Presidente das baianas da Mocidade, tia Nilda está perto de completar quatro décadas de carnaval

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nilda4O carnaval está chegando, e há em todos os anos aquelas pessoas cativas que o público já se acostumou a ver na avenida em algumas escolas. É assim com Neguinho na Beija-Flor, tia Surica na Portela, ou tia Nilda na Mocidade. O site CARNAVALESCO foi a casa de tia Nilda ouvir as suas histórias, e revela algumas, que contam um pouco da vida da baiana e do carnaval carioca. Aos 73 anos de idade, tia Nilda contabiliza 38 carnavais dedicados a Mocidade Independente de Padre Miguel. A sua importância para o carnaval é tão grande que hoje ela preside a ala da qual sempre fez parte dentro da verde e branco: a ala das baianas.

nilda2– Eu frequentava as rodas de samba do Bangu Atlético Clube, levando a minha filha mais velha, sempre gostei das escolas de samba. Mas o meu pai nunca me deixou desfilar. A minha avó foi pastora da Unidos de São Carlos, hoje Estácio, depois ela foi para a Vizinha Faladeira. O meu pai também acompanhava as escolas, e me levava para assistir aos desfiles, mas desfilar ele não deixava. Papai sempre acompanhava os desfiles, minha mãe que não. Naquela época a folia não tinha hora para acabar, e ele sempre acompanhando a gente. Quando me tornei mãe, minha filha mais velha me pedia para levar ela na Mocidade. E eu comecei a frequentar por ela, mas tomei gostinho, fiz amizade com mestre Jorjão, e a minha filha, “pra frente”, disse para ele: ‘minha mãe sempre quis desfilar em escola de samba. É o maior sonho dela’. E ele disse: ‘você fala agora, faltando quinze dias para o carnaval?’ E mesmo assim ele falou com o diretor das baianas, e eu fui fazer foto, tirar medidas e tudo mais já no dia seguinte, debaixo de chuva, no bairro do Caju. O Chiquinho do Babado era diretor de barracão e me perguntou: a senhora sabe rodar? E eu disse: me dê a oportunidade que eu farei o possível. E foi assim: tirei medidas, peguei a roupa, e desfilei – contou.

Coincidência ou não, a entrada de tia Nilda deu sorte. Logo no ano que ela ingressou na Mocidade, a escola ganhou o campeonato.

– Eu fui buscar a fantasia na escola, e vim andando carregando tudo de Padre Miguel até Bangu. Meu marido me ajudou a me arrumar e me levou até o trem. Teve uma briga dentro da composição e o trem parou. Cheguei correndo na Central e ainda arrumei problema em casa, porque cheguei às 14h do dia seguinte e meu marido falando que não ia me deixar sair mais na escola. Foi o ano da “caravela”, o carnaval de 79 – Descobrimento do Brasil.

nilda6Tia Nilda quase não desfilou no ano seguinte, já que o marido não queria permitir mais que ela saísse em escola de samba. Porém, ela não iria desistir desse sonho.

– No ano seguinte, eu já tinha amizades na escola, e a Soninha, que era a porta-bandeira, foi a minha casa conversar com meu marido, e mostrou a ele que era algo sério, organizado, e ela começou a me encaixar nas viagens que a escola fazia pelo mundo e eu sempre dividia quarto com ela. Viajei o mundo com a escola na época do doutor Castor – lembrou tia Nilda.

Tia Nilda quase morreu em uma das viagens pelo mundo

Um episódio mudou a vida de tia Nilda. Em uma das viagens que a Mocidade fazia realizando seu show com os segmentos da escola, a baiana estava em cima de um carro alegórico e passou por um grave acidente.

– Nós estávamos em Paris com a escola, nos apresentando. Eu estava em cima do carro, e o acetato da baiana encostou num fio e a roupa pegou fogo. Quando eu vi a chama subindo, eu gritei e vieram bombeiros, a escola toda, rasgaram a minha roupa, me envolveram numa espécie de papel laminado e me levaram para o hospital. Eu fiquei 15 dias internada com a minha família aqui no Rio, sem saber de nada. Passei por cirurgias plásticas lá na França, e a embaixatriz queria que eu ficasse lá até o fim do tratamento, mas eu já estava agoniada querendo vir para casa. Vim para o Rio de Janeiro, direto para o hospital, onde fiquei mais 20 dias internada. Isso já faz uns 20 anos, tenho a cicatriz nas costas até hoje. Mas estou aqui, bem, viva, sem ter largado o carnaval nem mesmo após isso. Amo a minha escola. Depois da família, a Mocidade é tudo na minha vida – disse tia Nilda.

