Por dentro do Ritmo: ‘A Invocada de Duque de Caxias’

 

 

O Incendiário da Marquês de Sapucaí! O apelido dado pelo radialista e jornalista Miro Ribeiro exprime perfeitamente a característica mais marcante do trabalho de Moacir da Silva Pinto, o mestre Ciça. Como o próprio mestre gosta de dizer: ''não saio de casa para fazer o mesmo que todo mundo''. E em 2014 isso se repetirá. Mais uma vez na Acadêmicos do Grande Rio.

 

* AQUI: DESENHO DE TAMBORIM DA GRANDE RIO

 

A Invocada

 

O apelido da bateria da Tricolor de Caxias remete a um comportamento inquieto e ousado, o que ocorrerá também na prática. Pelo quinto ano consecutivo na agremiação, Ciça tem uma carreira que dispensa apresentações. Certamente é o mestre de bateria mais conhecido entre as pessoas que não acompanham o carnaval tão de perto. E motivos para isso não faltam. Adepto de coreografias, bossas e atitudes ousadas, como colocar uma bateria para tocar em cima de um carro alegórico, ele conquistou seu espaço além da mídia carnavalesca.

 

* VÍDEO: AS BOSSAS DA BATERIA DA GRANDE RIO

 

– É um reconhecimento bacana. Gosto quando as pessoas se referem a mim e me abordam de forma carinhosa. Sempre busco fazer algo diferente para que a escola leve mais entretenimento para o público e conquiste os jurados. Tudo, é claro, aliado a um bom ritmo. A proposta para 2014 é a sustentação do samba, que é alegre e bacana. Gosto de um andamento mais na frente, uma pegada de macaco mesmo. A nossa bateria será muito firme e vibrante esse ano. É uma proposta não só da bateria, mas da escola em si, que está implementando uma cara diferente -disse Ciça.

 

Desde 1988 de maneira ininterrupta como mestre de bateria no Grupo Especial, Ciça já deixou nos ouvidos dos foliões mais atentos as suas características. Como o próprio citou no parágrafo anterior, a Invocada terá um andamento ''pra frente'' em 2014.

 

Caixas

 

Quem já teve o prazer de ver pode comprovar, mestre Ciça é um dos maiores tocadores de caixa que o carnaval já viu. A facilidade com que domina o instrumento passa até a impressão de que é fácil tirar o som que tira da ''peça''. Até por essa intimidade e pela origem estaciana, berço de grandes tocadores de caixa, Ciça desfila com esse instrumento em grande quantidade em suas baterias. Em 2014 serão 120 caixas na Invocada, mas executar a batida que ele gosta – utilizada também por Salgueiro, Unidos da Tijuca, Grande Rio, São Clemente (parte da bateria), Império da Tijuca (grande parte da bateria), Beija-Flor (parte da bateria) e Imperatriz Leopoldinense no Grupo Especial – não é tão simples, ainda mais em um andamento mais acelerado.

 

* VÍDEO: A BATIDA DE CAIXA DA BATERIA DA GRANDE RIO

 

– É muito complicado. Eu toquei de uma maneira e vi grandes tocadores de caixa, mas muita gente que porque é a bateria do Ciça tem que pegar a caixa e tocar em cima. Isso não tem nada a ver. Se souber fazer a mesma batida em baixo, vai tocar em baixo. Hoje não tem a mesma qualidade de ritmistas de alguns anos atrás, mas tem muita gente que se aproxima, uma garotada que quer aprender e é boa. A gente sempre procura passar a batida correta e isso melhorou muito. Teve gente que enganou durante muito tempo aqui(risos), mas está melhorando. Dos 120, eu tenho 70 bem firmes.

 

Afinação

 

Desde a época da Estácio de Sá, passando pela Unidos do Viradouro e chegando à Grande Rio, Ciça mantém uma afinação mais ''pesada'' em suas marcações. Ele explica o motivo:

 

– Eu tenho uma levada de caixa muito ''pra frente'', então a minha primeira tem que ser muito grave. Isso é proposital. Muita gente fala: '' a primeira do cara tá baixa'', mas não! Se eu colocá-la ''alta''a bateria vai embora e ninguém consegue pegar. A afinação é um ponto que me preocupa muito na Avenida e quando preciso tocar mais cadenciado peço para subir a afinação. Gosto de uma primeira bem grave, uma segunda não tão aguda e a terceira média – resume ele.

 

* VÍDEO: SURDO DE TERCEIRA "LIVRE" DA GRANDE RIO

 

Surdo de Terceira

 

Quando a Grande Rio anunciou a contratação de Ciça, os ritmistas mais atentos se perguntaram como o mestre iria trabalhar com os surdos de terceira da Tricolor de Caxias. A escola, desde que mestre Odilon assumiu a ala, em 1998, foi o berço dos desenhos de terceira que hoje são maioria entre as baterias de todo o Brasil. Em contrapartida, Ciça nunca havia adotado a característica. Nos primeiros quatro anos, usou-a de forma menos rígida. As terceiras faziam o mesmo ''corte'' nos mesmos momentos, mas na hora de tocar ''reto'' não havia uma mesma batida a ser seguida. Já em 2014, a história será diferente.

 

– Foi complicado e ainda é. Foi uma mudança radical no estilo. Eu não gosto, mas respeito. Não vou falar mal, pelo amor de Deus. Gosto das terceiras soltas, mas com educação. Tem um desenho só. Eles conseguiram me convencer(risos) a fazer um desenho de terceira. Respeito a opinião da rapazeada que pediu isso, mas será um desenho muito rápido na ''subida de três''. Eu acho que terceira foi feita para dar balanço à bateria. Hoje estão fazendo as terceiras de repique, vou brigar com isso até o final.

 

A bateria da Grande Rio preparou cinco bossas para o desfile deste ano. Uma delas é o xodó de mestre Ciça.

 

– Tem uma que a gente brinca: tira o pino da granada e joga(risos), que é o repique solando em uma parte do samba. Nessa paradinha eu vou fazer uma negócio legal com a Christiane Torloni(rainha de bateria). Tenho uma mais longa também, que é a que eu acho melhor das cinco. Briguei até com diretor de bateria meu que não achava legal, mas vamos fazer. Ela tem muito impacto e o fechamento é fantástico, acho que será a grande bossa da Marquês de Sapucaí – promete.

 

Divisão dos naipes

 

Surdo de 01ª – 12
Surdo de 02ª – 14
Surdo de 03ª – 16
Caixas – 120
Repiques – 35
Tamborins – 42
Agogô – 24
Chocalhos – 22
Cuícas – 12
Xequerê – 1

 

Escalação

 

Mestre: mestre Ciça
Diretoria: Fabiano(Tamborim), Gama(Cuíca), Romildo e Thiaguinho(Caixas); Marquinhos e Da Lua(Repiques), Ulisses e João Maluco(In Memorian) (Manutenção); Fafá (Surdos de 03ª); Serginho (Peso); Vancleyton(Surdos de 01ª e 02ª); Edgar (Agogô)

 

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