Quem viu a Grande Rio chorar, agora vai ver sorrir

'Quem me viu chorar vai me ver sorrir'. Parece clichê, mas é o verso que representa com maior fidelidade o sentimento de superação da Acadêmicos do Grande Rio. Na final de samba-enredo disputada na madrugada deste domingo na quadra da escola, em Duque de Caxias, a obra de Edispuma, Licinho Jr, Foca e Marcelinho Santos conquistou o coração da comunidade caxiense, sintetizando o que a Tricolor deverá mostrar na Avenida em 2012. Todos garantem que o trauma do incêndio ocorrido no último mês de fevereiro, destruindo o carnaval que a Grande Rio levaria para a Sapucaí, foi superado, mas a possibilidade da vitória, algo muito concreto antes de tudo virar cinzas, é um objetivo que a agremiação perseguirá com ainda mais afinco no Carnaval 2012.

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Mesmo tentando desvencilhar-se do trágico episódio do início do ano, a história desse samba da Grande Rio começa justamente no dia 14 de fevereiro de 2011, conforme conta o compositor Foca, um dos autores da obra.


 
– O refrão desse samba começou a ser construído ainda antes do carnaval do ano passado. Estava em casa, sentado, chorando e assistindo a escola pegar fogo na televisão. Foi aí que veio esse pensamento: 'Quem me viu chorar vai me sorrir'. Foi perfeito. O samba foi aceito pelo povo e quando acontece isso a escola vai bem – afirmou ele, que juntamente com o restante da parceria é bicampeão na Grande Rio – 2011, 2012.

Autor do enredo da Grande Rio, que contará as histórias de superação, o carnavalesco Cahê Rodrigues aprovou a escolha da diretoria.
 
– O samba é perfeito. Passa a imagem que o enredo propôs aos compositores desde o início. O refrão diz tudo aquilo que nós precisamos. Qualquer pessoa que tenha tido que enfrentar algum momento de dificuldade teve que chorar primeiro para depois sorrir. O resto do samba foi construído em cima do que está sendo feito no barracão. Os compositores foram felizes, seguiram a sequência da sinopse. Outros sambas também estiveram próximos da vitória, mas este tem mais conteúdo, caiu como uma luva no nosso projeto – afirmou Cahê, elogiando também os outros finalistas e até os que não chegaram à decisão.

A parceria, campeã também no ano passado com um bom samba sobre Florianópolis, foi lembrada pelo presidente Helinho de Oliveira. Ele revelou que pediu aos céus tamanha inspiração para o samba de 2012.
 
– Quando vi o meu barracão pegar fogo, as lágrimas escorriam pelo rosto não só por estar perdendo um desfile belíssimo, mas por saber, horas depois, que o meu samba não seria julgado. Sabia que tinha um belo samba e ele poderia me dar o campeonato. Pedi para Deus que me desse novamente o samba que eu sempre quis. O meu filho pediu para a parceria fazer outro samba como o que eles fizeram no ano passado e parece que papai do céu e os deuses dos compositores iluminaram mais uma vez a cabeça deles. Desde o princípio vimos que era um grande samba. Agora é fazer um grande desfile para ser campeão na Marquês de Sapucaí.

Outro que não escondeu a felicidade foi o diretor de carnaval Tavinho Novello. Ele, assim como o carnavalesco Cahê Rodrigues, pediu que os segmentos da Grande Rio se manifestassem, não escondessem a preferência. Segundo Tavinho, o pedido fez com que a aclamação do samba campeão fosse inevitável.
 
– Foi uma disputa muito acirrada. É difícil ver isso acontecer atualmente. Sem desmerecer os outros concorrentes, este samba nos serve de uma maneira perfeita. Seremos a última escola a desfilar na segunda-feira de carnaval e todos já estarão um pouco cansados de ver carnaval. Precisamos de um samba que mexa com as pessoas, que emocione. É uma letra bonita, uma melodia gostosa e também é empolgante. O refrão do samba retrata exatamente aquilo que nós passamos. Já começaram a falar um monte de besteira por aí, mas estou sentindo que chegou a nossa hora. A hora de brincar, cantar e, porque não, ser campeão.

A noite

Depois de um show com a bateria Invocada comandada pelo mestre Ciça, o intérprete Wantuir e o grupo show de passistas da escola – que arrancou suspiros do público ao encenar diversas canções da mpb cantadas por Émerson Dias, um dos integrantes do carro de som – a atriz e apresentadora Ana Furtado foi coroada rainha de bateria da Grande Rio. Ela, que já desfila a alguns anos na Tricolor de Caxias, disse estar honrada com o convite.
 
