvimento de fantasia – assegurou o mestre-sala.

– Eu não participo da criação e da confecção não. Geralmente o carnavalesco tem a ideia, e dali a gente discute alguns pontos, alguma coisa que eu ache que possa ser melhor para mim. Mas não chega a ser uma criação conjunta. Vem do carnavalesco, aí depois a gente junto com quem está fazendo a fantasia, acerta os detalhes para que fique bom para todo mundo – relatou Dandara.

Referências e inspirações

whatsapp-image-2018-01-26-at-15-27-48Quando perguntados sobre em quem se inspiraram, quem serviu de exemplo como mestre-sala e porta bandeira, ambos disseram vários nomes e elogiaram alguns colegas que foram referência para eles.

– Eu tenho alguns mestres-salas que são inspiração para mim. Desde moleque eu sempre notei o Claudinho e a Selminha. Que na época eram jovens, assim como hoje sou eu, e tinha um talento monstruoso, tem até hoje. Tenho eles como essa inspiração. Eu foquei, eu falei que: ‘um dia eu quero que seja eu sentado numa mesa e a Globo vindo para cima de mim, como vai para cima deles’. Tem o Chiquinho e a Maria Helena também, que acho que é inspiração para qualquer casal de mestre-sala e porta bandeira que atua hoje. Sorte de quem teve a oportunidade de vê-los dançando, graças a Deus eu tive. Depois de ter trabalhado, de ter levantado a mesma bandeira que eles levantaram, para mim é uma honra muito grande. Mas uma inspiração quanto dança, quanto trajetória, elegância para mim é o mestre-sala Julinho, que hoje é da Viradouro. Ele foi assim, um start de inspiração para mim. Eu fui segundo mestre-sala dele na Vila Isabel, eu acompanhei o trabalho dele na Tradição, essa aproximação com ele, me fez o admirar ainda mais – confidenciou Phelipe.

– Eu não sou muito de ter referências na vida. Eu admiro muito as portas bandeiras, eu acho que todas têm qualidades incríveis, cada uma na sua peculiaridade. Eu quando era criança, eu vi muito dançar um casal da Vila, o Birinha e a Tuca, eu ia para quadra para ver aquele casal dançar e aí depois eu dormia o samba inteiro. E eu nem sabia dessa ligação, e eu esqueci disso por muito tempo. Então eu tenho referências que não são tão claras para mim. Por muitos anos eu vi a Lucinha Nobre dançar, por ser uma pessoa próxima da família, mas isso não era tão claro para mim. Então eu acho que a minha maior referência de postura, de uma série de coisas, é a Lucinha Nobre. Que é uma pessoa que eu acompanhei de perto, por muitas questões e por muitos anos, então eu admiro muito a dança dela, e algumas posturas, e eu acredito que ela fez muito pelo quesito. É a pessoa que eu tenho mais admiração hoje – confessou Dandara.