Por Dentro do Ritmo: a Furiosa do Salgueiro

 

 

Uma das grandes virtudes de um mestre de bateria, além de ao menos entender a funcionalidade de cada instrumento em sua ala, é ser um grande agregador. Em qualquer grupamento que envolva cerca de 300 pessoas, as vaidades, os gostos pessoais e a bagagem cultural de cada um influencia diretamente no ambiente. Mas como fazer para torná-lo saudável e propício a obtenção dos melhores resultados? A resposta parece estar com mestre Marcão, comandada da Furiosa. É a vez da bateria do Acadêmicos do Salgueiro no ''Por Dentro do Ritmo''.

 

Furiosa

 

O nome Furiosa vem de longa data e é um dos apelidos mais tradicionais entre as baterias do Rio de Janeiro. Num passado não tão distante, a sonoridade da bateria do Salgueiro, muito pesada, realmente remetia a alcunha, mas desde que Marcão assumiu a ala um importante trabalho de apreço musical vem sendo desenvolvido. O resultado é a formação de novos diretores, ritmistas e, principalmente, um som muito mais equilibrado na Avenida. Soma-se a isso um ambiente saudável e aparece uma das melhores baterias do carnaval carioca atualmente.

 

* VÍDEO AQUI: BOSSA DO REFRÃO DO MEIO

 

Quem frequenta os ensaios do Salgueiro percebe a qualificação do time de ritmistas e diretores que a escola tem hoje. Só para se ter ideia, os músicos-base do CD da Série A são todos da Furiosa e entre o time de diretores de Marcão estão dois mestres de bateria da Série A – Lolo, da União do Parque Curicica, e Maurão, da Rocinha.

 

* VÍDEO AQUI: BOSSA DO INÍCIO DO SAMBA

 

– A nossa proposta é fazer um trabalho a altura do Salgueiro e principalmente buscar aquelas notinhas que ficaram fracionadas no último carnaval. Queremos mostrar que a gente tem potencial para passar com todas as notas máximas ali. Graças a Deus temos um ótimo ambiente na bateria do Salgueiro, formamos uma família e a cada ano as pessoas querem vir desfilar aqui por isso também. Conto com uma rapazeada muito boa entre os ritmistas e diretores. Cada um dá o seu pitaco, inventa uma coisinha e nós vamos ajustando depois – disse Marcão, que aos 48 anos vai completar o seu décimo desfile no comando da Furiosa.

 

* VEJA AQUI: DESENHO DE TAMBORIM DO SALGUEIRO 2014

 

Não há como negar que a bateria do Salgueiro se modernizou em termos de ritmo e o próprio Marcão explica esse processo:

 

– Antigamente a nossa bateria era muito reta, não tinha bossa, floreio, desenho, era mais um telecoteco, só ritmo mesmo. De 1997 para cá a coisa começou a mudar um pouquinho. O (mestre) Louro passou a aceitar um ''afoxezinho'', só para não passar em branco, sem nenhum destaque. Em 2003, ele abraçou a causa e fizemos três paradinhas, ganhamos até o Estandarte de Ouro. Quando assumi a bateria, peguei uma molecada que já era da nossa escolinha, da Alegria da Passarela e Aprendizes do Salgueiro, e começamos a mudar um pouco a característica. Isso num bom sentido, abrimos a nossa mente. Não dá para ficar pra trás. Fomos vendo e evolução e vendo nomes como Ciça, Odilon e Paulinho se destacando nesse sentido – resume o mestre.

 

Bossas

 

Ainda no embalo dessas mudanças, o Salgueiro chegou a ter sete bossas em um único ano recentemente. Com o tempo, Marcão chegou a conclusão que um trabalho mais equilibrado entre ritmo e bossas era o caminho certo para a bateria da Vermelho e Branco. Para 2014, três bossas estão sendo preparadas.

 

– Uma delas é acoplada com outra, na cabeça do samba, é antiga, mas ficou maneira no samba deste ano. Temos também o Ijexá, que é no meio do samba, e uma outra, que é perigosa, mas está dentro parâmetro da melodia. Não queremos deixar ''escapar'' nada, então procuramos fazer dentro da métrica do samba as nossas bossas. Já fugimos muito desse padrão e tomamos porrada sabendo que fizemos algo errado, mas tem coisas que a gente faz certo.

 

Afinação

 

O ''peso'' ouvido na bateria do Salgueiro, principalmente nos anos 90, não é o mesmo. Não que isso seja algo necessariamente negativo. De certa forma, este é um processo que atinge em escalas diferentes todas as baterias do carnaval carioca. Por outro lado, a padronização na afinação e a correção musical na tonalidade dos surdos vem ganhando destaque ano após ano na Furiosa.

 

– Não tive resistência para implementar essas mudanças aqui no Salgueiro. Se você prestar a atenção, vai ver que em muitas baterias, o ritmistas, por não ser músico, só quer saber de tocar sem se preocupar se o surdo está afinado no tom certo. Desfilávamos com a maioria dos surdos frouxos. A primeira, parecia que tinha água dentro. Desfilávamos com 14 primeiras, 14 segundas e 25 terceiras. Pensei que isso não poderia continuar e passamos a afinar direitinho os instrumentos. Graças a Deus eu nunca tomei pancada em nota por surdo sem afinação. A última vez que isso aconteceu aqui foi em 2003.

