Que carnaval, hein?

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Até a minha crônica de poucos dias atrás eu supunha que a maior atração deste carnaval seria a disputa Beija-Flor X Tijuca na captura da emoção das arquibancadas: uma com Roberto Carlos e a outra com as inimagináveis surpresas escondidas no escuro de uma certa sala
de cinema.

Doce ilusão. Até parece que os deuses do carnaval toleram que se faça previsões com tanta antecedência.
Olha! Eu não duvido nada que tenha gente aí torcendo por um novo incêndio que beneficie sua escola. Beneficie emocionalmente, claro! Esta semana pouquíssimo ouvi falar no Salgueiro, Vila, Mocidade; nem na Mangueira ou em qualquer outra. Já estou achando até que
ninguém mais virá buscar minha alma.

Ninguém mais, por enquanto, imagina ou fica supondo se vai rolar a química do povo com seu rei; ou de quanto a Tijuca será capaz de corresponder à expectativa que criou. O que se fica supondo agora, imaginando é o quanto a Portela, a Ilha e a Grande Rio serão capazes
de arrancar em solidariedade e emoção do público.

Não que eu acredite que vá ser exatamente assim. As escolas "escapadas" continuam fazendo seu dever de casa. Mas do ponto de vista da Portela estamos assistindo a algo absolutamente inédito e rico na tão rica história da escola. Pode ser que esteja enganado, mas não me lembro de ter visto, ouvido, lido, percebido qualquer restrição da Ilha e Grande Rio em relação ao fato de estarem excluídas do julgamento.

Na verdade o incêndio impressionante gerou em relação a cada uma das escolas um diferente tipo de impacto. Na Grande Rio uma fortíssima reação de sua direção e de seus componentes pelo o fato de ter seu barracão e seu atelier completamente arrasados, fez nascer no seio da escola um novo símbolo: a Fênix, no sentido exato… grego, mitológico da palavra.

A Ilha, salvada da perda total, viveu naquele momento imediato a mais perturbadora dualidade. Ao receber a notícia da impossibilidade de rebaixamento livrou-se do absurdo fantasma que acompanha as escolas recém vindas do grupo de acesso. Escapou por pouco quando era
a "bola da vez", passando raspando, mesmo tendo feito um desfile de alta qualidade e de ter sido julgada com rigor desmedido.

Por outro lado o sentido lamento de seus componentes por verem atingido todo o projeto do belo carnaval preparado, já quase pronto para entrar na pista, um projeto no qual todos tanto acreditavam.

Caberá à Ilha, portanto, não renascer das cinzas como a Fênix, mas passar ao largo delas reafirmando sua condição de escola com lugar mais que marcado neste carnaval cada vez mais anti-ilha.

Mais do que em toda sua bela, colorida e carnavalesca história, será hora de "…brindar a Ilha"; mais do que nunca será hora de celebrar a vida.

Isto, celebrar a vida: isto que a Ilha vai fazer. Ela que sempre fez isto, não vai ser agora que fará diferente.

E quanto à Portela: Fênix ou Águia?

Não, nada de Fênix. Para quê se podemos voar mais alto ainda.

Já com a Portela a reação foi ainda diferente. Como disse lá em cima, a escola vive um capítulo inédito de toda sua marcante trajetória. Nunca se viu na história do carnaval, das escolas de samba, tamanha reação de componentes e torcedores contra uma decisão que atingisse suas cores. Um barulho ensurdecedor na web.

Se não se pode falar em unanimidade, pode se falar na energia, auto-confiança e auto-estima demonstradas por enorme contingente de manifestantes, querendo por tudo submeter-se a julgamento, mesmo mutilada, mesmo sabendo que grande parte de sua torcida estará ausente em razão do remanejamento.

A emoção tomou conta do ensaio. Não creio que os aplausos a seu Presidente, durante o ensaio na quadra, fossem de aprovação por esta
ou aquela atitude.

Para mim naquele momento os Portelenses não estavam a aprovar ou desaprovar qualquer outra coisa. Considero, isto sim, que ali os componentes aplaudiram muito mais a si próprios pela superação que precisarão ter e demonstrar em contraposição às perdas e danos do incêndio.

Aplaudiram "até" o Presidente, e não "o" Presidente, afinal caberá a ele ser o "comandante" dessa superação e da afirmação de toda nossa força e de toda nossa tradição.

Bem, agora ainda falta pouco menos de um mês. Acho que está de bom tamanho. Resta saber quem será o vencedor, se é que se pode decifrar o que significa "vencedor" neste carnaval tão incensado pelos deuses.

Tenho para mim que a Grande Rio terá a oportunidade de viver seu maior momento, ainda que nem esteja competindo. Ela que tanto tem
batido na trave, que tem derrotado a si mesmo. Logo ela que tem o enredo que, no papel, não me agrada, que tem um samba que ainda
não me seduziu; ela que arregimentou toda uma equipe afiadíssima além de ter apostado no carnavalesco "Junior" que melhor aproveitou o
"bonde" para se tornar "top" entre seus pares.

Mas, nem tanto por isto; por mais ainda, muito… muito mais além disto.

A escola tem a oportunidade de reafirmar uma nova imagem, uma outra cara. A imagem de escola de celebridades, de artistas, que certamente lhe faz colher frutos certamente traz alguma antipatia pela ação de alguns de seus estrepitosos membros, muito mais interessados em "representar na escola" do que "representar a escola".

Agora, por todo seu passado recente aliado ao esforço que fará para elevar o vôo da Fênix, certamente e escola deixará uma outra marca. Agora de superação, de garra e da força de sua gente humilde e trabalhadora da baixada fluminense, uma marca que ninguém mais esquecerá.

A Grande Rio virou cinzas. Da lembrança daquele incêndio fica para mim a imagem da expressão de seu dirigente,repito, mal conseguindo balbuciar uma só frase toda, incrédulo olhando a fumaça, buscando forças para passar para sua gente algo que assim imagino: "fomos arrasados, não sobrou nada, estamos fora da disputa, então vamos desfilar como se fosse a última vez, como se fôssemos morrer na
quarta-feira, esta sim, de cinzas".

E para nós que tanto sonhamos, fica a esperança de que, afinal, os deuses do carnaval tenham castigado essas escolas na sublime conspiração para que o grande vencedor seja o próprio carnaval. Que conspirem para que, disto, daquele fogaréu, surjam e ressurjam belezas ocultas e ocultadas que sejam mais belas ainda que as belezas que já não estão assim tão belas.

Quem sabe um carnaval ajustado. Talvez gastar menos, ou gastar mais em criação do que em material, investir mais no elemento humano, exemplo do que passamos a ver nos ensaios técnicos.
Um carnaval que valorize a arte humana, o positivo, os acertos. Muito mais do que caçar erros, falhas humanas para escolher campeões. Quem sabe surgirão belezas que valorizem a alegria do carnaval, a ancestralidade do samba, a cadência das baterias, o gingado dos
passistas, a graça das porta-bandeiras e seus pares e a magia das baianas.

Uma beleza ressurgente que nos emocione através da valorização da alma de todo um povo, do reconhecimento de quem faz a festa na pista…

De quem faz a festa maior naquelas arquibancadas pegando fogo.

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