Qual é o nosso papel nisso tudo?

Um dos mais belos versos da historia dos sambas enredo vem da lavra de compositores nossos contemporâneos a quem, um dia, nossos netos certamente se referirão de forma idêntica a que hoje nos referimos a Wilson Batista, Geraldo Pereira e alguns outros.

Refiro-me aos versos do samba “AO POVO EM FORMA DE ARTE” composto pelos formidáveis Wilson Moreira e Nei Lopes para narrar os tempos do resplandecimento da arte negra no mundo: “Há mais… de quinhentos mil anos atrás (…)”.

Pois aqui nesse nosso carnaval não faz tanto tempo assim. A história à qual queremos nos referir se passou há mais de dois mil anos atrás. Mas vamos começar por menos, por muito menos…

O primeiro momento quente da renovada Sapucaí se dará já no próximo sábado, desfile do primeiro grupo de acesso.

E aí ??? Será que já nos esquecemos do que aconteceu no ano passado?

Será que já nos esquecemos do que aconteceu no carnaval anterior ao do ano passado?

E do que aconteceu no outro carnaval, anterior ao outro que antecedeu àquele outro?

É preciso agrupar os acontecimentos para que tenhamos clareza de tudo e tanto que aconteceu desde o advento da LESGA. Não que antes dela fosse melhor, mas porque sua
chegada foi anunciada, também, para por fim às suspeitas, às dúvidas, às incertezas… às inexatidões acerca do julgamento daquele grupo.

As escolas envolvidas, os resultados obtidos, tudo é tão recente, tão desagradável, de tão triste lembrança que não convém reenumerar.

Basta refrescar citando que, no primeiro ano, quem caiu acabou não caindo, ambas as escolas de dirigentes máximos da entidade. Basta lembrar a cascata profusiva de notas dez atribuídas a uma escola tão competitiva quanto imperfeita, de forma a garantir sua subida ao pódio.

Ali, todas notas foram dez. Muitas merecidas, outras nem tanto, enquanto outras nem de perto. Nenhuma justificada, nenhuma explicada quanto àquelas notas tão baixas dadas às demais e mortais concorrentes.

E vale lembrar também – ou será que só sabemos esquecer, relevar … pior, fingir que não lembramos – a repetição da quase mesma, quase igual, quase idêntica profusão de notas dez, algumas merecidas, outras nem tanto, outras nem perto, com o cuidado _ pelo menos disto fomos merecedores dessa vez – de uma única nota 9,9, apenas esta justificada enquanto outras, aquelas mesmas notas dez construtoras de campeões, sem nenhuma, sem qualquer justificativa, por mais surpreendentes e inesperadas que tenham sido.

E o que mudou de lá para cá? O que aprendemos de lá para cá? Que atitude terá mudado de lá para cá, inclusive a nossa? Será que tudo será diferente, que a melhor, mais merecedora será vitoriosa? Será que milhares e milhares de presentes, de telespectadores, de jornalistas, de sambistas, de dirigentes serão respeitados?

Será que as notas dez que forem porventura dadas por erro ou por ma fé serão justificadas? Ou permanecerão sendo o mais eficaz instrumento demarcador da vontade imperial de quem se dá o direito superior de atribuir vitórias a quem mais lhe interesse? A mais eficaz… cortante e infalível arma para garantir resultados pretendidos?

Agora já podemos voltar à história a que nos referimos lá atrás. Não àquela de quarenta mil anos, mas àquela mais recente, mais de dois mil anos antes do primeiro desfile da Praça Onze.

Há pouco mais de duas semanas um jovem jornalista do diário O DIA apontava uma determinada escola como vencedora pré definida do carnaval. O jornalista em causa só fazia ali reproduzir aquilo que todo o mundo do carnaval ouvia falar. Era assim nos ensaios técnicos da Sapucaí, nas rodas da Cidade do Samba, em cada um dos barracões de cada uma das escolas de todos os grupos, principalmente o do primeiro acesso.

O presidente da escola e presidente da Liga correspondente alegou que, como tal, representava os interesses de todas as escolas. Sim, representar representa! Estatutariamente escrito e registrado, disso ninguém duvida. O que se quer saber é se o presidente, além de REPRESENTAR o interesse de todas as escolas, DEFENDE o interesse de todas as escolas.

