Porto da Pedra vem no ritmo do Tigre de São Gonçalo

Todos sabem que é praticamente impossível uma escola de samba chegar ao consenso pleno numa final de samba-enredo, mas na escolha de samba da Porto da Pedra, que teve seu resultado revelado depois das 5h, isto aconteceu. Com apresentação arrebatadora, bem superior às outras parcerias da noite, o samba de Vadinho, Fernando Macaco, Cici Maravilha, Bento, Oscar Bessa, Denil e Tião Califórnia sagrou-se campeão. Como era de se esperar, pela fraca argumentação do enredo, a safra não foi das melhores e o próprio presidente do Porto da Pedra concorda com isso.

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– Agora eu posso falar, em primeiro lugar, o nosso enredo acabou complicando a vida dos compositores. No dia da apresentação dos sambas (07 de setembro) para falar a verdade eu não gostei de quase nada. Sou compositor também e entendo do riscado. Depois disso começamos a avaliar qual samba era mais aceito pela comunidade e que se enquadrava no enredo. Essa foi a única parceria que entendeu o enredo. A letra dele está totalmente dentro do contexto. Estou bastante tranquilo com a  escolha, até porque acompanhei cada etapa da disputa. O samba do Jorge Remédio acabou me empolgando também no final, fiquei com um pouco de dúvida, mas o critério foi avaliar aquele que estava mais dentro do enredo – revelou o sincero presidente Francisco José Marins.

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A última vez que a atual parceria venceu na escola havia sido no ano de 2006, quando o Tigre de São Gonçalo contou a história das mulheres na Sapucaí. Ainda no palco, o compositor Fernando Macaco fez referência à parte do enredo que menciona o leite materno para comparar os dois temas.

– Se falar de mulher, leite materno, nós vencemos (risos). É uma nova gestão no Porto da Pedra. Perseguíamos essa vitória há cinco anos e ela chegou. Agora é só comemorar e colher os frutos dessa disputa. Acho que o grande diferencial foi a melodia do samba – finalizou.

Quem também não escondia a emoção era o veterano compositor Vadinho, que tem história de sobra na escola. Ele, além de vencer em 2006, é um dos autores do samba de 1997 da Porto da Pedra, quando a Vermelho e Branco alcançou um quinto lugar, melhor resultado de sua história.

– É difícil até falar. Tenho que tomar cuidado para não falar besteira, porque a felicidade é imensa. Sou tricampeão na Porto da Pedra. Não vou negar que foi difícil fazer samba para esse enredo, mas demos o nosso jeitinho, usamos a experiência e a malemolência para compor a nossa obra – sintetizou.

O diretor de carnaval do Tigre, Amauri de Oliveira, adiantou que algumas mudanças serão feitas na obra e os ensaios de quadra, sempre às quartas-feiras, começarão no dia 26 de outubro. Ele afirmou também que não se pode perder tempo para trabalhar o samba junto à comunidade.

– É um samba dentro da proposta do enredo. Quando eu pedi para que os segmentos se manifestassem durante os sambas, exceto a bateria, eu queria ver o que eu vi no samba campeão. Olhei do camarote e todos os segmentos cantavam e dançavam, coisa que não aconteceu com nenhum outro. Vamos mexer no samba sim, mas em pouca coisa. Tem uma parte da melodia dele que gera cacofonia e algumas palavras da letra serão trocadas.

Além de Amauri, o presidente Francisco José Marins sabe bem a importância de escolher um samba que agrade a comunidade. Em 2011, a Porto da Pedra tinha um dos melhores sambas do Grupo Especial, mas na Sapucaí o que se viu foi uma escola apática, sem dúvida a que menos entre as 12 que desfilaram no último carnaval.