Para tia Nilda, a Mocidade é lugar de união

nilda8Tia Nilda já viveu muitas histórias na Mocidade. Hoje é a diretora da ala das baianas. Ela explicou ao CARNAVALESCO a importância que elas possuem para a escola.

– As baianas são as mães do samba. Muitas são ligadas a religiões – candoblecistas, umbandistas, católicas. A gente se respeita, todas nos unimos em oração pela nossa escola, pelos nossos componentes. Pedimos bençãos aos santos, aos orixás. É parte da história da escola a ala das baianas. Não podemos perder isso. Quem me colocou como presidente da ala foi a tia Chica, primeira baiana da escola, e isso muito me orgulha. Ela me fazia desfilar na frente, com ela. Eu passei a tomar café com ela as segundas, levava ela da casa para a quadra, e voltava com ela até em casa. Maquiava ela na avenida, ajudava a vestir. Então sinto muito orgulho e respeito por ter sido nomeada por ela como presidente da ala – disse tia Nilda.

nilda5Para ela, que é mãe, avó, com filhos já casados, ter um lugar para se divertir sem depender de ninguém para levar, nem preocupar ninguém é ótimo.

– As minhas filhas trabalham, e você quer sair, se divertir, e a escola me distrai, me anima, posso ir sozinha, porque sabem onde eu estou. É ótimo. Mesmo que a escola não faça mais tantas viagens como antes, mas ainda é a mesma festa, a mesma animação. A nossa escola une a baixada: Campo Grande, Santa Cruz, Queimados, Nova Iguaçu, São João de Meriti, e tem até gente da escola, baianas mesmo, que vem da Barra, por exemplo.

Baiana está confiante para o carnaval 2017

nilda7Tia Nilda contou ao CARNAVALESCO que está ansiosa por mais um carnaval da escola, e espera que a Mocidade leve esse título.

– Toda escola quer ganhar o carnaval. Nós também. Mas eu não gosto de soltar foguete antes da hora. Carnaval, para mim, só é decidido quando os envelopes são abertos na quarta-feira. Ali que é o babado! Você pode chegar na avenida gritando é campeã e sair de lá no décimo, no oitavo lugar. Mas o verdadeiro sambista é muito unido. A gente torce muito uns pelos outros. A nossa rivalidade é no desfile, mas no fim dele, todas as escolas se abraçam, se unem. Claro que todos querem ganhar, mas não são inimigas. Somos unidos.

nilda9As baianas tem encontro marcado na Sapucaí no próximo dia 19 de fevereiro, quando elas realizam a “lavagem da avenida”, preparando o local para o carnaval. É um descarrego feito no Sambódromo para preparar espiritualmente o palco dessa grande festa.

– Vai ter a Lavagem, uma ideia idealizada pela Célia Domingues, e que virou tradição. A Mocidade vai com o defumador, como todo ano. Cada ala de baiana, de cada escola, leva algo, como a palma, arruda, a água de cheiro. E esse ano teremos as Filhas de Gandhy. É um espetáculo, mas o mais importante é o lado religioso, que propaga uma energia muito boa na avenida. E a gente se prepara espiritualmente para isso.

Nesse espírito de união e fé, tia Nilda aproveitou para tecer elogios ao arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani Tempesta.

– O Dom Orani trouxe a igreja católica para perto de nós. Ele é um cardeal que revolucionou a religião aqui no Rio, mostrando com atitudes a tolerância que deve reinar entre todos. Ele celebra missa lá na Cidade do Samba, faz carreatas percorrendo as escolas, com a imagem de São Sebastião. É muito importante essa tolerância reinar entre as escolas, entre as religiões, entre todos nós – concluiu tia Nilda.

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