Quem é você, carnaval?

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O Bigode não quer nem saber. Quando vira o mês de fevereiro o bicho entra em mutação. Os olhos cintilam, fica atento como a ave que rapina uma presa futura.

Bigode é o porteiro do meu prédio, que adora carnaval como ninguém. Já foi passista da
Aprendizes de Lucas e da Unidos da Capela mas não gosta mais de escolas de samba. Não
é que não goste, com a maturidade passou a apreciar outras possibilidades naqueles três dias. Virou rei do Terreirão do Samba.

É só o carnaval chegar que o velho passista some na pista.

Mas há muita gente que quer saber sobre carnaval. Que história é essa, essa maluquice toda, como terá começado tudo isto?

Acho que não há um só folião carioca que não tenha, pelo menos uma vez na vida, ouvido a minuciosa palestra de Dr. Hiran Araújo, diretor cultural da LIESA, sobre as origens da folia.
Ou seja, a sua visão, resultado de suas pesquisas sobre a gênese do Carnaval.

Segundo tais estudos a coisa vem de muito longe, cronológica e geograficamente. Nos fazem viajar até, no mínimo, 10 mil anos atrás, a.C.;
mais antigo ainda que Raul Seixas nascido nos últimos 10 mil.

Refere-se a seres com rostos mascarados e corpos pintados e adornados a promover rituais de verão destinados a afastar demônios da má colheita. A reclusão e o frio dos invernos ficavam no esquecimento.

Um pouco mais para cá no tempo, ou menos para lá, surgem as homenagens à deusa Isis e ao touro Ápis entre os egípcios; entre os teutões a deusa Herta e as bacanais, saturnais e lupercais entre gregos e romanos.

Sempre rituais e celebrações decorrentes de ciclos naturais. Vinculados à agricultura e pastoreio.

Com a evolução e normatização da convivência humana, regras e leis, a libertinagem em maior ou menor grau passaram a representar momentos de fuga em determinados momentos de menor observância de tais regramentos. Assim foi entre egípcios e hebreus e depois entre gregos e romanos.

Mas como eram essas festas? Dr. Hiran explica e eu faço o resumo:

Saturnais homenageavam o deus Saturno, ele que ensinara a agricultura aos romanos. Comemoravam a volta ao trabalho no campo.
Escravos eram alforriados, escolas e tribunais não funcionavam e tudo era canto e dança pelas ruas de Roma em três dias de "bundalelê" e
"líberôgeral".

Nos cortejos inaugurais do período havia grandes carros imitando navios,os CARRUM NOVALIS, conduzindo homens nus dançando … digamos… obscenamente. Daí resultaria a expressão italiana "CARNEVALE".

O pesquisador Osmar Frazão é citado por Hiran ao informar que esse ritual seria adotado pelo Cristianismo com exclusão dos CARROS NOVALIS e suas danças obscenas, deixado ficar, entretanto, aquele sentido de igualdade ou inversão social, admitindo-se…huummm!, digamos, algum grau de licenciosidade. Na idade média já se notava eventos extravagantes como corrida de corcundas e guerra de ovos, a noite sob luz de velas.

Ainda em Roma, depois das Saturnais chegava o tempo das Lupercais. Assim com um jeitão de …digamos… purificação. Purificação e celebração da fecundidade… fecundidade da terra, bem claro. Louvavam o rei Pã cujos sacerdotes, banhados em sangue de cabra, depois banhados em leite e cobertos por capas de bode, munidos de correia de couro perseguiam romanos em disparada pelas ruas repletas.

As bacanais aumentavam o teor de licenciosidade. Celebravam o retorno do sol, a chegada da primavera. E aí, já aparecia a figura de
Momo (daquele jeito como a Ilha contou inesquecivelmente: "você pensa que esse vinho é água").

Outro pesquisador, Felipe Ferreira, Coordenador do Centro de Referência do Carnaval do Instituto de Artes da UERJ, já vê a origem da festa por um outro enfoque.

Segundo Felipe a origem dessa versão, a que chama milenarista, está baseada no princípio de que os sinais definidores do carnaval são a inversão de valores e status social, exageros, caricaturas além de momentos de loucura. E prossegue lembrando que tais sinais podem
estar presentes em qualquer momento da história da humanidade. Em qualquer lugar onde tenha havido farra, exagero, bebedeira, descontrole e inversão.