– Fiquei noites sem dormir, ansiosa com esse momento e agora me sinto a pessoa mais feliz do mundo. A felicidade é verdadeira e do fundo do meu coração. Agradeço ao Jayder, ao Leandrinho, ao Helinho e a todos que sempre me trataram muito bem aqui na Grande Rio. A escola mora no meu coração. Tenho certeza que vamos chegar ao carnaval com muitas possibilidades de sermos campeões.
 
Além de Ana, o tradicional time de famosos da escola esteve presente. David Brazil, Amin Khader, Felipe Dylon, Marcos Paulo, Boninho e o lutador de vale tudo Rodrigo Minotauro, que chegou a tocar tamborim e surdo, são alguns nomes que prestigiaram o evento. Como de costume também nas finais da Grande Rio, a quadra recebeu um grande público, que só arredou pé bem depois que o resultado oficial saiu, por volta das 5h30.
 
O primeiro samba a subir no palco foi da famosa dupla de compositores Paulo Onça e Chico da Silva, autores de diversos clássicos da mpb e de alguns sambas-enredo, como o do Salgueiro de 1998. E foi justamente por causa da importância de ambos que o samba deve ter alcançado a final, pelo menos foi essa a impressão que passou. A obra, que contou com grande torcida uniformizada com a camisa da seleção brasileira e o número 9 às costas, em alusão à Ronaldo Fenômeno, um dos citados no enredo da escola, deixou a desejar tanto em letra quanto em melodia. Faltou poesia à dupla e uma melodia mais adequada aos padrões do samba-enredo atual. A apresentação não empolgou os segmentos da escola.
 
Em seguida, o samba de Beto Mascarenhas, JL Escafura, Marinho, Cesinha e Zezinho subiu ao palco. A obra impressionou pela beleza da letra e pela melodia muito bem construída, exceto no verso de preparação de entrada do refrão principal, neste detalhe faltou um cuidado maior aos compositores. A apresentação arrancou aplausos dos segmentos, que cantaram o belo samba. A passagem da parceria pelo palco serviu também para elevar o nível da noite e esquentar de vez a disputa. Apesar disso, a torcida, em bom número, cantou pouco. Outro destaque fica por conta da participação do cantor de toadas David Assayag, que deu o grito de guerra no início da apresentação.

David é deficiente visual e será mencionado no enredo da Grande Rio. Ele revelou o que espera da estreia na Marquês de Sapucaí
 
– Estou orgulhosos e feliz de participar desse grande desfile da Grande Rio. A emoção só vai dar para saber no dia, mas hoje já estou bem nervosos(risos) – afirmou o cantor do boi caprichoso, que desfilará no alto de um tripé. A participação de David no segundo samba da noite acabou irritando o compositor Paulo Onça, que ameaçou subir ao palco para reclamar, mas rapidamente desistiu da ideia.

O clímax da noite ainda estava por vir. Nem mesmo o intérprete Ito Melodia havia começado a cantar o samba da parceria campeã, já era possível ouvir em alto e bom som o coro da torcida e da comunidade, que adotou verdadeiramente a obra. Depois que a apresentação começou oficialmente, foi um baile! Bateria, passistas, baianas, membros da diretoria, o intérprete Wantuir, a porta-bandeira Squel, todos sabiam na ponta da língua o samba, que apresenta melodia bem fluente e uma letra que conquista o mais sóbrio folião. Uma apresentação inesquecível, assim pode ser definida a passagem da parceria pelo palco.

O quarto samba da noite também mostrou qualidade para estar na final da Grande Rio. Composta por nomes de peso como Marcio das Camisas e Moisés Santiago, e ainda Mariano Araújo e Isaias, a obra apresentou melodia bem característica dos sambas atuais e a letra dentro do contexto do enredo, mas após a passagem do terceiro samba da noite pelo palco, a obra que fechou a disputa pareceu ter sido ofuscada, mesmo com a sempre ótima apresentação do cantor Gilsinho. Os segmentos reagiram pouco ao samba, assim como o resto da quadra.

Na hora do resultado nenhuma dúvida. Jayder Soares mostrou convicção nas palavras e pôde ver a quadra explodir de alegria com o anúncio do samba campeão. O palco foi invadido e o samba da Grande Rio de 2012 foi cantado por, pelo menos, mais uma hora.

 

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