Qual é o futuro dos diretores de carnaval e harmonia

No final da década de 20, as escolas de samba davam seus primeiros passos, os desfiles começavam a ganhar corpo e surgiam figuras para ajudar em sua organização. Presente nas agremiações desde seu nascimento, o diretor de harmonia ficou tão necessário como o presidente ou o diretor de bateria. Criado com a finalidade principal de organizar a evolução dos componentes no desfile, o “harmonia” como era conhecido, acompanhou a modernização do carnaval e evoluiu dando origem ao que hoje conhecemos como diretor de carnaval.

O diretor de carnaval surgiu com a finalidade de comandar todos os setores da escola tornando-se o braço direito do presidente. Mesmo com o surgimento desse profissional que ganhou grande visibilidade depois do competente trabalho realizado por Wagner Tavares Araújo no comando da Imperatriz Leopoldinense, o diretor de harmonia não desapareceu, pelo contrário, com a divisão de tarefas dentro das agremiações ele pode se dedicar para fortalecer o canto e a dança dos componentes das escolas tornando-se o principal elo de ligação com as comunidades.

Dificilmente se imagina uma escola de samba, que pense em brigar por algo mais do que apenas participar do desfile, que não tenha em seu corpo de funcionários um diretor de carnaval e um diretor geral de harmonia extremamente qualificado. Porém, Wagner Araújo, diretor de carnaval da Imperatriz Leopoldinense, lembra que nem sempre foi assim.

– Em 1988 quando eu cheguei na Imperatriz precisava de uma novidade para fazer a escola brigar de igual para igual com outras de mais apelo como Mangueira, Mocidade, Salgueiro e Beija-Flor. Como via o desfile de escola de samba como uma grande bagunça, tive a ideia de investir na organização das alas sem perder a espontaneidade. Na época eu tomei muita pancada de uma imprensa que era quase amadora e vestia a camisa das escolas de samba. Passados mais de vinte anos todas as escolas copiaram o método que a gente desenvolveu na Imperatriz.

A importância desses profissionais é visível, pois, eles agem nos mais diferentes segmentos da escola. Todos, ou quase, tem funções administrativas de barracão, organizam o andamento da produção de fantasias e alegorias, estão presentes aos ensaios de quadra, avenida ou rua, fecham acordos com fornecedores e consumidores para fazer que as “empresas” trabalhem com competência. Tavinho Novello, que comanda a diretoria de carnaval da Grande Rio ao lado de Milton Perácio, conta como é diversificada a função exercida por eles e como é necessário ter jogo de cintura para administrar todas as situações que acontecem no dia a dia do carnaval.

– O diretor de carnaval passou a ser um coringa que age nos mais variados setores. Um exemplo disso é quando nós conversamos com o carnavalesco para fecharmos o orçamento para o desfile do próximo ano. Essa é uma situação um tanto delicada, pois, é complicado dar  um salário digno a nossos funcionários sem estourar o orçamento da escola. Durante o ano tudo aumenta de preço e temos que aumentar o salário de nossos funcionários acompanhando a inflação anual no país. Fazer isso sem estourar as contas da escola é muito difícil.

Pioneira em inovações visando a melhoria do espetáculo, a Beija-Flor há algum tempo apostou em uma fórmula diferente em relação as diretorias de carnaval e geral de harmonia. Na escola de Nilópolis os dois cargos são exercidos pela mesma pessoa. Laila decidiu unificar as funções quando viu que não conseguia ficar sem se envolver com todos os segmentos da escola. A fórmula parece ter dado certo, pois a azul e branca nilopolitana é reconhecida como dona de uma das mais fiéis comunidades e um dos mais competentes barracões.

– Aqui na Beija-Flor eu unifiquei os dois cargos e exerço as duas funções. Pode ser que outras escolas adotem esse método com o passar do tempo por que aqui está dando certo. Sou um profissional que gosta de saber exatamente tudo que acontece dentro da escola. Dou expediente no barracão e faço questão de ir a todos os ensaios da Beija-Flor, sejam os comerciais ou de comunidade. É um trabalho extremamente desgastante, dizem que seria mais fácil duas pessoas exercerem essas funções, mas por enquanto prefiro trabalhar assim.

QUAL O FUTURO

Para Wagner Araújo o profissional tem que levar a sério o que faz e não pode se deslumbrar com o reconhecimento de mídia ou o sucesso alcançado pelo trabalho realizado, afinal o profissionalismo tem que partir primeiro da própria pessoa.

– Eu vejo um futuro muito interessante para esses profissionais desde que esses mesmos se interessem por seu trabalho e não sejam acomodados. Muitos se deslumbram pelo reconhecimento da mídia ou pelos abraços que ganham nas quadras e com isso acabam por deixar a desejar em seu trabalho. Mas se o cara entender a importância que ele tem dentro da organização do desfile ele não pode concordar com esse tipo de coisa. O futuro será ainda mais brilhante depois que todos os carnavalescos compreenderem que os diretores estão ali para ajudar e não para concorrerem entre si.

Tavinho Novello vislumbra um crescimento dos profissionais do carnaval a cada ano e define a estrutura de uma escola de samba literalmente como uma grande empresa que precisa de um presidente, de um gestor, de um supervisor etc.

– O diretor de carnaval é bom quando ele sabe de tudo que acontece dentro da escola. Quando ele assume as responsabilidades de gestor se tornando o técnico da equipe. Na verdade ele é o grande responsável pelo andamento da escola na avenida. O diretor de harmonia tem funções diferentes. Ele é o grande elo de ligação entre a direção geral da escola e sua comunidade. É a peça chave que conhece cada um dos componentes que fazem o espetáculo acontecer. Por isso é que vejo um futuro cada vez maior para esses profissionais, tendo ainda mais responsabilidades. As escolas de samba são empresas responsáveis pelo produto carnaval.

Da forma que o carnaval se profissionalizou é quase um consenso que os diretores de carnaval e harmonia tenham cada vez mais espaço dentro das agremiações. Isso podia ser notado quando Cartola exercia a função de “Harmonia” na recém fundada Estação Primeira de Mangueira. Com o passar dos anos e a formação das “Super Escolas de Samba S/A” a demanda de trabalho aumentou e as funções foram divididas. Porém, é fundamental que os profissionais trabalham unidos para os resultados aparecerem.