– Espero não ver mais o que eu vi no último desfile. Só eu e minha noiva cantávamos o samba. Passeava pelas alas e via as pessoas mudas. Cobrei a comunidade. Estamos fazendo um alto investimento, apostando num modelo inovador de gestão e a resposta precisa ser dada na Avenida. Eles me disseram que foi a chuva, mas não posso considerar isso um fator inesperado. Isso é uma desculpa. Chuva pode acontecer. Surpresa são as cinzas do vulcão chileno. Estou fazendo palestras para cada segmento, tentando fazer com que eles entendam a importância de cantar muito no dia do desfile.

A Noite

Faltando poucos minutos para as 3h, cerca de uma hora e meia depois do que previa o cronograma oficial, o primeiro samba da noite subiu ao palco. A parceria de Jorge Remédio, que levou Wantuir para cantar a sua obra, investiu pesado na torcida, que compareceu em grande número e cantou bastante o samba, que contava com algumas soluções criativas em sua letra, apesar do tema truncado. Apesar da boa interpretação de Wantuir e da ótimo andamento da bateria, o samba não agradou os segmentos da escola, que praticamente não reagiram. O som também foi um problema durante a apresentação. Logo no início foi possível ouvir microfonia, sem contar o volume excessivo da voz de Wantuir e dos instrumentos de corda. No final, Jorge Remédio aprovou a passagem da parceria pelo palco e a torcida fez a sua parte, gritou o conhecido é campeão!

O segundo samba a subir no palco foi o da parceria campeã. Como já citado, assim que Nêgo, ao lado de Gera e dos intérpretes de apoio começaram a cantá-lo, a quadra explodiu de alegria. Até mesmo as senhoras da ala das baianas e da velha guarda foram vistas pulando, dançando e cantando o samba de Vadinho e parceria. A bateria, apesar de não esconder a empolgação, imprimiu o mesmo andamento do que já havia feito com o primeiro samba. Destaque para a melodia da segunda parte do samba do Tigre, que conta com desenhos mais belos do que a primeira parte, que pode até se arrastar, caso Wander Pires cante num estilo menos aguerrido que Nêgo. No final da apresentação, o grito de campeão ecoou por toda a quadra da Vermelho e Branco, que recebeu ótimo público.

Na sequencia, foi a vez do samba de Evaldo e parceria se apresentar. Bem diferente da obra anterior, o comportamento do público foi indiferente à  apresentação.  A torcida era grande, a maior da noite, contava até mesmo com um rapaz fantasiado de tigre e tentava levar o samba à frente, mas alguns versos pobres poeticamente acabaram fazendo com que a composição, cantada por Leonardo Bessa, não caísse no gosto dos segmentos da escola. Com isso, a parceria acabou fazendo a pior apresentação da noite.

Finalizando as parcerias finalistas, perto das 4h30, a parceria do presidente da ala dos compositores da escola, Miguelzinho e parceria, se apresentou. Com um samba leve,  muito bem cantado por Carlinhos Pavarotti , a parceria se apresentou de maneira alegre. A lamentar, somente a letra, que não apresentava riqueza poética e destoava da melodia envolvente da composição. Já demonstrando cansaço, em virtude do atraso, o público, que já era bem menor, não reagiu à apresentação.

Na hora do resultado, o presidente Francisco José Marins não enrolou e chamou logo o intérprete Wander Pires, que cantou pela primeira vez o samba da escola para o Carnaval 2012. A lamentar, apenas uma briga dentro da bateria Ritmo Feroz após a divulgação do resultado. Apesar disso, a reportagem do CARNAVALESCO apurou que o motivo da confusão nada teve a ver com a escolha do samba. De acordo com ritmistas, foi apenas um desentendimento entre dois integrantes da ala. Os seguranças agiram rapidamente e a festa continuou.

Na próxima quarta-feira, a Porto da Pedra gravará na Cidade do Samba, a base de sua faixa no CD oficial de 2012. Mestre Thiago Diogo adiantou que fará três bossas, todas elas na segunda passagem do samba.

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