Por dentro do ritmo: a Tabajara do Samba

No idioma tupi guarani a palavra tabajara significa ''senhor da aldeia'' e nome mais sugestivo para definir a bateria da Portela ultimamente não existe. Nos últimos anos a ala da Azul e Branco de Oswaldo Cruz tem feito ótimas apresentações e se firmou entre as melhores do carnaval carioca. Enfim, o reconhecimento em termos de notas veio no Carnaval 2013, o que deixa mestre Nilo Sérgio e seus comandados mais tranquilos para o desfile de 2014. É a vez da bateria portelense no ''Por Dentro do Ritmo''.

Tabajara do Samba

O nome Tabajara do Samba foi dado para a bateria da Portela em alusão à Orquestra Tabajara, ícone na música brasileira e fundada em 1934. Comandando a ala desde o Carnaval 2006, mestre Nilo Sérgio é o principal responsável pelo ótimo momento vivido. Deu início a uma importante renovação e padronização dos naipes na bateria portelense e conta como tem sido a expectativa para o próximo desfile. 

– Será um ano com mais pressão. É um novo momento da Portela e não podemos decepcionar. Sem contar as boas notas do ano passado e as premiações, que dobram a nossa responsabilidade. Vai chegando o carnaval e você não dorme(risos), mas a nossa estrada é a mesma do ano passado. Vamos buscar as notas mostrando a nossa cadência, o nosso ritmo e as bossas, que são feitas dentro do contexto do enredo e vem dando certo.

A Tabajara do Samba em 2014 apresentará duas bossas. Ambas têm suas bases em cima das ''conversas'' entre os surdos e participação efetiva dos agogôs. Uma das bossas está localizada no refrão principal e a outra no refrão do meio, esta com ritmo ''maxixado'' e seguida de uma pequena convenção nos versos a partir do ''canto, a arte e a dança''.

 

Confira a bossa do refrão do meio da Portela para 2014

O andamento mais tradicional que vem sendo imprimido nos últimos anos também foi mantido durante a maior parte do ensaio acompanhado pelo site CARNAVALESCO. A opção valoriza ainda mais a ótima melodia do samba portelense.

 

Confira a bossa do refrão principal da Portela para 2014

Agogôs

Com papel especial nas bossas portelenses, o agogô tem que ter mesmo lugar de destaque na Tabajara do Samba. Primeiro pela qualidade apresentada pela ala e segundo pelo contexto histórico, já que alguns registros apontam a Portela como precursora do instrumento nas baterias, outros citam o Império Serrano, mas rivalidade de Madureira a parte, a Azul e Branco conta com Sidcley no comando de seus agogôs. Ele lidera o grupo agogô carioca, que organiza as alas do instrumento em diversas escolas, mas a Portela é prioridade, como define mestre Nilo Sérgio.

 

Vídeo: Agogôs da Portela para 2014

– Estamos com o Sidcley há muito tempo e conversei com ele assim que assumi a bateria. Disse que a Portela só teria ala de agogôs se ele tomasse conta. Hoje temos uma ala forte e penso muito nele na hora das paradinhas. Deixo livre para fazer o desenho, mas se não gostei de algo tenho total liberdade para trocar ideia, até porque desfilei no agogô da Portela durante muito tempo. Ele leva a ala para fazer gravações no estúdio e sempre peço para mudar muito pouco a galera que desfila aqui – explica.

Caixas

Algo que mudou da água para o vinho desde que Nilo Sérgio assumiu a bateria da Portela foi a padronização da batida de caixa. Não que isso nunca tenha sido o forte da escola, mas a partir de um determinado momento essa organização foi se perdendo e até batidas que não eram tradicionais da agremiação foram executadas em meio a muitas outras.

Para chegar a definição que se tem hoje, Nilo contou com a ajuda de mestre Marçalzinho, filho do grande mestre Marçal e que comandou a bateria da Portela em 2005. Ali começava um trabalho de resgate e organização desse naipe.

