Ricardo Barbieri: ‘A moral do samba-enredo no carnaval’

 

 

Passou o Carnaval. Passou mas não acabou. Ainda não acabou. Não conseguiram acabar com o Carnaval.
 
Pelo menos por enquanto a destruição lenta do samba (que resiste aqui e ali) vai dando sobrevida a ele.
 
Presenciamos, mais uma vez, sambas medíocres causarem constrangimentos em comunidades inteiras, obrigadas a cantar “atirei-o-pau-no-gato” como se fosse obra-prima.
 
Lemos na internet manifestações alucinadas tentando promover “boi-com-abóbora” e convencer que é um primor de composição.  Um tal de “vote em nosso samba no site tal”, “não pode criticar senão um jurado lê” e outras abobrinhas.   
 
Lidamos ainda, com compositores atacando outros compositores numa histeria de inveja patológica.  Alguns invocando uma tal ética.  Como se houvesse uma classe de compositores capaz de elaborar um código de ética.  Falta para alguns, inclusive moral. Quando começa um concurso de samba, os defensores da ética vendem a própria mãe por uma vitória.
 
Antes que derramem seu fel, ruminado ao longo da entressafra, aviso que eu me divirto como compositor. Mas, ainda não consegui criar nada como Aquarela do Brasil, tampouco algo próximo de Lendas e mistérios do Amazonas. Nem tenho as maravilhosas conquistas de meu parceiro João Estevam. Mas, como gostaria de fazê-lo. Obtive algumas dezenas de modestas vitórias em escolas do acesso. Porém, chega a ser ridícula a autopromoção de cabeças-de-bagre se comparando a Silas de Oliveira, se sentindo deuses, acima do bem, do mal e ditando regras. Falta humildade pra caramba.
 
Estão matando o samba por vaidade e egoísmo.
 
É besteira acreditar nesse lado imaturo, cegamente fanatizado e obcecado do samba. É preferível dar valor ao que tem real valor.
 
A Portela renasceu? Foi o que vimos neste carnaval. A comunidade feliz, com samba no pé, com fantasias lindas e cantando muito.
 
Mas, principalmente, o samba respira através da Portela. Nestes últimos três anos, a escola teve sambas apontados como os melhores do carnaval. E em 2014 foi a única escola que obteve quatro notas dez em samba-enredo. Isto não acontecia há pelo menos três anos.
 
No carnaval moderno a vitória é conquistada quesito a quesito. Com muita técnica. E como eu vivo a técnica o ano todo, em meu trabalho, prefiro no carnaval viver a arte e ser encantado por ela.
 
E, cá pra nós, carnaval técnico pode vencer mas, é chato pra caramba.

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