 

Para que isso seja mantido durante o desfile, mestre Marcão adota no Salgueiro um ''truque'' aprendido no carnaval de São Paulo. Do Águia de Ouro, onde presta ajuda ao mestre Juca há dois anos, ele trouxe a seguinte forma de ''encourar'' os surdos de segunda e terceira. Ao invés de somente couro dos dois lados, como é feito tradicionalmente, ele coloca nylon na parte de baixo do surdo e outra camada de nylon na parte de cima, antes de do coro tradicional. A estratégia permite um som mais ''limpo'' do instrumento e reduz a queda na afinação.

 

– Nem molho mais o couro… A maioria das escolas está fazendo isso e todo mundo está aprovando. Na parte de baixo, colocamos uma fita para não ficar aquele som de lata. A afinação não desce, não cai. Só não dá para fazer no surdo de primeira – explica Marcão, citando o surdo mais grave na maioria das bateria.

 

Surdo de Terceira e Tamborins

 

Uma das seis baterias do Grupo Especial a ter desenho rítmico nos surdos de terceira, a Furiosa adotará um modelo um pouco mais simples em 2014. A estratégia tem explicação direta. Por serem os únicos dois instrumentos a contarem com arranjo único durante toda a execução do samba, os surdos de terceira e os tamborins não devem ''chocar'' um ao outro. Geralmente, esses arranjos são feitos em cima da melodia do samba, o que muitas vezes acaba fazendo com que a sonoridade de ambos não some qualidade e correção ao conjunto da ala.

 

* VEJA AQUI: DESENHO DE TERCEIRA DO SALGUEIRO

 

– Eu não gosto de terceira muito ''desenhada''. Até brinco com os caras aqui, terceira não é quadro negro e nem caderno de meia pauta, mas as vezes a melodia do samba pede algo diferente. Quando estou vendo que estão muito alvoroçados, peço para tirar, até para não ''chocar'' com alguma coisa do tamborim. Em 2014, as nossas terceiras e os tamborins vão alternar arranjo no refrão do meio. Não tenho problema com isso. Os caras aqui são bem tranquilos, são bons e humildes, sabem o que dá ou não certo, não tem aquela coisa de marra. No tamborim tem o Japa(diretor) estreando aí. Ele é rude com ele mesmo, mas muito capaz, quer sempre o melhor. Conta com a ajuda do Nômade(ritmista do naipe), que é um grande músico também. Montei um time muito bom aqui.

 

Caixas e taróis

 

Tradição na escola, a bateria Furiosa terá mais uma vez caixas e taróis compondo a base do seu ritmo. A batida das caixas para 2014 é a mesma que será utilizada por União da Ilha (parte da bateria), Grande Rio, Imperatriz, Unidos da Tijuca, São Clemente (parte da bateria), Beija-Flor (parte da bateria) e Império da Tijuca (grande parte da bateria). Já o tarol na Furiosa é tocado de uma maneira diferente, uma batida similar a que se covencionou chamar de ''reta'', ''carreteira'' ou ''rala-côco''.

 

* VEJA AQUI: BATIDA DE TAROL DO SALGUEIRO

 

* VEJA AQUI: BATIDA DE CAIXA DO SALGUEIRO

 

– A tendência do nosso tarol é correr um pouco mais, porque as notas da batida são quase todas ''quebradas''. Peço para seguirem o padrão, algo que já conseguimos com as caixas, que o Lolo(diretor) toma conta. Fica uma coisa mais limpa, todo mundo tocando igual. Aqui são os caras do morro que tocam tarol, são poucos, cerca de 40 taróis. Antes era mais, mas não é porque o Marcão tirou. É que os coroas não estão aguentando mais(risos). Brinco com eles, ''velhinhos não me abandonem''. Aprendi a tocar tarol olhando eles tocarem – conta.

 

Chocalho

 

Referência entre as alas de chocalho do carnaval carioca atualmente, ala salgueirense é comandada por Marcos Junior ou Marquinhos, como é conhecido na Furiosa. O detalhe é que ele é filho de mestre Marcão, mas o diretor garante que isso não modifica em nada o tratamento destinado ao pupilo dentro da bateria.

 

* VEJA AQUI: CHOCALHOS E CUÍCAS DO SALGUEIRO

 

– O esporro é o mesmo (risos). Não tem essa, ele é meu filho depois do trabalho. É um garoto muito educado e até por isso não sabe puxar a orelha de ninguém. As vezes eu faço por ele, mas digo que ele não pode ficar esperando eu fazer. Com relação ao trabalho, tem funcionado muito bem. Tudo o que ele faz, me mostra para aprovar e deixo-o à vontade para fazer que achar melhor. Ele tem talento, sabe aquilo que vai fazer – disse Marcão, que ressaltou também o fato da integração entre as cuícas e chocalhos em determinadas partes do samba.

 

Divisão dos Naipes

 

Surdo de 01ª – 12
Surdo de 02ª – 12
Surdo de 03ª – 13
Caixas – 80
Tarois – 40
Repiques – 35
Tamborins – 36
Chocalhos – 20
Cuícas – 20

 

Escalação

Mestre de Bateria: mestre Marcão

Diretoria: Luciano Japa(tamborim), Marquinhos (chocalho), Lolo, Maurão, Vando, Gustavo, Guilherme, Perereca, Clair, Kléber, Uchôa, Orelha e Mariana

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