Ricardo Barbieri: ‘A união no mundo do samba’

 

 

“Brasileiro é solidário no câncer”. Já disse Nelson Rodrigues.
 
Um novato, num ambiente de samba, imaginaria que todas aquelas pessoas sorrindo, bebendo, dançando e cantando, tendo tanto em comum, são muito unidas. Porém, é curioso como um mundo tão pequeno (por ser restrito) como o mundo do samba é dado a distanciamentos e formação de grupinhos.
 
Para haver união é necessário um inimigo comum. Isto acontece por exemplo num concurso de samba-enredo. Quando uma parceria se destaca como favorita, passa a ser objeto de intrigas e fofocas. É marcada na cola.
 
Os compositores também se unem contra uma parceria composta por “estrangeiros”. Estrangeiro, no linguajar do meio, é o cara que vem de fora, de outra escola ou pior, nem é do samba.
 
Quando muda o mestre de bateria que era querido, exaltado como o melhor do mundo, é aplicada a máxima “rei morto, rei posto”. Imediatamente, ao ser divulgado o novo mestre, este passa ser o queridinho e o antigo é criticado de todo jeito.
 
O mesmo acontece com rainhas de bateria. Quando assume a nova, ouvem-se os comentários: “Ah! Mas é muito mais bonita.  A anterior nem era tanto…  Era até meio feinha a coitadinha”.
 
É. No mundo do samba “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
 
Mas, quando alguém de fora fala mal da escola… Ih! Aí a coisa fica feia. A escola toda se une quando existe uma crítica externa. Todos contra o crítico. Daí o presidente que estava meio chamuscado, estufa o peito e prega a união.
 
Dentro das quadras, ainda existem diversos grupos. Baiana anda com baiana, compositor com compositor, ritmista com ritmista, harmonia com harmonia.
 
Os ritmistas bebem juntos, quase sempre na mesma barraca, dentre as tantas instaladas no entorno da quadra. A turma do carro de som chega e sai junto de todos os lugares. As esposas são amigas e fazem companhia umas às outras em todos os eventos.
 
Mas se engana quem acredita que exista união dentro dos grupinhos. Nem a afinidade, tampouco o talento em comum, impedem que um tente dar uma rasteira no outro.
 
É um tal de ritmista querendo derrubar mestre. Por isso que alguns mestres mudam de escola e levam consigo quase uma bateria inteira.
 
Para se ter uma idéia da desunião que pode acontecer: sabemos que uma parceria de samba-enredo conta, em média, com cinco integrantes. Desses cinco dois ou três compõem de fato o samba.  O restante entra com o custeio. No final das contas, no samba vencedor as despesas dos dois é retirada e o restante dividido em partes iguais. A novidade é que tem comprositores, que não fizeram nada ou quase nada, querendo diminuir a participação dos reais autores no percentual dos direitos autorais.
 
É lobo comendo lobo ou é lobo comendo bobo?

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