E assim as Saturnais, Lupercais, e Bacanais do universo greco-romano adquiriram status de origem da festa carnavalesca. A descrição dessas celebrações, orgias, inversões e exageros passaram a significar provas das festas carnavalescas.

Avança em sua argumentação. Assim sendo, qualquer manifestação que tenha tais elementos presentes poderá, por isso, ser definida como carnaval. Exemplifica os bailes funk e festas juninas do nordeste. E opõe a esses exemplos duas das mais expressivas manifestações carnavalescas atuais em que tais elementos estão ausentes: o organizadíssimo desfile das escolas de samba cariocas e o atual carnaval da orla de Salvador.

Para o professor Felipe Ferreira este carnaval que está aí, esta programação de eventos para um período certo e previamente conhecido,
é produto da sociedade ocidental cristã. Foi esta sociedade que estabeleceu este período certo de penitências (quaresma), antes do
período do calvário do Cristo (semana santa). A igreja marca então a 4ª feira como início das privações. O adeus à carne, o carne vale… o carnaval.

E o quê que o Bigode tem com isto?

O Bigode nada, o negócio dele é outro… o Baco dele é outro, suponho. Mas nós temos.

As duas correntes de pensamento aqui enunciadas estarão presentes e expostas neste carnaval. Serão desenvolvidas em enredos de escolas de grupos diferentes representando uma atração a mais para quem é chegado a este tipo de viagem.

A Mocidade contará a "Fábula do Divino Semeador" passeando pelo tema da aventura humana em busca da subsistência, das plantações
e, consequentemente, das celebrações e comemorações das colheitas. Ou seja, aqueles carnavais milenares do Dr. Hiran até os dias de hoje quando Pã, Saturno, Baco darão passagem a Fernando Pinto, deus mais moderno, senhor de alguns de nossos melhores e mais vibrantes carnavais.

"Vou voltar, um dia ao espaço sideral

E reviver o meu ziriguidum, em alto astral"

No acesso, a valente Império da Tijuca, rainha da Muda, trará o enredo "O Mundo em Carnaval" em que mostrará as diferentes manifestações em torno do mundo nas mais diversas condições geográficas e climáticas, não sem antes, bem no comecinho do desfile, contar aquela história a que se refere o professor Felipe Ferreira, tal como consta da sinopse, logo no primeiro setor sob título bastante sugestivo e esclarecedor:

"1º SETOR
O COMBATE ENTRE O CARNAVAL E A QUARESMA"

De forma bastante rudimentar, na Idade Média européia, as pessoas já se divertiam pelas ruas no período carnavalesco, incentivadas a partir da instituição indireta do Carnaval pela Igreja Católica, a qual determinou à população a proibição dos prazeres mundanos durante quarenta dias, a quaresma, em referência aos dias de penitência de Cristo no deserto, para dedicarem-se somente à reflexão espiritual.

Antes de iniciar essa difícil abstinência aos deleites proporcionados ao corpo, o povo começou a realizar festas em que imperavam a comilança, a bebedeira, as cantorias e outros divertimentos considerados pecaminosos. Mãos em movimento, partilhando, dividindo e criando coletivamente o brincar carnavalesco".

Para quem gosta, como já disse, uma bela atração a mais. De minha parte, não vejo a hora.

Quando ia enviar o texto para postagem encontrei o Bigode na porta do elevador, já dando um "trato" em seu "quepe" da marinha de tantos carnavais. Na outra mão levava um cordão feminino de odalisca que ele ia oferecer para a morena que é balconista da loja de rações ao
lado.

Aproveitei e perguntei a ele:

– E aí Bigode, quê que tu acha? O carnaval é milenar ou secular? Quem está com a verdade. Dr. Hiran ou o Professor Felipe. Perguntar, bem que eu perguntei, mas Bigode nem quis ouvir direito…
Referências bibliográficas:

Memória do Carnaval, Riotur, Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1991.

Revista do Centro Cultural Cartola: Samba em Revista. Agosto/2009, ano I,nº 2. Artigo: Carnaval Como Fenômeno Social (pg. 53), Felipe
Ferreira.

Livros sugeridos:

Araujo, Hiran. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2000. Ferreira, Felipe. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. Ferreira, Felipe. Inventando Carnavais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

e-mail para contatos mais longos: lcciata2@hotmail.com

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