– Foi algo muito complicado no início. A batida antiga e tradicional da Portela tinha três rufadas. Na época que eu entrei na bateria, o único que sabia perfeitamente era o Sr. Paulo Marino, antigo diretor de caixa da Portela. Mas como adotar essa batida no andamento que temos hoje? Acho que não é mais possível. Peguei um vídeo com o Marçalzinho de uma música que a Clara Nunes havia gravado com a bateria da Portela e a batida de caixa era essa que implementamos na bateria hoje. Acho que ela é a ideal pois não deixa a bateria correr, mas para implementá-la foi uma dor de cabeça. Muitos estavam acostumados a tocar qualquer coisa, qualquer batida, e não pode ser assim. Nesse ponto, trabalhar com o jovem é muito melhor. Não tem ''vícios'' e está com a cabeça mais fresca, não precisa pagar pensão(risos). O objetivo é não deixar mais morrer essa batida, que é a ideal para um andamento na casa de 144, 145 BPM(batidas por minuto). Ela é ''calangueada'' e remete ao toque para o orixá padroeiro da nossa bateria, o oxóssi.

 

Surdo de Terceira

Assim como outras cinco agremiações do Grupo Especial, a Portela usa desenho rítmico em todos os seus surdos de terceira. O de esse ano, é mais simples se comparado com o dos anos anteriores. Mestre Nilo Sérgio explica como foi adotar essa filosofia na Tabajara do Samba.

 

Vídeo: Desenho de Terceira da Portela para 2014

– Para padronizar as terceiras também encontrei resistência, não tanta quanto com as caixas, mas foi difícil também. Eram batidas diferentes e soltas aqui na Portela e os tocadores ''viravam'' conforme a vontade de cada um, o que é um perigo para embolar e atravessar a bateria. Desfilei tocando surdo de terceira na Portela e comecei a unir as três batidas em uma só, como acontece hoje. Quando assumi a bateria defini que não haveria mais terceiras soltas na Portela, isso é algo novo na nossa bateria.

Afinação

Ouvir um áudio mais antigo da bateria da Portela é um belo exercício para conhecer a sonoridade das baterias mais ''pesadas'' como se definiu. Atualmente, a sonoridade da Tabajara do Samba é mais ''leve'', mas o grave bem característico dos surdos de primeira ainda é facilmente percebido. Muitos não gostam da chamada ''ditadura das notas altas'' nas baterias atualmente, mas Nilo Sérgio explica o que pode ocasionar a diferença.

– Temos muito cuidado com afinação aqui. Desde que entrei na bateria, estamos utilizando dessa maneira e vem dando certo. Muitas vezes, nos nossos ensaios de bateria, vou para a rua ouvir a afinação da bateria. Não é mais uma bateria com aquele peso todo por alguns motivos. Primeiro o número de surdos, lembro que a Portela desfilava com 16 primeiras, 16 segundas e 23 terceiras para 70 caixas e 30 repiques. Além disso, era aquele surdo ''treme-terra'', algo até desproporcional e difícil de manter a afinação. Bateria não é só surdo. É um conjunto de instrumentos que precisam ser ouvidos

Tamborins

Dona de uma ala de muita qualidade no tamborim, a Portela leva também para a Avenida os desenhos mais complexos do carnaval carioca. O autor da ousada estratégia é o diretor Vinicius Ximenes.

– O Vinícius é um cara que eu conheço desde garoto aqui na Portela e sempre mostrou muita qualidade com o tamborim. Naturalmente assumiu a ala e tem feito um ótimo trabalho. Tento travar um pouco. Não gosto de desenho muito picotado, prefiro um floreado, telecoteco e carreteiro, mas vamos nos entendendo. Peço para tirar algumas coisas, deixo outras, nada na vida se faz sozinho. Tem outros diretores que já saíram no tamborim e dão ideias também.

 

Divisão dos naipes

Surdo de 01ª – 11
Surdo de 02ª – 11
Surdo de 03ª – 13
Caixas – 90
Repiques – 30
Tamborins – 30
Chocalhos – 30
Agogôs – 30
Cuícas – 24
Prato – 1
Xequerê – 1

Escalação
Mestre: mestre Nilo Sérgio
Diretores: Vinícius Ximenes, Vinícius Rato, Vitinho, Douglas, Junior do Sampaio, Assênio, Nilson, André, Cacau, Bombeiro e Sidcley.

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