Ricardo Barbieri escreve sobre os dirigentes que alteram os sambas escolhidos

A MONALISA É VESGA

De bundinha de neném e cabeça de dirigente de escola de samba nunca se sabe…

Eles não se contentam mais com o cabresto das sinopses rimadas, onde essas rimas pobres só complicam e deixam pouco claro o que se pretende com o enredo.

Para eles, também, não basta grifar trechos da sinopse e torná-lo obrigatório nas letras dos sambas. A perseverança em acabar com a qualidade dos sambas-enredo transcende junções desnecessárias e escolhas erradas. A mediocridade os leva a adulterar a arte.

Após a escolha do que chamam de “hino”, começa o que já se tornou tradicional: são os “ajustes” em letra e melodia. O doutor Frankenstein e seus assistentes cortam daqui, incluem dali, levantam o tom, aceleram e criam o monstro. O qual, depois de uma boa maquiagem, fica até bonitinho.

É surpreendente o esforço hercúleo em maltratar o samba.

As letras de Cartola são tão coloquiais (e aí está parte da beleza) que se permitem uma série de erros de português, principalmente de concordância. Em “Fiz por você o que pude”, Cartola lança a pérola: “Eis que Jesus me premeia…”

Dorival Caymmi faz pleonasmo com seu “coqueiro que dá coco”.

Uma ocasião tivemos que mudar o “Chefe da polícia”(alusão ao primeiro samba gravado) por “Chefe de polícia” por ordem do presidente.

Imaginem o dia em que aparecer um sabichão sem talento para corrigir o cancioneiro popular…

Mas, não estamos falando aqui de erros de português e sim do capricho de dirigentes de escolas de samba que se metem a ser compositores e interferem na arte.

A arte não precisa de estética perfeita ou gramática correta, a arte tem que ter alma. A cultura não tem que ter perfeição até porque este ideal está nos olhos de quem vê.

Ora. Após uma construção melódica inteligente e de beleza rara hoje em dia, vem um fulano “axéizar” o trabalho dos verdadeiros artistas ?

Os compositores não podem fazer nada. Afinal, receberam uma quantia expressiva pelo seu trabalho e este agora pertence a escola que faz o que quiser com ele. E ela (a diretoria da escola) faz miséria.

Liberdade poética? Sentido figurado? Nada disso. Crêem que tem que ser direto mesmo, para que os jurados entendam. Presume-se uma burrice crônica.

Começo a considerar que a culpa é dos escritórios de samba-enredo, que pasteurizam o samba e vendem um modelo para ser produzido em série. Nenhuma produção em série tem alma pois esta já foi vendida para o Diabo faz tempo. Falaram tanto em dirigismo cultural. Isso não é dirigismo cultural? E sem contrapartida.

E se acharem, um dia, que a Monalisa é vesga? Provavelmente vão mandar retocar.

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