Ricardo Barbieri: ‘Crise e a safra de sambas’

Ai! Que esse país vai de mal a pior..
 
Por culpa do povo, do governo, da oposição, dos colonizadores? Não sei. Só sei que gostaria muito que tudo desse certo sempre. Mas, nem sempre (ou quase nunca) as coisas acontecem porque queremos.
 
Então, nos resta admirar as belezas com as quais fomos presenteados, pelo acaso ou por Deus (depende da fé). Fé é um contrassenso que motiva até aqueles que dizem não tê-la. Os materialistas também têm fé (embora neguem) de que a política vai melhorar, creem que tudo o que os políticos (com os quais simpatizam) dizem é verdade e que ladrões são os outros. Somos um povo crédulo e otimista.  Neste mafuá, o carnaval se aproxima.
 
Mais uma remessa de sambas medianos pra ruins sai do forno. É neste momento que a paixão chega ao nível de insanidade. Quem não vive o samba e do samba não compra, tampouco presenteia os amigos com CD das escolas de samba. “Falta divulgação” dizem aqueles que não gostam de lidar com os fatos. 
 
Caramba! Propõem, sem sentir, que se faça uma lavagem cerebral nos moldes do Axé, do sertanejo e do pagodinho choraminguento. Dizem que as rádios têm que tocar mais samba. Muito mais samba. Tanto quanto tocam nas quadras para fazer a “comunidade” entoar o boi-com-abóbora que foi escolhido para ser “hino” da agremiação.
 
O pior é que esta comunidade doutrinada a cantar qualquer coisa, parece, não vê a hora de se livrar desta obrigação. Tanto que ninguém aguenta entoar o “hino” um dia depois de terminado o carnaval. Habemus samba; não habemus sambaum, nem sambabaum. Mas, quem se importa?  O bom mesmo é comemorar, pois a vida é curta e a felicidade está em momentos (cada vez mais raros) de alegria para o povo.
 
Esta sim a razão dos amantes, daqueles apaixonadíssimos por carnaval, começarem a sentir tremelhiques e suor nas mãos:  Reviver o reinado de Momo, em dias que parecem não ter fim.  Podem ser dois, quatro, cinco ou mais dias. Depende da disposição.
 
Assistir, comentar, transmitir por rádio, TV, Web, desfilar em escolas de samba do Grupo Especial, Grupo de Acesso, Intendente Magalhães, carnaval paulistano, manauara, brasiliense, blocos de enredo, blocos de embalo, blocos de sujo, bares, bailes, bebedeiras, euforia… Ufa!
 
O cansaço depois dos desfiles das campeãs não é somente físico; é meio emocional, por tudo ter que se acabar. Calma. É só esperar mais alguns meses pra recomeçar. Sei que estou dissonante do lugar comum que apregoa "mais uma boa safra", como sempre, como ano passado, ano retrasado… dando notas na internet, notas altas e cuidadas. Mas, samba é arte e cada um é sensibilizado de um jeito e por um estilo. 
 
Quando a Portela vinha trazendo sambas diferentemente lindos, veio a esperança de que uma onda de ousadia se propagasse. Mas, a própria Portela decidiu estabelecer um limite para a ousadia e passou a apostar num estilo que vinha dando certo.  
 
Calma. É só esperar mais alguns meses pra recomeçar. O carnaval parece ser a mais forte “instituição” do país. Ninguém cogita destronar Momo. E quem tentasse seria levado ao aeroporto e deportado sob aplausos.
 
A política nacional deveria ser entregue à Momo. A capital do país deveria ser na capital do samba. Neste reinado não tem crise, não tem corrupção (sic), nem golpe. Ninguém pensa em desemprego, dá uma banana para a inflação e a esperança vence o medo todo ano. 
 
Salve o samba!