Quem é quem neste carnaval?

Por que no Carnaval e nas escolas de samba?
Estamos vivendo já há algum tempo uma invasão desenfreada de elementos que pensam ter descoberto dentro do carnaval, e mais particularmente, no seio de nossas escolas de samba, uma maneira de estarem na mídia positiva de nossa sociedade e em alguns casos até ganharem algum dinheiro.

Carnaval romântico
Nos tempos dos anos 30, 40 e 50, vivemos o carnaval romântico, quando famílias e amigos reuniam-se para discutir sobre o que fosse melhor para as suas recém criadas agremiações, já naquela época fazia-se carnaval, onde ainda se tinha amor pela bandeira, pela camisa e até mesmo por suas comunidades que viviam dentro de seus bairros, os blocos, escolas de samba e outros movimentos voltados para esse fim eram frequentados e dirigidos tão somente por sambistas, pois, ali para a sociedade burguesa e toda a elite e para as autoridades constituídas se reuniam os negros e os que eles consideravam ser os marginais, ou seja, pessoas desqualificadas para estarem junto aos seus convívios diários.

Carnaval da abertura
A partir dos anos 60 até meado dos anos 80, quando se dá a abertura para que pudessem chegar aos cargos de direção dentro de uma agremiação que respirava carnaval, ainda com o amor pelas cores de suas bandeiras, para alguns frequentadores, colaboradores e amigos, é que começam a surgir profissionais de várias áreas da sociedade que marginalizavam os verdadeiros sambistas, a começar pelos intregrantes das Belas Artes que trouxeram uma nova roupagem dando glamour ao que já era belo, pois, o carnaval já existia e não foram eles que o inventaram. Surgiram então os patronos, os doutores e os demais artistas, porém, nem todos tinham como intenção primeira o carnaval, e muito menos, tão somente as nossas escolas de samba, começa aí uma revolução dentro do mundo do samba.

A profissionalização dentro do carnaval
Foram nos anos 80 e 90 que começaram de fato as várias contratações daqueles que eram no momento, considerados os melhores naquilo que faziam dentro de uma escola de samba, deixa-se a partir daí de lado a camisa, aquela que até então não seria trocada por nada no mundo, começam as substituições dos sambistas pelos amigos e até mesmo pelos indicados que mesmo não tendo passado por nenhuma base dentro de uma instituição sambística começam a assumir cargos e/ou funções de direção ou chefia. O que no meu entender foi mais agressivo nessa profissionalização que se dá dentro das alas de compositores onde os verdadeiros poetas aqueles que escreviam com inspiração, foram deixados de lado e como aconteceu com os (as) nossos (as) velhas-guardas foram taxados de ultrapassados.

Carnaval a mega indústria
É hoje sem dúvida uma mega indústria o nosso carnaval, esse que a partir do ano de 2000 torna-se essa potência em todas as suas esferas, e transforma as nossas escolas de samba em pequenas, médias e grandes empresas, tal transformação leva ao que estamos assistindo neste momento, quando ser dirigente de uma escola de samba para alguns vale até mesmo renunciar aos princípios básicos e éticos dentro de uma falida sociedade de humanos.

Ontem ser sambista era status de quem além de viver dentro do samba em qualquer segmento, teria o futuro sambista antes de qualquer coisa, que dizer no pé sambando de fato (dançar o samba), para ser um compositor teria o proposto que após ser apresentado à mesa perante aqueles mestres poetas escrever algo com conteúdo poético e rítmico, quando o tema lhe era passado na hora, teria o candidato a compositor que além de escrever a poesia, dar a mesma uma linha melódica cantando-a perante todos os presentes. Existia, ainda, todo um ritual na apresentação e os candidatos teriam também que estarem vestidos a caráter como acontecia na época (os calçados próprios usados para ocasião, calças de linho, camisas ou camisetas de linho, seda ou outro tecido especial brancos e se possível nas cores da escola).

Fugindo de tudo aquilo que nós aprendemos com os nossos maravilhosos mestres, estamos assistindo o inverso, ou seja, primeiramente os que hoje se intitulam sambistas vêm como turistas para dentro de uma agremiação que cultua a Arte e a Cultura do carnaval para só depois de buscar em estudos universitários, cursos técnicos e pesquisas junto aos que lá encontram, e até mesmo na moderna internet o que pensam estar dando o direito de serem sambistas de fato. O sambista não tem cor, não tem formação acadêmica, e nem posição específica na sociedade, o sambista sabe além das coisas do samba, e SAMBAR é o que não estamos vendo acontecer, pois, qualquer um hoje se diz sambista e o pior de tudo estão assumindo de vez o lugar que nos fora deixado como legado.

Escolas de samba que ontem foram tidas como instituições filantrópicas, hoje após terem sido transformadas em verdadeiras empresas, em alguns casos passaram a ter donos e muitos daqueles que a administram o fazem como se fossem suas empresas privadas. E não são, pois, essas empresas para que possam cumprir os seus objetivos que vão além de desenvolverem e colocarem os seus carnavais na pista oficial de desfiles, e cumprirem os seus vários projetos sociais, continuam a depender todas de verbas públicas, advindas das subvenções e os projetos que precisam ser aprovados junto as estatais, através de leis de incentivos fiscais.

Como se vê, mesmo com a chegada da modernidade para nós do mundo do samba ainda temos que aceitam a máxima “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Se tudo isso acontece é simplesmente porque os verdadeiros artistas dessa magnífica festa foram e continuam sendo os submissos, que se contentam com o pouco que sobra do montante de toda a arrecadação dessa enriquecedora bilheteria.

Conseguiram retirar as velhas-guardas da frente de suas escolas, acabaram com as tradicionais alas de compositores, estão descaracterizando as baterias, não temos mais os verdadeiros passistas, as nossas mães baianas não mais são respeitadas e agora estão tentando a todo e qualquer custo esvaziar as nossas escolas de samba mirins. Será que dentro do mega espetáculo não cabe mais o sambista, sim, pergunto porque se depois de tudo que os "inventores" do carnaval que já existem estão causando, insistem eles em acabar com aquelas que são a formação para a manutenção do futuro do verdadeiro carnaval, vamos repensar juntos este carnaval, pois, só assim vamos conseguir salvá-lo, se nos calarmos com toda certeza nós sambistas estamos fadados ao mesmo destino reservado aos VENCIDOS. AXÉ.

Tenho o conhecimento que lá atrás, mesmo no momento romântico e amador do carnaval já se comprava o passe de alguém não com os contratos assinados, porém, mesmo apalavrados naquela época eles eram obedecidos e tinham valor.

VAMOS MODERNIZAR, SÓ NÃO PODEMOS ESQUECER DE PRESERVAR AS NOSSAS TRADIÇÕES.