Por onde anda? Ex-parceira de Rosa Magalhães, Lícia Lacerda relembra a sua trajetória no carnaval

Artista oriúnda da Escola de Belas Artes (EBA), instituição que formou diversos talentos para o carnaval carioca, Lícia Lacerda revelou ao site CARNAVALESCO a sua opinião sobre o modelo atual e os rumos do desfile das escolas de samba. Durante a entrevista, a carnavalesca ainda relembrou passagens curiosas dos carnavais assinados individualmente e em parceria com a amiga Rosa Magalhães.

Lícia iniciou a carreira no Salgueiro, em 1971, que veio com o enredo "Festa para um Rei Negro", o famoso "Pega no Ganzê". A artista foi convidada, junto com Rosa Magalhães, para auxiliar a equipe composta por Joãozinho Trinta, Maria Augusta, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Na época, Lícia ainda era estudante da EBA.

– Surgiu uma vaga na equipe e eu fui chamada para colaborar. Eu nunca tinha visto carnaval! Não tinha dimensão do que era! Nós fazíamos as alegorias em uma casa, então era um aperto danado. Depois tínhamos que montar tudo em três dias no Pavilhão de São Cristóvão – relembra a carnavalesca.

Após a experiência no Salgueiro, veio a prova de fogo: Lícia foi convidada para fazer, junto com Rosa Magalhães, o carnaval de 1974 na Beija-Flor de Nilópolis, que estreava no Grupo Especial. O enredo "Brasil no Ano 2000" exaltava, de forma ufanista, o Brasil da época. A carnavalesca defende que a ideia  do enredo não foi dela e de Rosa Magalhães, que tinham apenas a missão de criar as alegorias e fantasias.

– Nós não fomos responsáveis pela escolha do enredo, que era excessivamente cívico. Mas conseguimos manter a escola, que estava desfilando pela primeira vez no Grupo Especial. Então, acredito que essa empreitada foi bem sucedida – afirma Lícia.

Da escola de Nilópolis, a dupla seguiu direto para a madrinha da Beija-Flor, a Portela. Em Oswaldo Cruz e Madureira, as carnavalescas faziam os figurinos e alegorias para os enredos criados por Hiram Araújo e pelo Departamento Cultural da agremiação.  Em 1978, Rosa e Lícia desenvolveram o enredo da escola.

– Na Portela, fomos responsáveis, além dos figurinos e alegorias, pelo enredo "Mulher à Brasileira, que tirou a 5ª colocação – explica a artista.

Em 1982, a consagração da dupla veio na rival de Madureira: o Império Serrano. Com o enredo "Bum-bum Paticumbum Prugurumdum", a escola da Serrinha saiu da 10ª colocação do carnaval anterior para um desfile empolgante que resultou na conquista do nono título da história da agremiação. As recordações das dificuldades daquele carnaval estão presentes até hoje na memória de Lícia.

– Bum, Bum Paticumbum Prugurundum foi uma grande loucura! A escola não tinha um tostão sequer! Fazíamos o carnaval dentro de um terreno da Comlurb e trabalhávamos praticamente 24 horas por dia. Quando as costureiras, exaustas, saíam das máquinas de costura, eu e a Rosa assumíamos os postos delas. As dificuldades eram tantas que as alegorias e fantasias só foram terminadas na avenida.

O excesso de trabalho fez com que a carnavalesca passasse mal durante o desfile e perdesse boa parte da apresentação. – Eu estava tão exausta, que fui parar no hospital durante o desfile. O médico perguntou: Você bebeu, fumou ou usou qual tipo de droga? Na verdade, eu só tive tempo de comer uma mariola e beber um gole de cerveja.  Mas ainda retornei a tempo de pegar o finalzinho do desfile – recorda Lícia.

No carnaval de 1984, Lícia Lacerda e Rosa Magalhães também enfrentaram dificuldades para colocar o desfile da Imperatriz Leopoldinense na Avenida. Nessa época, a dupla começava a ficar conhecida pelos enredos leves, criativos e com pitadas de irreverência.  Do enredo "Alô mamãe", a carnavalesca relembra as alternativas criadas para driblar as limitações.

– O carro dos orelhões, por exemplo, nós só conseguimos os orelhões às vésperas do desfile. Nós mudamos correndo a cor, para não sermos penalizados. As composições do carro não tinham fantasia! Nós arrumamos um biquíni, com um único tamanho. Então, quem entrava no biquíni desfilava, quem não entrava, não desfilava.

No ano seguinte, a Estácio de Sá foi o destino das duas carnavalescas. Na escola, elas desenvolveram  enredos como "O Boi dá Bode", "Chora Chorões", "O Ti-Ti-Ti do Sapoti", entre outros. Para Lícia, a passagem pela agremiação do Morro de São Carlos foi marcante. – Lá foi bom, pois pudemos fazer desfiles leves e carnavalescos. Eu acho que o carnaval é uma grande brincadeira.

A última agremiação por onde Lícia Lacerda assinou um carnaval foi a Tradição. A artista ficou na escola de Campinho de 1993 até 1996.

– O desafio de assumir a escola foi parecido com o do Império Serrano. A Tradição tinha descido e queria voltar ao Especial. A escola também tinha dificuldades financeiras, mas nós conseguimos superar isso e vencemos o Grupo de Acesso. Foi ótimo, pois na época quem vinha do Grupo de Acesso desfilava no Sábado das Campeãs – conta Lícia, relembrando o título com o enredo "Não me leve a mal, hoje é carnaval".

A ausência do espírito irreverente nos desfiles é um dos pontos de crítica e desânimo por parte da carnavalesca. As maiores queixas se concentram no desenvolvimento dos enredos e a falta de concepções estéticas diferentes.

– Quando a preocupação é exclusivamente com o belo, a coisa fica muito chata, igual e careta! Eu aprendi isso naquele carnaval que o Arlindo Rodrigues fez na Imperatriz, em 1980, sobre Lamartine Babo. Foi um desfile carnavalesco, engraçado, você se divertia a todo instante. Hoje em dia, o carnaval está massificado, tudo muito igual, chato mesmo. Você vê a primeira escola, a segunda, a terceira, chega na quarta você tá cansado, pois viu a mesma coisa, todas seguindo um padrão. As escolas estão cerceando os carnavalescos. Os desfiles antigamente tinham muito mais humor – critica a experiente artista.

Quem pensa que Lícia se afastou totalmente do espetáculo protagonizado pelas escolas de samba está enganado. Sempre que algum amigo carnavalesco precisa, a artista colabora de alguma forma.

– Em 2011, após o incidente na Cidade do Samba, eu ajudei o Roberto Szaniecki, que é meu amigo, e coloquei a mão na massa mesmo – revela Lícia.

Atualmente, Lícia Lacerda se dedica às atividades como artista plástica e figurinista. Mas, e se pintasse alguma proposta, será que ela voltaria ao cargo de carnavalesca?

– Adoro criar e desenhar. Inclusive, acho que se eu assinasse um carnaval no Especial ficaria entre as seis primeiras. Mas a escola tem que fazer uma proposta legal, dando liberdade de criação, sem imposições.

Para o carnaval de 2012, a artista recebeu convite para desfilar no Império Serrano, mas ainda não confirmou presença devido a problemas de saúde.

– Fui chamada para vir como destaque o Império Serrano, mas estou aguardando a liberação do médico devido a pequenos problemas de saúde. De qualquer forma, estou na torcida pelo retorno da escola ao Grupo Especial.

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