Resumo das crônicas sobre a Mocidade no livro As Três Irmãs

Briga envolvendo Elza Soares


Fábio Fabato


No ano de 1975 – “O mundo Fantástico do Uirapuru” – a bateria de Mestre André e o carro de som não se entendiam e o samba “atravessou”. Na época, os puxadores eram a grande Elza Soares e Ney Vianna. Quando houve o atravessamento, Remba, a primeira porta-bandeira da história da Mocidade (que, na ocasião, desfilava como componente comum) achou que a responsável pela falha fosse Elza. Resultado: foi até o carro de som e, dirigindo-se para o alto, onde se encontravam os cantores, disparou. aos berros: “Filha da puta, desce daí, você está atravessando o samba, porra!”. Elza conta que ao notar que Remba dirigia os palavrões a ela, se enfureceu: “É mais fácil eu ser atropelada por um caminhão ao atravessar a pista do que atravessar um samba”.


Quando André fez o sinal da paradinha, veio o repique e, depois, quando a bateria atacou com toda a força, houve o desencontro. Ninguém mais se entendeu. Dentro da mesma ala o samba era cantado em diferentes estrofes. Assistindo àquela confusão em pleno desfile, Remba ficou mais louca do que nunca. Foi acompanhando o cortejo bem ao lado do carro de som, fitando Elza e mandando ver nos palavrões: “Filha da Puta! Filha da Puta! Filha da Puta!”. Mesmo com o microfone em punho, a cantora respondia por gestos aos xingamentos. O clima de “te pego lá fora” ficou evidente à medida que a apresentação se encaminhava para o fim. A turma do “deixa disso” já ficou de sobreaviso porque, certamente, o show da Mocidade na Avenida seria seguido de um novo e impensável espetáculo: o engalfinhar da ex-porta-bandeira enfezada com uma das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira.


Remba diz que correu atrás de Elza até a Estação de Trem Central do Brasil. Já Elza diz que foi ela quem correu atrás de Remba. Uma mais valente que a outra. Nunca confirmaram, porém, se a briga aconteceu de verdade. As pazes só vieram 35 anos depois, em 2010, durante a festa de lançamento da Revista da Mocidade daquele carnaval. Depois de um caloroso abraço, brincaram com o histórico episódio: “bandida!”, disse Elza, às gargalhadas.


Mostrando a minha identidade

Fábio Fabato


Meados da década de 60. Num sábado de verão, o ensaio comia solto na quadra da Mocidade. A paradinha já existia. Festa emoldurada pelo bailar de mestre-sala e porta-bandeira, passistas, baianas, cabrochas, todo o leque de fundamentos do DP (apelido da agremiação). De novidade aparente, apenas um enorme segurança formato armário, bem na porta da quadra. Símbolo dos ditos "tempos modernos". Lá pelas tantas, Jorge Carioca, popularíssimo compositor da casa e da região, decidiu dar uma enganada no calor suado que castigava aquele minifúndio folião. Destino? O bar localizado em frente à quadra. Saiu de mansinho, pleno de um jeitão malandreado que o tempo levou embora. Mandou descer todas as cervas que conseguiu enxergar. Abraçou amigos de ofício boêmio, arriscou batucadas na palma da mão. Tempos aqueles de efervescência dos sambas de quadra, à época, as vedetes dos ensaios e inspirações poéticas de Padre Miguel. Jorge ficou por ali alguns minutos. Resolveu voltar. Com muitos copos na cabeça, seguiu cambaleante até a quadra. Encontrou a portaria aos tropeços e, imediatamente, foi abordado pelo leão de chácara da segurança. "O senhor não pode entrar aqui!", disse o homem, com a aura de pequeno poder do tamanho do mundo.


A língua e o pensamento pra lá de enrolados não impediram Jorge Carioca de retrucar: "Claaaro que posso!". O segurança parecia uma barreira intransponível: "Não, não pode. Quem é você?". Àquela altura, já havia juntado diretoria, velha guarda, todos tentando desfazer a trincheira e permitir a entrada do compositor. Eis que Jorge, mesmo ainda trocando as palavras, “recebeu” o insight dos sonhos, algo que marcaria para sempre a história da agremiação ainda moça. Colocou a mão no bolso, tirou dele a sua carteira da ala de compositores e, no improviso, cantarolou, como repentista: “Mostrando a minha identidade / Eu posso provar a verdade a essa gente / Como eu sou da Mocidade Independente”. Resultado: aplausos rolaram soltos, até mesmo o tal segurança caiu na festa. Tempos depois, o samba criado às pressas e à la “barrados no baile” ainda ganhou segunda parte e um autor a mais, Djalma Crill. Criava-se assim, naquele lampejo etílico, um dos hinos mais marcantes da Verde-e-Branco de Padre Miguel. 

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