Por Dentro da Bateria: a Estação Primeira de Mangueira

 

 

'Todo mundo te conhece ao longe''. E conhece mesmo. O verso do samba de exaltação da Estação Primeira de Mangueira dá o recado da característica mais latente da bateria ''Tem que respeitar meu tamborim''. Única a não usar surdos de terceira e segunda, a marcação de primeira forte e o rufar das caixas são facilmente perceptíveis a metros de distância. A série ''Por Dentro do Ritmo'' mergulha na bateria mangueirense.

 

Tem que respeitar meu tamborim

 

Clique aqui e veja o vídeo: Bossa da primeira parte do samba

 

Em tempos de intercâmbio de ritmistas e aproximação das características das baterias, a ala mangueirense mantém um contingente próprio e está longe de ver sua tradição quebrada. O responsável por esse padrão de trabalho é o mestre Ailton Nunes, que comanda a bateria da escola desde o Carnaval 2011. À época, Ailton assumiu a bateria faltando poucos dias para o carnaval, venceu a desconfiança e desde então vem recolocando a ala entre as melhores do carnaval carioca.

 

Clique aqui e veja o vídeo: Bossa do final do samba

 

O ano de 2014, porém, é muito importante nesse processo para Ailton. Promovido a mestre de bateria pelo ex-presidente da escola, Ivo Meirelles, ele vai provando que pode sim manter o padrão ousado dos últimos anos. Desta vez, com mais autonomia.

 

Clique aqui e veja o vídeo: Bossa do refrão do meio

 

– Ficava bem tranquilo quando ouvia alguém dizer que a bateria da Mangueira não conseguiria manter o padrão ou até mesmo regredir. Acredito no trabalho da nossa equipe aqui. A nossa proposta é mais uma vez surpreender. Os comentários de quem está de fora não me atingem muito e tenho certeza que na hora certa as coisas viriam a tona para acabar com essa mistificação – explicou ele, que levará quatro bossas para o desfile e alguma nuances interessantes.

 

Clique aqui e veja o vídeo: Nuance na primeira parte do samba

 

O maior exemplo de sua capacidade é o fato de ter sido mantido na função, mesmo com uma mudança completa de filosofia da antiga para a atual gestão.

 

– O presidente Chiquinho (da Mangueira) nos dá total liberdade para trabalhar. Agora temos tempo e cronograma para cumprir. Nosso trabalho visa aproveitar o que o enredo e a melodia do samba nos oferecem para surpreender – acrescenta o mestre de bateria da Mangueira, que deu uma prova do que pode acontecer no ótimo ensaio realizado no último domingo.

 

Surdos

 

Todas as baterias, exceto a da Mangueira, possuem surdos de primeira, segunda e terceira. O surdo de primeira, tocado no tempo fraco da música, tem na grande maioria das escolas uma afinação grave. O surdo de segunda, tocado no tempo forte da música, tem na grande maioria das escolas uma afinação média. Já os surdos de terceiras, tocam entre os outros dois citados – contratempo – e realizam ''cortes'' em determinadas partes do samba, possuem na grande maioria das vezes uma afinação mais aguda.

 

Na Estação Primeira, há o surdo de primeira, afinado de forma bem grave, e o surdo-mór, um surdo com diâmetro bem menor que os surdos de terceira convencionais, mas que emite um som com efeito e funcionalidade bem parecidos com o citado. Eles têm a função de ''cortar'', realizam contratempos nos refrãos e em determinadas partes do samba, tudo para dar o balanço conhecido da bateria mangueirense.

 

– Essa é uma concepção que conhecemos desde criança aqui na Mangueira. O nosso surdo de primeira sobressai bem e trabalhamos com o surdo-mór com muita atenção. Até a quantidade que eles virão no desfile muda de acordo com aquilo que queremos da bateria. O surdo-mór é o nosso surdo de corte. Tem liberdade para fazer isso no refrão e em determinadas partes da melodia do samba de acordo com a nossa orientação. Temos vários cortes diferentes e eles vão variando de acordo com o samba – explica Ailton.

 

Caixas

 

Com um som um pouco mais grave que na grande maioria das outras baterias, as caixas mangueirenses possuem batida única e formam outro traço marcante de sua característica. Muitas outras baterias conseguem executar a batida mangueirense de forma correta quando um samba da Verde e Rosa é tocado na quadra, mas o peso, a sonoridade, são uma importante diferença. Primeiro pela tonalidade já citada e segundo pela acentuação de algumas notas feitas no ''ataque'' ao instrumento.

 

* Vídeo: a batida de caixa da Mangueira

 

Um exemplo claro disso pôde ser percebido no Carnaval 2013, quando a Verde e Rosa se apresentou com duas baterias. Uma com ritmistas oriundos da escola. E outra, em sua grande maioria, formada por ritmistas de outras escolas. A sonoridade característica da batida de caixa da primeira, não era acompanhada de forma perfeita pela segunda.

 

Mestre Ailton concorda com o cenário e conta que o número de caixas na segunda bateria até foi aumentado para aproximar a sonoridade de uma ala com a outra.

 

– Quando nascemos, temos um ciclo. Primeiro a gente aprende a movimentar os membros, depois engatinha, anda e corre. Nessa questão, isso não é diferente. Desde pequenos conhecemos essa batida. Temos a sorte de estarmos dentro de uma comunidade que respira a escola. É muito comum termos ritmistas oriundos dos projetos sociais e da Mangueira do Amanhã. Com a convivência dentro da bateria, eles têm contato com os ritmistas mais experientes e vão evoluindo. É um processo natural. Isso faz com que a bateria tenha uma pegada diferenciada e bem coesa nesse instrumento.

 

Tamborins

 

O nome já diz: ''tem que respeitar meu tamborim''. O apelido foi resgatado pela atual administração e traduz um instrumento que possui um tratamento peculiar dentro da bateria da Mangueira. Muitos ritmistas do naipe, utilizam baquetas com apenas uma palheta, o que produz um som mais seco na ala. Outra diferença é a colocação da ala dentro da bateria, mais uma vez no ''corredor''.

 

Vídeo: desenho do tamborim para 2014

 

– O tamborim no corredor nos dá um equilíbrio melhor no que diz respeito a propagação dos sons, a mixagem da bateria. Quando assumi a bateria, isso já existia e me chamou a atenção, gostei bastante e resolvi manter. Você consegue ouvir todos os instrumentos de maneira satisfatória. Sobre a criação do desenho, temos um conjunto de diretores que pensam e dão opinião, assim como nas bossas, que começamos a fazer logo após a escolha do samba.

 

Divisão dos naipes

 

Surdos de 01ª – 24
Surdos-Mór – 26
Caixas – 84
Repiques – 40
Tamborins – 34
Timbales – 14
Ganzás(Chocalhos) – 20
Cuícas – 20
Agogôs – 12

 

Escalação

 

Mestre de Bateria: mestre Ailton Nunes
Diretoria: Vitor da Candelária, Fabio Nunes, Rodrigo, Hudson, Nielsen(Tamborim), Orelha, Nivaldo e Zé Ganso

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