Ponto de Virada

A história é feita de ciclos, períodos de tempo que mantém uma determinada ordem. Todo ciclo tem início, meio e fim. O nosso carnaval vive um momento de transição entre dois ciclos. Há vários fatores que indicam esta mudança. O mais óbvio deles é o novo desenho do nosso estádio, a Passarela do Samba Darcy Ribeiro. Mas não é só isso: a cidade está mudando geográfica e economicamente. Com isso as relações políticas e comerciais também se modificam. O Rio de Janeiro hoje já é bem diferente do que era há dois anos. E vai mudar muito mais em breve.

O Rio vive sua “década de ouro” ao receber dois eventos mundiais gigantescos. O Brasil vê um futuro rico, baseado na extração do pré-sal. Seremos “empurrados” para uma nova era e quem não entender isso será atropelado pelo chamado “Bonde da história”.

Mas o que isso tem a ver com o carnaval? Tudo! O carnaval carioca não tem um projeto a longo prazo. Não há planejamento para daqui a dez, vinte anos. Não há metas estabelecidas. Pensamos apenas no próximo desfile e em vender todos os ingressos. Como o carnaval pretende se relacionar com as mudanças no Rio de Janeiro e como pode tirar proveito delas? Alguém já parou para pensar nisso?

As escolas de samba perdem espaço na mídia porque não estão antenadas com as revoluções por minuto que a sociedade experimenta. Há uma rejeição à internet porque é um espaço democrático onde são postadas críticas. Não estamos acostumados a lidar com elas. É preciso aprender! Por outro lado ninguém reclama se o especial com os sambas de enredo é desprezado pela emissora “oficial” e transmitido numa madrugada de domingo para segunda-feira.

Se os dirigentes das escolas não acordarem e montarem o seu planejamento de mercado outros montarão por eles. Eu não quero ver o carnaval ser dominado por magnatas que não entendem nada da festa e a pensarão apenas como produto. O carnaval chegou a um ponto sem retorno na sua comercialização, mas é preciso muito cuidado na forma como o processo de “profissionalização” será conduzido. Corremos o risco de “congelar” ainda mais a festa e acabar com ela.

A entrada de profissionais de administração e marketing nas escolas e nas ligas é irreversível, mas também é fundamental que eles dialoguem com os verdadeiros representantes do carnaval para que o caminho a ser traçado seja bom para todos.

Algumas escolas já esboçam novidades nas suas organizações. A Porto da Pedra conta com um presidente altamente capacitado na área de gestão. Francisco Marins é gerente do SEBRAE e trouxe uma nova visão para o dia a dia da escola. É uma filosofia descentralizadora em que cada segmento tem suas metas, trabalha de maneira independente, e é cobrado por resultados. Embora eu não concorde com a escolha do enredo – não se pode misturar patrocínio com cultura – há ali uma semente de mudança importante.

Além disso, Francisco está ajudando na regularização dos trabalhadores através da implantação do projeto “Empreendedor Individual” na Cidade do Samba.
Através dele todos os trabalhadores do carnaval saem da informalidade e as escolas passam a ter como prestar contas de todos os seus gastos. Não dá mais
para empurrar sujeira para debaixo do tapete!

Já a São Clemente indica um outro caminho: o do marketing. Através das parcerias com as empresas “Rio de Negócios” e “Aventura Entretenimento” a escola experimenta um projeto inovador. Tem um enredo altamente cultural e ao mesmo tempo está recebendo recursos financeiros de patrocinadores e uma grande exposição na mídia. A agremiação, até então pequena, está ganhando projeção, adeptos e com certeza fará um desfile surpreendente. É o seu melhor momento.

É o caminho que todas devem seguir? Não. Cada agremiação deve encontrar o seu rumo dentro de suas características, todas sob um plano macro que precisa ser pensado em parceria: sambistas e profissionais de mercado. É este equilíbrio que fará nosso carnaval viver um novo ciclo que combine qualidade artística, entretenimento popular e desenvolvimento econômico.

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