A ser verdadeira a assertiva do jovem jornalista, a prevalecer o que era dito em todas as rádios-corredores do mundo do samba, o presidente estaria apenas REPRESENTANDO o interesse de todas as escolas, mas efetivamente DEFENDENDO os interesses de SUA escola.

O quanto de verdade haverá nisso tudo?, certamente saberemos no dia do desfile e no dia da apuração.

Certamente quatro ou cinco escolas, tal como no ano anterior, estarão fortíssimas e certamente merecerão muitas notas dez. Se a justiça prevalecer a vencedora superará sua maior rival por um ou dois décimos, ou quem sabe em um desempate numa escala de notas agora espremidas entre a nota nove e a nota dez.

Na outra hipótese a vencedora será “distinguida” com aquela velha profusão de notas e dez, não justificadas por quem as deu, enquanto seus guerreiros rivais serão contemplados com uma ou outra notinha máxima.

Na maior cara de pau!

Em meio a esse Ti-Ti-Ti (salve TITITI!), o presidente vem a público declarar que seu município destinou polpuda ajuda à escola, além de outro tanto obtido junto à cidade homenageada, tornando assim a escola competitiva como nunca.
 
Tanto quanto isto é verdade, é verdade também que a escola fez acertados investimentos em sua equipe de profissionais de carnaval, tornando-se tão competitiva quanto as mais qualificadas do grupo.

Fez bom ensaio técnico, tem enredo muito fértil em possibilidades considerando o carnavalesco que tem e tem um samba dos mais insinuantes com um ótimo último refrão.

E aí? E agora? E se a escola fizer o melhor dos desfiles, merecer o título e afinal conquistá-lo? Quem acreditará na lisura do julgamento à luz da fama dos resultados passados, da reputação da entidade e do Ti-Ti-Ti presente?

Que acontecerá se a escola tirar dez em tudo, ou nove ponto nove em um ou dois quesitos, sendo todas as notas obtidas junto a julgadores escolhidos pela entidade por ele presidida e de tão triste quanto curta história?

Ou será que a escola vai atravessar toda a apuração corpo-a-corpo, dez a dez, nove a nove, oito a oito com uma, duas ou três concorrentes para afinal conquistar um ou dois vitoriosos décimos a mais?

Há mais de dois mil anos um jovem romano se destacava fazendo abrir-se diante de si o mais promissor futuro: era Julio Cesar. E sua bela mulher objeto da cobiça masculina. Um dia na ausência do futuro Imperador, a bela Pompéia, mesmo sem saber, foi procurada por um ardoroso e corajoso admirador que sequer chegou a tocá-la ou mesmo dela se aproximar antes de ser detido pela guarda imperial.

E foi assim que César, ao saber do fato, e mesmo sem qualquer prova concreta contra sua mulher, diante de tanto ti-ti-ti nas ruas romanas, optou pela separação definitiva. Entendia ali que a mulher de um homem como ele tinha que estar acima de suspeitas. Nascia ali a frase que atravessaria centúrias e milênios.

Assim é o carnaval ao imitar a vida, a história e as relações humanas.
 
O presidente bem que poderia atenuar a onda de suspeitas apresentando um a um seus novos julgadores (40%). Aproveitar a ocasião e apresentar todos os outros, dizer de todos de onde vieram, quais suas qualificações específicas, quem os indicou, que critérios presidiram suas indicações. Propor uma reunião aberta, cordial, franca com os carnavalescos, diretores de carnaval… um grande encontro saneador, marco de uma nova ordem para si próprio e para a entidade que preside.

Mas como não foi assim, como foi uma mera comunicação “a quem interessar possa”, a dúvida povoa a cabeça não só do jovem jornalista de O DIA, mas também a de todo o mundo do samba.

À mulher de Cesar não basta ser honesta, tem que parecer honesta. A história da LESGA, com seu presidente à frente, deixa aparecer dúvidas quanto a este estar apenas REPRESENTANDO os interesses das outras escolas e de estar efetivamente DEFENDENDO interesses apenas de sua escola.

Deixa aparecer dúvidas de que, se no grupo especial tem “bola da vez” para cair, no grupo de acesso tem “bola da vez” para ganhar.

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Em tempo: após a última visita aos barracões (não vi Tijuca e Mangueira), somando os ensaios técnicos, a qualidade do samba, o estágio e qualidade do barracão e enredo, e depois dividindo o total pelos ítens, tirando a média, o melhor resultado da qualidade do pré carnaval é da Imperatriz Leopoldinense, (na minha modestíssima opinião!).
 

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