Politicamente incorreto, carnavalescamente datado?

Muito se fala no politicamente incorreto das marchinhas de carnaval, acusadas de preconceituosas, racistas, homofóbicas… Mas quem nunca se sacudiu com a cabeleira do Zezé, com a Maria Sapatão ou já fez chacota do cabelo da mulata que atire a primeira pedra.

Menos que as deliciosas canções carnavalescas de outrora, que foram cronistas de costumes e hábitos do seu tempo, o samba-enredo algumas vezes teve alguns breves lampejos de tresloucada lucidez quando o assunto era gozar com a própria realidade.

E houve um tempo em que contestar era preciso. Estavam abertas as trincheiras contra os “engalados”, “miscigenações” e “esplendores”, palavras presentes em nove entre dez obras do gênero.

A Era de Ouro dos Enredos

Anos 80. Depois de “vinte anos que alguém comeu” – a ditadura militar que censurava tudo e todos sem um mínimo critério – o país recobrava a consciência depois do traumático período sob o comando dos milicos. Novelas, peças de teatro, imprensa, tudo servia de veículo para botar pra fora a insatisfação após a era da mordaça. Talvez por isso tenhamos vivido nessa época a “Idade do Ouro” dos enredos.

Se não, vejamos. Em 1984, a o narrador-personagem do samba da Mocidade Independente “Mamãe Eu Quero Manaus” assumia com toda a coragem e nenhuma vergonha que o bisavô era traficante e a vovó, o tio, a titia e o papai eram contrabandistas. Difícil de acreditar? O que dizer então da Unidos da Tijuca que sapecou no “Cama, Mesa e Banho de Gato” uma ode à bissexualidade ao fazer todo o Borel cantar “Tem piranha no almoço / tem ‘virado’ no jantar / Pra quem tem fome qualquer prato é caviar”. E tinha o outro, corno manso, cuja patroa “estava com o Ricardão” e a filha “tinha fama de sapatão”. Tudo, claro no maior espírito folião, embebido “no prazer mais prolongado que o banho de gato dá”.

Em 1985, a Caprichosos acendeu uma velinha pro Botafogo pelos seus 16 anos sem título no futebol carioca. Bolo que também seria servido ao Salgueiro, como já me confessou o carnavalesco Luiz Fernando Reis, em “homenagem” aos dez anos da escola sem chegar ao primeiro lugar. Ideia abortada. A estrela ficou solitária nessa…

A São Clemente em 1988, bradou que se “essa moda pega, vai pegar no outro lugar”, num desafio explícito à TV Globo, hoje uma das mandatárias do espetáculo das escolas de samba. Em 1986, a Portela, no seu “Morfeu do Carnaval – A Utopia Brasileira”, chamou o patrão de vacilão. A Vila Isabel mandou todo mundo “pra pura do barril”. Já a Ilha foi menos explícita ao taxar os ricos do Brasil de sonegadores, com os versos “O leão só morde bumbum de pobre / e o rico é que explode / a boca do balão”.

De volta para o futuro…

Mas o que foi que aconteceu? Hoje, parece que vivemos num mundo lindo, onde a maior crítica cabível é o conselho mala de “que temos que usar a consciência” para alguma coisa: parar de poluir o planeta, usar a ciência pro bem e outras dessas modas politicamente corretas. Não gritamos mais, só pedimos com muita educação. Nossos males de agora são outros.

Na era da informação instantânea e da polêmica online, padece quem vai na contramão. Foi o caso da São Clemente que em 2004, no Cordel da Galhofa Nacional de Milton Cunha. A escola foi vítima da lança implacável do politicamente correto. A direção do Congresso não gostou nada de ver a Casa Legislativa ser retratada como latrina em que defecava o Tio Sam. Muito menos o povo de Pelotas que se ofendeu e muito com a ala “Não dou Pelotas para os Viadinhos”. Mais galhofeiro, impossível! Mas as polêmicas serviram de futrica só no pré-carnavalesco. No desfile, as piadas caíram no vazio, já que ninguém dava mais pelotas pra elas.

Ideologia, eu quero uma pra viver

Os governos bancam as escolas, as empresas investem nas agremiações e o povão cai na folia. Tudo assim, lindo, no mundo de Alice. O individualismo venceu, ideologia hoje é palavrão. A ordem é cada por si e salve-se quem puder. Aliás, trecho de um bom samba da São Clemente em 1985, “Quem Casa, Quer Casa”. Pena que não temos mais problemas de habitação no país, todos moram bem e em casas com total infraestrutura. Não fosse isso, quem sabe poderia até rolar uma reedição…

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Voltemos a 2012…

Quem não foi, ou não viu, perdeu. A série de seminários que discutiu o julgamento dos quesitos foi um sucesso. Um manifesto da imprensa carnavalesca em favor de um julgamento com mais critério e transparência. As propostas foram claras e as discussões profundas. Pena que para alguns, a indignação, como diz a música, “é uma mosca sem asas. Não ultrapassa a janela das nossas casas”. Depois não adianta chorar na quarta-feira de cinzas quando suas escolas forem prejudicadas por notas injustas.

Sem Cangalhas

Os mangueirenses já podem comemorar. Na mesa que discutiu o julgamento de alegorias, Cid Carvalho adiantou que a verde-e-rosa virá sem cangalhas para o próximo desfile.

Diversidade nordestina

Nordeste sim. Mas cada um com seu cada um. O que veremos em 2012 serão várias citações à região mais colorida do Brasil no Grupo Especial de 2012. Mas há uma diversidade tão grande de estéticas, histórias e referências que os enredos pouco se confundem. Quem ganha são os compositores, que têm muito material nas mãos. Agora cabe às escolas a escolha da melhor obra. E elas já pipocam por aí.

As Três Irmãs

Está no prelo um delicioso livro de crônicas carnavalescas sobre três escolas que nas últimas décadas desbancaram o reinado das ditas quatro grandes. O jornalista Fábio Fabato ficou encarregado de contar causos da sua verde e branca de Padre Miguel. O pesquisador Alexandre Medeiros dissecou momentos maravilhosos da Rainha de Ramos, Imperatriz Leopoldinense. E o jornalista Alan Diniz delirou em histórias saborosíssimas da azul e branca nilopolitana. O título da obra é “As Três Irmãs”, inspirado na obra do dramaturgo russo Anton Thecov. Agora é torcer para o livro ser publicado o mais rápido possível. O carnaval agradece.

“Herremos”

O amigo da coluna, Mino Mattos, puxou minha orelha e com razão. Na coluna passada, coloquei que as baianas da Tijuca criadas por Paulo Barros que representavam a Atlântida eram de 1995. Claro que, na verdade, eram de 2005. Desculpem a nossa falha. E obrigado pela dica!!