Por Dentro do Ritmo: a bateria Pura Cadência da Unidos da Tijuca

 

 

A palavra cadência na teoria musical não está diretamente ligada a algo feito com extrema qualidade, mas no dialeto das baterias o significado é exatamente esse. Muitos acham que cadência, em uma bateria, quer dizer que o andamento está ''mais atrás'', mais confortável ou ''cadenciado''. Mas não, cadência em uma bateria remete mais a ideia de um ala com perfeito entendimento entre os instrumentos e correção nos arranjos feitos para o samba enredo. Todos esses predicados a Pura Cadência tem. É a vez da bateria da Unidos da Tijuca no ''Por Dentro do Ritmo''.

Pura Cadência

Entre ritmista, diretor e mestre de bateria, Luiz Calixto Monteiro, o mestre Casagrande está na Unidos da Tijuca há mais de 30 anos. Ele estreou no comando da Pura Cadência em 2008 e desde então vem mantendo a ala entre as que então no patamar mais alto do carnaval carioca. De estilo disciplinador, ''Casão'' ressalta que o mais importante é pensar no desfile como um todo. Na opinião dele, não se deve pensar somente na bateria.

* VEJA AQUI; VÍDEO DO DESENHO DO TAMBORIM PARA 2014

– A nossa principal proposta é aquela de todos os anos, sustentar bem o nosso desfile. Temos uma bateria clássica, voltada para que a escola consiga fazer o seu melhor em todos os quesitos. Não penso em bossa ou coreografia. Penso em ter um andamento bom e uma bateria proporcione o canto do componente. Quando as coisas estão funcionando, o resto é consequência.

* VEJA AQUI: VÍDEOS DAS BOSSAS DA BATERIA

E para manter o andamento e a pulsação, a bateria da Unidos da Tijuca tem uma característica que hoje já é bem perceptível em outras agremiações, mas que há bem pouco tempo era realidade em algumas alas: a educação musical dos marcadores. Desde o final da década de 90, a Pura Cadência tem em seus marcadores a característica de ''apenas'' ''tirar som'' do surdo. Nada de pancada!

– Eu acho que isso é primordial em uma bateria. Aqui a gente recebe gente de outras escolas para desfilar na marcação, mas quando chegam têm que se enquadrar no nosso padrão. Essa é uma forma de manter a pulsação da bateria e doutrinar o ritmista – explica Casagrande, acrescentando também o cuidado que é necessário com a afinação do instrumento.

* VEJA AQUI: VÍDEO DA BATIDA DE CAIXA E TERCEIRAS LIVRES

– Muitos falaram quando o antigo mestre (mestre Celinho) saiu que a afinação da Tijuca ia piorar e você vê que isso não aconteceu. Na minha opinião até melhorou. Aqui tenho Cosme e o Jorginho (diretores) que são as minhas pessoas de confiança para fazer isso. A mão deles é a minha mão. Algumas baterias cometem o erro de deixar várias pessoas mexerem nisso, mas eu prefiro confiar a poucas pessoas, mas capacitadas para isso. O segredo é você ter também um bom instrumento. Um ótimo jogador não consegue jogar direito com uma chuteira ruim, e com o ritmista é a mesma coisa. Então tenho esse cuidado. Aqui na Tijuca, quando vamos comprar os materiais dos instrumentos sempre peço uma prova antes.

Caixas

Uníssonas! Uma das características mais marcantes da Pura Cadência é exatamente o apreço na execução da batida de caixa da escola. Uma das primeiras a qualificar esse naipe, a ala executa a batida que se convencionou de chamar '' em cima'', também utilizada por Grande Rio, Imperatriz Leopoldinense, São Clemente (parte da bateria), Império da Tijuca (grande parte da bateria), União da Ilha (parte de bateria), Beija-Flor (parte da bateria) e Salgueiro no Grupo Especial. Mestre Casagrande explica como consegue obter esse resultado.

– Na verdade isso já virou uma tradição aqui na Tijuca. Temos caixeiros muito bons, mas não podemos relaxar e nos ensaios do meio do ano deixamos as caixas tocarem sozinho por quase 30 minutos. Isso ajuda bastante para que eles aguentem a pegada durante todo o desfile e faz com que os ritmistas memorizem a batida correta.

Terceiras ''Livres''

O que muitos criticam não é encontrado na Pura Cadência. A Unidos da Tijuca não usa e nunca usou terceiras com desenho rítmico, mas engana-se quem pensa que cada um faz os ''cortes'' que quiser. Há uma definição das partes do samba em que é permitido ''cortar''. A partir daí, cada um usa o seu improviso para realizar os contratempos que vão dar o suingue necessário à bateria.

– Acho que muito desenho tumultua um pouco o ritmo da bateria. É uma questão de estilo. O Império Serrano, por exemplo, já tem essa característica e faz isso bem. Aqui na Tijuca nunca foi assim e não tem porque ser – afirma Casagrande.

Tamborins

Outro naipe da Pura Cadência que prova sua qualidade ano após ano é o tamborim. Há mais ou menos 12 anos se destacando no carnaval carioca, a boa produtividade da ala fica clara em seus desenhos rítmicos, valorizando certos ''floreios'' no instrumento que acabam sendo seguidos por outras escolas.

– Isso é muito simples. Eu chego para o Coringa(diretor de tamborim) e falo que não quero desenho complicado. É por isso que os julgadores elogiam. Fazemos dentro da linha musical de nosso samba enredo. Coisa muito complicada é vaidade de diretor de tamborim – opina Casão.

Bossas

A Unidos da Tijuca terá duas bossas em sua bateria no Carnaval 2014. A Pura Cadência já chegou a levar até cinco bossas para a Avenida num passado não tão distante, mas vem enxugando o número nos últimos anos. De acordo com Casagrande, o termômetro para definir isso é o que o samba enredo irá possibilitar. A ordem é não criar bossas que agridam a melodia dos sambas tijucanos.

– Tenho pessoas que fazem bossa aqui, o Wagner (diretor), Sandro, Duda (ritmistas)… E todos já sabem como gosto de trabalhar, isso facilita bastante. Teremos uma bossa curta na segunda do samba e outra antes do refrão do meio. Tem bateria que acaba forçando a barra, não ''encontra'' a bossa e os amigos tentar achar de qualquer maneira. Essa é uma coisa que aprendi com mestre Paulinho, quando ele era da Beija-Flor. Não adianta forçar – diz o diretor de bateria.

Divisão dos Naipes

Surdo de 01ª – 12
Surdo de 02ª – 12
Surdo de 03ª – 11
Caixas – 100
Repiques-Mór – 4
Repiques – 32
Tamborins – 42
Chocalhos – 33
Cuícas – 28
Xequerês – 2
Pandeiro – 1

Escalação

Mestre de Bateria: mestre Casagrande
Diretores: Emerson Obina (chocalho), Diogo Coringa (tamborim), Luciano, Jéfferson, Cosme, Rodrigo, Julinho, Thompsom, Jorginho e Wágner 

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