Ricardo Barbieri: ‘A vontade da elite no carnaval’

 

 

A geral do Maracanã era um lugar do povo mais simples. Lá o ingresso custava quase nada. Lá era possível que trabalhadores humildes participassem da festa e vissem de pertinho seus ídolos nos clássicos do futebol carioca. E o povo sorria. Porém, vendo o sorriso do povo, a elite disse: “Eu quero!”
 
Então, o Maracanã foi reformado e onde um dia havia a geral, foi erguido um lugar mais caro. Pois ali, acreditavam, certamente está a felicidade. E quem quiser tê-la vai ter que pagar caro. A Passarela do Samba foi concebida contemplando um espaço semelhante à geral do Maracanã. Lá, imaginavam seus idealizadores, o povo poderia ver de perto a beleza dos desfiles, interagir com a parte do povo que desfilava e… sorrir. Mas a elite viu isso e disse: “Eu quero!”
 
Então o espaço reservado para o povo foi reformulado e criaram frisas, inacessíveis para o povo simples.
 
A Intendente Magalhães é um lugar idealizado por ninguém mas que, naturalmente, foi ocupado pelo povo. Lá famílias inteiras de pessoas humildes assistem a desfiles. Com menos luxo que no Sambódromo mas com muito samba. E as crianças brincam, os adultos cantas e todos sorriem. A elite disse: “Lá eu não quero, é longe, é feio. E se não quero ninguém pode ter”.
 
Desde então existe o esforço obsessivo de acabar com o carnaval da Intentendente. Assim as elites vão buscando encontrar a felicidade. Onde estiver um homem simples do povo sorrindo, a elite crê ser um lugar onde privilegiadamente se encontra a felicidade.
 
Como o samba faz o povo sorrir, assim como onde tem samba tem festa, pois o samba vem do povo e os grandes sambistas carregam o gene do samba; mais uma vez a elite diz:  “Pode embrulhar que eu compro.”
 
Daí, passaram a tentar reproduzir o samba em laboratório. Criaram um padrão de qualidade; e assim o carnaval foi pasteurizado, a TV estabeleceu a plástica, o modelo vai se adequando. Uma pseudodisputa foi organizada. Essa disputa cheia de falsos especialistas. Alguns julgando sambas que o povo elegeu como imortais e atribuindo-lhes defeitos, fazendo críticas e se expondo ao ridículo.
 
Só que essa elite não entende que a felicidade vem de dentro, vem da capacidade interior de se contentar com coisas simples. A felicidade não tem hora marcada. Não a encontramos num desfile de escola de samba onde podemos comprar um lugar de destaque, assinar como pombo um samba qualquer, receber um prêmio sem méritos. A felicidade não está no que vemos; ela é construída dentro de nós.
 
Portanto, gente que não entende o samba; deixe o samba em paz. Permita que ele reencontre seus ancestrais e dê-lhe chance de reviver sua beleza. Aprenda a sorrir com o sorriso do povo. E, quem sabe um dia, vocês encontram essa tal felicidade.

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