Portela em chamas

Estranha sensação de alívio na desgraça.

Depois de um ensaio técnico "daqueles" no domingo a viagem, ainda que curta, na segunda-feira de manhã. Só então, já na estrada vi a caixa postal cheia de torpedos. Um deles lacônico: "PORTELA EM CHAMAS".

Só no terceiro aberto dei conta do incêndio. Portela, Ilha e Grande Rio: lambeu tudo, não sobrou nada! Incrédulo, segui viagem até uma parada na Tv, já com outras notícias: Grande Rio perdera tudo, Ilha só um carro e fantasias e Portela as fantasias.

Um alívio para quem imaginava a perda total para as três escolas, mesmo lamentando muito o fato de uma das favoritas ter sido deixada fora de combate.

Ninguém cai e Portela, Ilha e Grande Rio ficam sem julgamento. Do ponto de vista da Portela, nenhuma novidade. A escola desfilou sem julgamento em
1952, em razão das chuvas que prejudicaram as escolas,em plena guerra Império X Portela pelos campos de batalha de Madureira; e também no carnaval de 1938 quando a comissão julgadora correu da chuva.

Naquelas situações a Portela estava pronta, orgulhosa e poderosa. Ao saber da decisão, confesso aqui minha decepção com relação à exclusão do julgamento.

Esperava sim, o bom senso demonstrado em relação ao rebaixamento. E aqui falo exclusivamente em relação à minha escola. Não vi ainda
o tamanho do estrago parcial, sua dimensão; mas não pude deixar de lembrar o texto de minha crônica recente quando me dirigi aos guerreiros portelenses por ocasião da
inauguração do busto de Clara Nunes: "Que bom que você voltou. Para que nos mantenhamos assim como somos, para sempre. Quem sabe para tornar nosso caminho, nossa busca, mais corajosa…"

Será que é este nosso caminho, desfilar sem avaliação? Terá sido a mutilação verdadeiramente tão grande? Ou será que não estamos sendo corajosos. Temos uma missão pela frente, um desafio que a cada ano se torna maior para cada um de nós: o desafio da vitória.

Considero, e já disse isto muitas vezes aqui, que se vencermos em muito deveremos a atitudes da atual direção que fizeram a escola retornar aos trilhos da competitividade. Se perdemos, em muito devemos a erros e descaminhos da atual direção, com carnavais que beiram ou mergulham no chapabranquismo.

Se o incêndio destruiu a ilusão da vitória de hoje, tenho a convicção de que um desfile ousado, corajoso, valente e emocionado será um capítulo a mais na marcha para a vitória que virá amanhã.

Deixamos para trás o último e pior carnaval da história da Portela. Um festival de equívocos. Hoje temos um enredo que, embora não unanimemente desejado, conquistou a confiança de todos nós. Temos um carnavalesco experiente, com competência já demonstrada em enredos dessa natureza.

Temos uma bateria que é nosso orgulho, um cantor que só nos dá alegria, uma porta-bandeira na exuberância de sua vitoriosa carreira e seu parceiro formando um par de grande força competitiva.

Nossa harmonia comandada por jovens que só nos trazem orgulho. E, acima de tudo, nosso chão que está lá em Madureira às quartas- feiras para quem quiser ver,
ainda que não tenha ido tão bem na Sapucaí. Temos nossa imensa e aguerrida nação torcedora que, certamente, estará nas
arquibancadas mais nossa, mais aguerrida do que nunca desde que o desfile se dê naquele mesmo dia para o qual nossa galera comprou seus ingressos.

E se nossos carros se salvaram, a pergunta que não me cala: será que estamos tão mutilados assim? Será que não podemos enfrentar a adversidade, enfrentarmos o julgamento e mostrar nossa verdadeira força alicerçada em toda nossa majestade e em tudo isso mostrado acima?

Será que aceitar o não julgamento não é um ato de se apequenar? Não é o sentido inverso da afirmação, da dignidade, da altivez em direção à vitória futura?

Não sei! Não vi o tamanho do estrago. Não sei nem se alguém sabe suas reais dimensões. Não tanto pelo que perdemos, muito mais pelo que não conseguiremos reconstruir e pelo que não conseguiremos concluir a tempo por falta de tempo e espaço próprio.

A decisão tomada pela Liesa é sensata? Sim, é sensata.

Que se garanta às escolas atingidas o direito de competir em igualdade de condições para fugir à derrota maior do rebaixamento. Da
mesma forma acho que se deve garantir às escolas o direito de preferir não serem julgadas em razão das mutilações respectivas. Tudo isto é sensato.

Acho, porém, precipitado excluir a Ilha e a Portela do julgamento. Isto deve ser um direito, não uma obrigação.

Muito bem foi-lhes garantido tal prerrogativa. Falta-lhes agora garantir o direito de "querer competir". Esta decisão deve caber às próprias escolas, e a seus componentes. Exclusivamente a eles.

De minha parte estarei torcendo para que nos próximos dez dias, feito o real balanço dos estragos, ocorridos e por vir, o polonês erga o polegar para o Presidente e este acene para todos os guerreiros da Portela:

Vamos ao combate!

e-mail para contato: lcciata2@hotmail.com